Ó Jesus, doce peregrino, não me abandoneis, tenho necessidade de Vós.
1 – Deus criou-nos para Si e não podemos viver sem Ele. Temos necessidade, temos fome e temos sede dEle, o Único que pode encher o nosso coração. A liturgia pascal está toda impregnada desta ânsia de Deus, desta ânsia das alturas, e apresenta-no-la com sinal da nossa participação no mistério pascal: “Se ressuscitastes com Cristo buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está sentado à dextra de Deus, afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, não |às que estão sobre a terra” (Col. 3, 1 e 2). Quanto mais a alma se renova na ressurreição de Cristo, mais sente a necessidade de Deus e das coisas celestes e cada vez se desprende mais das coisas da terra para se voltar para as do céu.
Como a fome física é indício de um organismo são e cheio de vida, assim a fome espiritual é indício de uma vida espiritual eficiente e em contínuo desenvolvimento. A alma que não sente a necessidade de Deus, de O procurar e encontrar, a alma que não vibra e não sobre com a ânsia desta procura, não tem em si os sinais da ressurreição. É uma alma morta, ou pelo menos desfalecida e tornada insensível pela tibieza. O aleluia pascal é um grito de triunfo pela Ressurreição de Cristo sendo, ao mesmo tempo, um convite urgente à nossa Ressurreição. Semelhante a uma trombeta de guerra o aleluia chama-nos ao combate do espírito, convida-nos a sacudir-nos, a renovar-nos, a participar cada vez mais profundamente na Ressurreição de Cristo. Quem, por muito adiantado que esteja nos caminhos do espírito, pode gloriar-se de ter realizado totalmente a sua própria ressurreição?
2 – Na Missa desde dia lê-se o belíssimo Evangelho dos discípulos de Emaús (Lc. 24, 13-35), no qual encontramos esta súplica premente: “Fica conosco porque faz-se tarde e o dia declina”.
Ficai conosco, Senhor! É o grito da alma que, tendo encontrado o seu Deus, não quer separar-se mais dEle. também nós, como os discípulos de Emaús, andamos à procura do Senhor; toda a nossa vida é um contínuo peregrinar para Ele, e muitas vezes também nós estamos tristes porque não conseguimos encontrá-lO, porque não compreendemos os Seus caminhos misteriosos, quase nos parece que Ele nos abandonou. “Nós esperávamos que Ele fosse o que havia de resgatar Israel e agora…” diziam os dois discípulos desiludidos com a morte de Jesus, não reparando em que, precisamente quando estavam prestes a perder toda a esperança, Jesus encontrava-Se muito perto deles, feito seu companheiro de viagem. Assim acontece também conosco: ainda que oculto na obscuridade da fé, Deus aproxima-Se das nossas almas e faz-Se companheiro do nosso caminho, mais ainda, vive em nós pela graça. É verdade que cá na terra Ele não Se manifesta na claridade do “face a face” reservado para a eternidade e apenas podemos vê-lO “como por um espelho, em enigma” (I Cor. 13, 12); todavia, Deus deixa-Se reconhecer. Como aos discípulos de Emaús, também a nós a Sua presença se revela de um modo obscuro, sim, mas inconfundível, naquele ardor tão peculiar que só Ele sabe despertar nos nossos corações: “Não é verdade que nós sentíamos abrasar-se-nos o coração, quando ele nos falava?” A alma que, mesmo uma só vez, tiver encontrado assim o Senhor, não apenas fora, mas dentro de si, vivo e operante no seu coração, não pode deixar de exclamar: “Ficai comigo!”
Este grito, porém, já foi ouvido, é já uma realidade permanente, pois Deus está sempre conosco, mesmo quando O não sentimos, mesmo quando não damos conta da Sua presença. Deus está ali, Deus fica conosco; compete-nos ficar com Ele. E se em certos momentos Ele Se deixa reconhecer pela alma, fá-lo para a convidar a viver com ele, na Sua intimidade. Peçamos-Lhe, pois, com ardor: ensinai-nos, ó Senhor, a ficar conVosco, a viver conVosco.
Colóquio – “Ó Esperança minha, meu Pai e Criador, meu verdadeiro Senhor e Irmão, quando considero o que Vós dizeis, isto é, que as Vossas delícias são habitar com os filhos dos homens, muito se alegra a minha alma. Ó Senhor do céu e da terra, onde estará o pecador que depois destas palavras ainda possa desconfiar? Não haverá, porventura, Senhor, com quem Vos deleiteis, que seja preciso buscar um vermezinho tão repelente como eu?… Oh! grandíssima misericórdia! Ó favor infinitamente superior aos nossos méritos!
“Alegra-te, alma minha… e pois que o Senhor Se deleita contigo, que todas as coisas da terra não sejam bastantes para te impedirem de te deleitares e alegrares nas Suas grandezas.
“Ó Senhor, não quero amar o mundo nem coisa que lhe pertença; fora de Vós não acho contentamente em parte alguma: parece-me antes que tudo é pesadíssima cruz…
“Ó meu Deus, a única coisa que temo – e com razão – é que Vós me deixeis. Sei onde chega a minha fortaleza e pouca virtude e o pouco que posso fazer se Vós não continuais a dar-me força e a ajudar-me para que não Vos deixe… Parece-me, ó Senhor meu, impossível deixar-Vos… Mas como tantas vezes Vos deixei, não posso senão temer, sabendo que bastava que Vos apartásseis um pouco de mim para que caísse por terra. Bendito sejais para sempre, ó Senhor, porque embora eu Vos deixasse a Vós, não me deixáveis Vós de todo a mim, dáveis-me a mão para que logo pudesse tornar-me a levantar… Ó Senhor, Vós conheceis tudo, lembrai-Vos da minha fraqueza e não me deixeis só” (cfr. T.J. Ex. 7, 1 e 3; Vi. 6, 9).
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico