Quem for fiel ao pouco, sê-lo há no muito (Luc. XVI, 10).
Os bens temporais, as honras, as riquezas e a fortuna são talentos com que devemos negociar. Do pouco ou muito que te foi dado por Deus terás um dia de prestar contas.
Que maldade, que injustiça e que ingratidão cometerias contra Deus, se te julgasses senhora absoluta desses bens e imaginasses que deles podes dispor ao sabor do teu capricho, sem limite nem medida!
Quão louca e cegamente procederias, se em vez de empregares os bens temporais em praticar a virtude, e em procurar o teu bem e o do próximo, os pusesses ao serviço do teu amor próprio e os aplicasses a satisfazer com eles o desejo de gozos materiais, a soberba, o luxo e a vaidade!
Os que nasceram de pais ricos, rodeados de toda a espécie de bens e riquezas, costumam correr este perigo. Por isso dizia o Salvador: Em verdade vos digo que é muito difícil entrar um rico no reino do céu (1). O que vestia púrpura e sedas e se banqueteava todos os dias suntuosamente foi sepultado no inferno, e Lázaro, o pobre, transportado para o seio de Abraão.
Considera pois, ó jovem, no uso que fazes dos bens terrenos, que recebeste sem trabalho algum.
Podes dizer que os utilizaste com a devida regra, que não saíste dos limites convenientes ao teu estado e condição, e que as tuas pretensões não são desmedidas e insaciáveis? Quanto há de excessivo nos teus adornos, vestidos, prazeres e diversões, que só servem para alimentar o orgulho e vaidade! Foi para isto que Deus te deu as riquezas?
Ouve o anátema que ele lançou sobre o luxo: Já que as filhas de Sião emproando-se, caminham de cabeça erguida, olhos altivos e andar presumido, o Senhoras despojará do cabelo. Naquele dia o Senhor lhes tirará o adorno do calçado, as lunetas, os colares, as jóias, os braceletes, os garavins, as cadeias de ouro, os perfumes, os anéis e os pingentes… E em vez de cheiros suaves terão hediondez, por cinto uma corda, por cabelo frisado uma calva, e por facha um cilício (2)
Granjeai amigos com as riquezas temporais (3). Quantos estão lutando coma miséria, e padecendo fome, frio e enfermidades, enquanto tu vives na fartura e abundância?! Se fosses mais modesta e econômica, quantas lágrimas poderias enxugar, e quantos amigos e advogados perante Deus lograrias conquistar!
Procurai amontoar riquezas que não morrem: um tesouro no céu que não acaba, onde não chega o ladrão e ao qual não rói a traça! (4) Na casa do rico há muita coisa que está servindo de pasto à traça e que poderia servir para os pobres. Talvez pudesses tornar felizes muitos necessitados, dando-lhes calçado, vestido, roupa branca e alfaias usadas.
Deita a esmola no seio da pobre e ela te livrará de todos os males (5).
Em verdade vos digo que quanto fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fazeis (6).
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Mat. XIX, 23.
(2) Is. III, 16-24.
(3) Luc. XVI, 9.
(4) Luc. XII, 33.
(5) Ecl. XXIX, 15.
(6) Mat. XXV, 40.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico