Disponhamo-nos para a união

Ó Jesus, fazei que eu saiba aproveitar-me plenamente da graça da união conVosco que me ofereceis cada dia na Sagrada Comunhão.

1 – Por virtude própria, a Eucaristia une-nos a Cristo; a união física com Ele é idêntica para todos os que se alimentam do Seu Corpo e do Seu Sangue. Apesar disso, esta união não produz em todos os mesmos efeitos; isto é tão verdade que, para quem se aproxima indignamente da sagrada Mesa, é motivo de condenação: “todo aquele que come este pão e bebe o cálice do Senhor indignamente, come e bebe para si a condenação” (I Cor. 11, 27 e 29). Mesmo naqueles que se aproximam dignamente da Eucaristia os efeitos que dela derivam não são os mesmos, mas são sempre proporcionados às suas boas e perfeitas disposições.

Jesus penetra em mim e transforma-me nEle só na medida em que eu não Lhe ponho obstáculos e estou disposto a receber a graça particular da Eucaristia, a graça de “união a Cristo”. Embora seja um dom tão grande, a união física com Jesus que a Sagrada Comunhão me oferece, está ordenada à minha união espiritual com Ele, à minha transformação nEle por amor; união e transformação que serão tanto mais profundas, quanto melhores forem as disposições com que me aproximar da sagrada Mesa. Estas disposições consistem em preparar o meu coração para uma união cada vez mais estreita com o Senhor, união que exige uniformidade de aspirações, de gostos, de sentimentos, de vontades. Como poderia gozar da visita de um amigo, passar com ele momentos de doce intimidade, de verdadeira união, se entre ele e mim houvesse divergência de desejos, de afetos, de vontades? Eis a mais bela preparação que posso fazer para as minhas Comunhões: esforçar-me por tirar da minha vida tudo o que pode, mesmo levemente, discordar da vontade divina, dos sentimentos e disposições do Coração de Jesus. “Tende entre vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo” (Fil. 2, 5), diz-me S. Paulo; deve ser este o programa da minha preparação remota para a Sagrada Comunhão.

2 – Para que a Eucaristia produza em mim todo o seu fruto e seja para mim ocasião duma união mais íntima e plena com Jesus, não basta, como diz Sto Agostinho, que eu coma materialmente o Seu Corpo, é necessário que o coma “espiritualmente”, ou seja, que o meu espírito esteja bem disposto e preparado para receber o Corpo de Cristo, para se deixar invadir e transformar por Cristo. Quando Jesus, ao vir a mim, encontrar o coração, a vontade, os afetos e sentimentos totalmente conformes aos Seus, nada O poderá impedir de Se me comunicar plenamente; a Sua vida, o Seu espírito, a Sua divindade, penetrarão nas fibras mais íntimas do meu ser e transformar-me-ão nEle de modo que poderei dizer em verdade com S. Paulo: “Vivo, já não eu, mas é Cristo que vive em mim” (Gál. 2, 20).

É mister que eu vá comungar com um coração dilatado pelo amor, inteiramente aberto à invasão de Jesus, inteiramente disposto a deixar-se penetrar e transformar por Ele. Cada Comunhão, além da presença física de Jesus e em virtude desta Sua presença, traz-me um novo aumento de graça e de caridade, mas este aumento será proporcionado à minha capacidade de o receber. Se o meu coração está encerrado no egoísmo e no amor próprio, se está preso pelo apego às criaturas, se está demasiadamente ocupado por afetos e negócios terrenos, não terá capacidade para um aumento de amor divino e Jesus ver-Se-á, por assim dizer, forçado a limitar a efusão da Sua caridade e a diminuir os Seus dons. Sim, por meio da Comunhão, Jesus dá-Se todo a mim na Sua Pessoa de Homem-Deis e une-Se todo a mim; mas se eu não me dou todo a Ele, Ele não pode comunicar-Se totalmente a mim como o amigo se comunica ao coração do amigo fiel. Na Sagrada Comunhão Jesus oferece-me todos os dias uma graça atual para O amar mais, para me unir mais a Ele; por conseguinte, devo oferecer-Lhe todos os dias um coração mais aberto ao amor e à união. Atos de fé intensa na presença real de Jesus na Eucaristia ajudar-me-ão a despertar o amor, a pôr-me em ato de amor; e, justamente neste ato de amor, Jesus derramará o aumento da Sua caridade, a chama viva do Seu amor infinito.

Colóquio – “Alma minha, quando comungas, procura reavivar a fé, desocupa-me, tanto quanto possível, de todas as coisas exteriores e retira-te com Ele. Procura recolher os sentidos para que todos entendam tão grande bem, quer dizer, para que não te embaracem para o conhecer. Considera-te aos pés do Senhor e chora com Madalena como se O visses com os olhos do corpo em casa do fariseu. É muito bom este tempo para que te ensine o Mestre, e para O ouvires e Lhe beijares os pés porque nos quis ensinar, e suplicar-Lhe que não Se afaste de ti. Mesmo que não sintas devoção, a fé te dirá que o Senhor está verdadeiramente em ti.

“Porque se não quero ser uma insensata, cegando o entendimento, não posso duvidar sobre este ponto. Ó meu Jesus, isto não é representação da imaginação, como quando Vos considero na cruz ou em qualquer outro passo da Vossa Paixão, em que represento em mim mesma como aconteceu. Isto sucede agora e é inteira verdade. Ó Senhor, quando comungo não preciso de Vos ir buscar mais longe: enquanto o calor natural não consome os acidentes do pão, Vós estais em mim! Pois se, quando andáveis no mundo, só o tocar os Vosso vestidos curava os enfermos, porque duvidar que fareis milagres estando tão dentro de mim, se eu tiver fé? Sim, estando Vós em minha casa, atendereis todos os meus pedidos, pois não é Vosso costume pagar mal a pousada quando se Vos dá boa hospedagem!

“Ó Senhor, se a alma se aproxima da Comunhão bem disposta e desejando perder o frio, permanecendo algum tempo conVosco, abrasar-se-á no amor divino e ficará com calor por muitas horas” (T.J. Cam. 34, 7-10; 35, 1).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

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