O vosso modo de oração é bom; somente, sede be m fiel em ficar ao pé de Deus nessa suave e tranquila atenção de coração, e nesse doce adormecimento nos braços da sua providência, e nessa meiga aquiescência à sua santa vontade, pois agradável lhe é tudo isto.
Conservar-se na presença de Deus e colocar-se na presença de Deus são, a meu ver, duas coisas; porquanto, para se lhe pôr na presença importa tirar a alma de qualquer outro objeto e torná-la atenta a essa presença atualmente, assim como o digo no livro (“Vida devota”) .
Mas, depois de nos havermos colocado nessa presença, nela sempre nos mantemos enquanto, ou pelo intelecto, ou pela vontade, fazemos atos para com Deus, seja visando a ele mesmo, seja visando qualquer outra coisa por amor dele; ou nada visando, mas falando-lhe; ou não o visando nem lhe falando, mas simplesmente ficando onde ele nos pôs, qual estátua no seu nicho. E, quando a essa simples permanência se junta algum sentimento de sermos de Deus e de ser ele o nosso Tudo, bem devemos dar graças à sua bondade.
Se uma estátua, que soubéssemos colocada no seu nicho no meio de uma sala, falasse e lhe perguntássemos: Porque aí estás?, ela diria: Porque meu amo o estatuário aqui me pôs. – E por que não te mexes? – Porque ele quer que eu fique imóvel. – E de que serves aí? Que proveito tiras de estar assim? – Não é para meu serviço que aqui estou, é para servir e obedecer à vontade de meu amo. – Mas não o vês? – Não, diria ela, porém ele me vê e gosta de que eu esteja onde ele me pôs. – Mas não quererias ter movimento para ires mais para perto dele? – Não, a não ser que ele mo ordenasse. – Então nada desejas? – Não, pois estou onde meu amo me pôs, e o gosto dele é o único contentamento de meu coração.
Meu Deus, que boa oração e que bom modo de se manter na presença de Deus é mantermo-nos na sua vontade e beneplácito! Parece-me que Madalena era uma estátua no seu nicho quando, sem tugir nem mugir, sem se mexer, e quiçá sem o olhar, escutava o que Nosso Senhor dizia, sentada a seus pés. Quando ele falava, ela escutava; quando ele deixava de falar, ela deixava de escutar, e no entanto lá estava sempre. Uma criancinha que está dormindo no seio de sua mãe está verdadeiramente no seu bom e desejável lugar, posto que a mãe não lhe diga palavra, nem a criança a ela.
Ó Deus verdadeiro, que boa maneira de se conservar na presença de Deus é estar e querer sempre e para sempre estar no seu beneplácito! Porquanto assim, conforme penso, em todas as ocorrências, até mesmo dormindo profundamente, ainda mais profundamente estamos na santissima presença de Deus. Sim, certamente, porque, se o amamos, adormecemos não só na sua vista mas a seu agrado, e não só pela sua vontade, senão segundo a sua vontade; e parece que ele próprio, nosso Criador e Escultor celeste, é quem nos deita lá nos nossos leitos, quais está tuas nos seus nichos, a fim de que nos aninhemos nos nossos leitos como as aves se deitam nos seus ninhos; depois, no nosso despertar, se pensarmos bem nisso, achamos que Deus nos esteve sempre presente, e que nós também não nos afastamos nem separamos dele. Estivemos, pois, lá, na presença do seu beneplácito, posto que sem o vermos e sem repararmos; de sorte que, à imitação de Jacob, poderíamos dizer: Verdadeiramente eu dormi ao pé de meu Deus e nos braços da sua divina presença e providência, e absolutamente não o sabia.
Em todas as vossas ações estareis na presença de Deus se as fizerdes todas por Deus. Comei, dormi, trabalhai para ele; isso é estar na presença dele. Não está em nosso poder tê-lo atualmente, a não ser por uma graça particular. Fazendo algumas obras em que temos de pôr nossa atenção, de vez em quando devemos repor nosso espirito em Deus; e, quando faltarmos a isso, devemo-nos humilhar, e da humildade ir a Deus, e de Deus à humildade, com confiança, falando-lhe como o filho fala a sua mãe, pois ele bem sabe o que nós somos.
O Segredo da Salvação, A Lembrança da presença de Deus e as Orações jaculatórias, extraído das Obras de S. Francisco de Sales, por Fernando Millon, Missionário de S. Francisco de Sales, 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico