Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
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Os domingos e dias de festa

Porque é que preferes um dia ao outro?… Foi a sabedoria do Senhor que os distinguiu (Ecl. XXXIII, 7-8).

Minha filha, ainda não conheces os desígnios com que eu, teu Senhor e teu Deus, instituí os dias de festa. Considerá-los como dias de mera distração e recreio e convertê-los em dias teus, quando propriamente me pertencem a mim.

Mas então, Senhor, para cumprir com o Vosso mandamento não basta abster-me de trabalhos servis, e ouvir a missa como ordena a Igreja?

Filha, não sejas tão pouco generosa para comigo! Não te dei eu seis dias da semana (1) para te entregares aos negócios terrenos, durante os quais só te peço o pequenino tributo das tuas orações ordinárias?

É verdade, Senhor; mas, como trabalhei durante eles, desejava aproveitar o sétimo no meu descanso e recreio.

Ninguém te proíbe que o faças; é até por isso que esses dias se chamam de descanso, e foi por isso que eu disse outrora ao povo escolhido: Nos dias determinados descansareis de todo o trabalho (2). Mas repara que há um descanso que alivia o corpo e a alma, e outro que apenas satisfaz a parte terrena do homem. A alma, quando se encontra engolfada em mil negócios temporais, sobrecarregada de cuidados e oprimida por uma multidão de trabalhos precisa muitas vezes de descanso para vivificar a sua comunicação com o mundo superior.

Por aqui poderás calcular quão grande é a minha sabedoria e o meu amor de Pai.

Determinei dias em que pudesses descansar verdadeiramente em mim, dias que devem ser dedicados ao negócio mais importante da vida, qual é o da tua salvação.

Sabe, filha, que uma das causas principais da profunda corrupção moral que lavra em todo o mundo, é por um lado a falta de respeito à lei do descanso, por outro a profanação que se faz desses dias, empregando-os nas mais desenfreadas paixões. É por isso que a terra está desolada (3). Já não existe sequer um laço capaz de unir os homens com o Criador; os desgraçados entregam-se absolutamente às coisas do mundo. Ocupados com os negócios temporais nos dias de trabalho, que tempo lhes fica para pensarem na alma, na outra vida, na eternidade, no céu, se empregam também os dias festivos nos prazeres e frivolidades? Mas ai! os seus dias de festa trocar-se-ão em pranto, os seus sábados em opróbrio, as galas em nada (4). Os ímpios dizem: Que diferença há entre um dia e o outro? Acaso não procede do mesmo sol a luz de todos eles? Homens de pouca inteligência, sabei que a sabedoria do Senhor os quis distinguir uns dos outros, visto que o sol foi criado para seguir a sua órbita, conforme disposição de Deus. Eu distingui os dias ordinários dos de festa. Elevei e santifiquei uns e coloquei os outros no número dos dias ordinários. Dispus assim na minha sabedoria, e os caminhos da minha providência são vários (5).

Senhor, confesso que até agora não observei como devia este mandamento. Fui ingrata, que ousei apropriar-me do que é Vosso. Procedi como inimiga da minha alma, porque perdi dias tão preciosos que podia e devia ter aproveitado em bem da minha alma.

É verdade que a Igreja me exorta com frequência a consagrar ao Senhor estes dias, convidando-me com o repicar dos sinos aos exercícios do culto divino, proporcionando-me muitas ocasiões para assistir ao Santo Sacrifícios da Missa, para ouvir a palavra divina e para receber os Santos Sacramentos, desenvolvendo toda a pompa e magnificência no culto divino, e solenizando-o com cerimônias encantadoras.

Oh que indiferença a minha! Enquanto os outros fiéis corriam a reanimar neles a sua piedade, eu corria atrás de prazeres vãos, de conversas sem sim, de jogos e leituras perigosas. Contudo o descanso que eu desejava era apenas uma necessidade fictícia, porque o trabalho raras vezes me fez correr pelo rosto uma gota de suor.

Ensinai-me, Senhor, a passar os dias que vos são consagrados dum modo santo e segundo o espírito da Igreja, que é o Vosso Espírito.

O teu desejo consola-me, filha, pois dá esperança de que hás de ser melhor. Fazes bem em pôr ao menos bom remate a cada semana que termina, para começares bem a que principia. recolhe-te na véspera, e lembra-te que estás no limiar do dia que me é consagrado.

Nestes dias procura adornar melhor o coração do que o corpo. Faz as tuas orações ordinárias com maior diligência e pontualidade. Assiste com devoção, recolhimento de espírito e compostura ao Santo Sacrifício da Missa. E se não houver razão que lhe impeça, não deixes de estar também presente aos ofícios divinos que se celebram na tua paróquia. Ainda que em geral basta ouvir Missa para cumprir com o preceito da Igreja, contudo é conveniente que assistas às solenidades do culto e sobretudo que ouças a palavra divina.

Depois do meio dia, ou à tardinha, assiste também aos exercícios de devoção, ou visita algum igreja e faz algum tempo de oração.

Os dias de festa são particularmente a propósito para a recepção dos sacramentos, porque neles tens tempo para uma preparação e ação de graças mais tranquila.

Não deixes passar, sobretudo se não puderes ouvir a palavra divina, sem ler algum livro espiritual ou meditar nas verdades da fé.

Não convertas em ociosidade perigosa o descanso que eles te proporcionam.

Vê que as tuas recreações sejam moderadas e ordenadas de modo que não prejudiquem o espírito de santo recolhimento que convém ao dia do Senhor.

Minha filha, é assim que deves empregar os dias santos: praza ao céu que eles sejam para ti dias de bênção. Felizes os que guardarem os dias santos, e elegerem o que eu elegi, e abraçarem a minha aliança: dar-lhes-ei na minha casa e a dentro das minhas muralhas um lugar e um nome sempiterno que não perecerá jamais (6).

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

(1) Ex. XXIII, 12.
(2) Ex. XXXV, 3.
(3) Jer. XII, 11.
(4) Mac. I, 41.
(5) Ec. XXXIII, 7-11.
(6) Is. LVI, 4-5.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico