1 – DA VIRTUDE DA PENITÊNCIA
Varias significações tem esta palavra Penitência. Nós, deixando as que não vêm ao presente propósito, tomamos as duas principais, em que vamos entender neste capitulo: da Penitência como virtude, e como sacramento. No primeiro sentido a Penitência é uma virtude moral, que inclina nosso coração a detestar o pecado, enquanto é ofensa a Deus; e a um propósito firme de o evitar para o futuro, e dar ao Senhor a devida satisfação. É virtude moral, visto como regula o modo do arrependimento para que este não seja vicioso, nem por excesso, nem por defeito. Não porque possa o arrependimento de ter ofendido a Deus ser alguma vez demasiado; pois quanto maior for, mais agradável Lhe é, e mais meritório: o excesso aqui consiste em levar o pesar e tristeza além dos limites pela desesperação. Quando o pecador pondo só os olhos na malícia de sua culpa, não os põe ao mesmo tempo na misericórdia divina, e diz, como Caim, tão grande é o meu crime, que dele não terei jamais perdão; este arrependimento não é Penitencia, senão
nova culpa, e porventura mais grave do que a primeira. O defeito se dá nos que não se doem do pecado, ou se doem tão fracamente, que não chegam a romper de todo com ele. Tal arrependimento não é tão pouco verdadeira Penitência, nem pode lograr seus salutares efeitos. Esta virtude faz aborrecer a ofensa a Deus sobre todos os males, afasta o homem do pecado, une-o com Deus, de quem a culpa o trazia afastado, arma o pecador de um santo ódio contra si mesmo, e o obriga a vingar em si os maus termos, com que se houve contra a Soberana Bondade, inclinando-o a prestar tudo quanto Deus exige dele.
Por ela é que se salvavam os pecadores, antes que fosse por Jesus Cristo elevada à dignidade de Sacramento; e por ela ainda hoje alcançam a graça, o perdão e o céu, os que não podem receber o Sacramento, estando dispostos, e tendo desejo de o fazerem, logo que possam. A Penitência sempre foi necessária à salvação do pecador; E o mesmo Deus não o pode dispensar dela. O mesmo Jesus Cristo confirmou esta verdade, dizendo em termos decisivos, que se não
fizermos Penitência morreremos eternamente. Nisi Poenitentiam habueritis omnes similiter peribitis (1). Antes da Lei do Evangelho ela por si só restituía o pecador à amizade de Deus; hoje, é a matéria principal do Sacramento da Penitência, que sem ela fica nulo, e de nenhum proveito. Acrescentou-lhe Jesus Cristo a acusação das culpas feita ao Sacerdote, seu Ministro, para ser a matéria total deste Sacramento; sobre a qual cai a absolvição dada pelo mesmo Sacerdote, que é a fórma que o perfaz, perdoando os pecados e infundindo a graça. Isto pelo que respeita a Penitência, como virtude: o mais que resta dizer sobre ela, reservamos para quando tratarmos da Contrição, que será na segunda parte, falando das deste Sacramento, no qual já entramos.
2 – DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA
De várias maneiras costuma ser nomeado o Sacramento da Penitência, e nós vulgarmente o chamamos Confissão, pegando-lhe o nome de uma de suas partes, pelo qual desde muito tempo é conhecido em alguns lugares. Por isso no andamento deste tratado, nos servimos indiferentemente ora de um, ora de outro nome.
Penitencia é um Sacramento instituído por Jesus Cristo, que pela absolvição do Sacerdote ao pecador contrito e confessado perdoa os pecados cometidos depois do Batismo. Para que possa existir, ou perfazer-se este Sacramento, vê-se que é necessário que o pecador contrito se confesse dos pecados cometidos depois que foi batizado e ainda não acusados; e que receba do Sacerdote a absolvição. Quando digo contrito, entendo um pecador que leve no coração a virtude da Penitência, matéria principal deste Sacramento; isto é, que aborreça os pecados todos, que esteja determinado a os não cometer, e a dar a Deus a conveniente reparação do desacato feito ao mesmo Senhor. Já por isso esta Contrição inclui três coisas: a dor, o propósito e a vontade de satisfazer. Estas sempre foram de absoluta necessidade para qualquer culpado se reconciliar com Deus. Ajuntou-lhes Jesus Cristo mais uma parte do lado do penitente, que é a acusação sincera de seus pecados ao Sacerdote; o qual ouvindo-os, e impondo a satisfação devida, como juiz, com sua sentença absolve e perdoa o culpado; e desta arte temos completo o Sacramento da Penitência.
3 – NECESSIDADE DESDE SACRAMENTO
Donde se infere que depois de promulgada a Religião Cristã, este é o meio único para obter perdão o fiel que tornou a manchar-se com alguma culpa grave. Esta necessidade se deduz evidentemente das palavras com que Jesus Cristo instituiu o Sacramento de que nos ocupamos. Porquanto, depois de sua ressurreição, antes de se ir para o Pai, dirigindo-se aos Apóstolos, e nestes a todos os Sacerdotes, seus sucessores, disse: “Aqueles, a quem perdoardes os pecados, ser-lhes hão perdoados; e aos que os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”; que vale o mesmo que dizer: Quando não perdoardes vós, também não perdoarei eu.
Só Deus pode remitir a ofensa feita a si; só Ele pode destruir o pecado e admitir o pecador de novo em Sua amizade, se quiser, e do modo que muito bem Lhe aprouver pois é Senhor e libérrimo em escolher e por as condições com que concede o perdão. Ora, do que disse aos Apóstolos, e na pessoa destes aos Sacerdotes, que lhes sucederão, se infere com evidência inquestionável, que só por eles quer exercitar a autoridade sua própria, que são eles que hão de dar o perdão em seu nome, e quando o negarem, negado está; porque é também em seu nome que o recusam. Já vimos, que em todo o tempo foi de absoluta necessidade o arrependimento com as condições do propósito de não repetir as culpas cometidas, nem cometer outras, e de prestar a devida satisfação, ou reparação da injúria feita a Deus pelo pecado. Esta necessidade Jesus Cristo não a tirou, mas a confirmou e deixou em pleno vigor. Determinou mais, que o perdão havia de ser dado ou negado pelos Apóstolos, aos quais constituiu juízes, para fazerem suas vezes. Mas como saberão eles o que devem perdoar e o que devem reter, se os delinquentes lhes não declararem as suas culpas? Porventura poderão dar às cegas a absolvição, ou recusá-la? Encher os ofícios de juízes impondo penas, determinando reparações, lavrando sentenças, sem prévio conhecimento da causa? isto fôra à mais absurda coisa do mundo. E se é indispensável que sejam inteirados da causa, não o podem ser senão pelo mesmo delinquente com a acusação que de si fizer. Destas considerações resulta a necessidade absoluta, em que se acha o pecador de recorrer ao Sacramento da Penitência, para de novo se congraçar com o Soberano Bem. Por esta razão chamaram os Santos Padres à Penitência segunda tábua depois naufrágio da culpa. Para sairmos do pecado a que nos arrastou a desobediência de Adão, e dos que a esse ajuntamos com as nossas próprias, deixou-nos Jesus Cristo a tábua do Batismo. Prevendo porém que a maior parte dos cristãos haviam de abandoná-la quase tão depressa como a tivessem alcançado, atirando-se de novo ao mar do pecado, proveu-nos sua infinita misericórdia desta segunda tábua no Sacramento da Penitência, em que podemos ainda escapar da morte, e chegar ao porto da salvação eterna. Assim o definiu o S. Concílio Tridentino na Sessão 14, c. 2 . Mas se o pecador a enjeita, resta que pereça em seu pecado, e a si mesmo atribua sua desgraça. Veja bem qual deve ser o castigo que merece, e que o espera, por ter assim afrontosamente repelido um Deus, que levou sua misericórdia a ponto de oferecer segunda tábua salvadora a quem voluntariamente quebrara a primeira. Não cessemos os pecadores de louvar e agradecer este precioso mimo de Jesus Cristo, que a Ele custou todo o seu sangue, e a nós se nos dá de pura graça. Aproveitemos esta via de salvação, bem persuadidos que outra não nos é concedida.
Alguns tomados pelo demônio, cujo maior empenho é embargar-nos a graça, costumam sair com esta evasiva, dizendo eu me confesso com Deus, e lhe peço perdão, isto basta não preciso de chagar-me à Confissão. Vãs ilusões! pernicioso engano! Para seres perdoado não está o ponto em te confessares a Deus, que, melhor do que tu, penetra no fundo de teu coração, e lhe descobre as mazelas. Está sim em procurares o perdão pelos meios, porque t’o quer Ele conceder. Se recusas emprega-los, nunca o lograrás. Vimos como Jesus Cristo o ligou à confissão, dando as chaves do céu a S. Pedro; e por este aos Sacerdotes. Se a eles não recorres para que te abram a porta, trabalhas debalde; porque nenhuma pessoa, nenhumas obras, nenhumas virtudes t’a podem abrir. Fôra inútil confiar a S. Pedro as chaves do Paraíso, se lá pudesse alguém ter entrada que não fosse por ele recebido, e introduzido. Demais disto, pretender tal coisa é acusar de néscio o mesmo Jesus Cristo, pois que valera o instituir um Sacramento, para perdão dos pecados, se qualquer o pudesse conseguir por outras vias? Tão pouco devemos suspeitar, que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dificultou o perdão, obrigando-nos à Confissão, quando outrora sem ela se alcançava.
Não dificultou, fe-lo muito mais fácil. Antigamente o pecador, para ter remissão de suas culpas, havia mister uma contrição muito mais perfeita e levantada; ao passo que neste Sacramento se contenta o Senhor com uma menos acrisolada do que aquela como adiante explicaremos. Quem assegurava os penitentes de então, que a tinham, e que estavam perdoados? Hoje temos um Ministro, que em nome de Jesus Cristo, e com sua autoridade nos remite as culpas, e nos assegura, que estamos reconciliados com Deus. Ajuntemos a estes benefícios as graças singulares que nos confere o Sacramento, a força para vencermos os trabalhos da virtude, a consolação, que resulta da confiança de estarmos restituídos na amizade divina, a diminuição das penas temporais, que devíamos sofrer, depois de perdoada a culpa; então saberemos apreciar e agradecer o ter-nos o Senhor deixado esta fonte de vida, onde a cobramos perdida, aumentamos cobrada, confirmamos incerta, e logramos infinitos bens, como havemos de mostrar no decurso desta escritura.
Mons. Silvério Gomes Pimenta, A Prática da Confissão ou Instrução Completa de quanto é necessário ao cristão saber para se confessar bem, Cap II, 2ª Edição, 1888.
(1) Luc. 13, 3.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico