Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Uma mulher ajoelhada orando por uma pessoa de cama, Pintura a óleo de um pintor italiano, século XIX, Creative Commons, Wikimedia Commons

Intercessão pela oração: A salvação duma alma

Vejamos o que é necessário para salvar uma alma, e a felicidade que promete a salvação. Primeiro, era absolutamente necessário que Deus se fizesse homem, afim de que esta alma fosse salva segundo os decretos de Deus. Era de toda a necessidade que Deus viesse à terra para ensinar, obrar, pedir, merecer, satisfazer sofrer, derramar o Seu Sangue e morrer pela salvação desta só alma. Era preciso que existisse só para esta alma uma Igreja e uma fé católicas, Sacramentos, Santos, um Papa e um Sacrifício da Missa. Era necessário que houvesse um dom sobrenatural, uma participação maravilhosa da natureza divina, chamada graça santificante, à qual se viessem juntar atos de benevolência e inspirações da vontade divina, sob a forma duma infinidade de graças atuais, incessantes, eficazes: sem o que, esta alma não podia ser salva. Finalmente, deviam morrer mártires, escreverem doutores, papas e conclílios expôrem e condenarem a heresia, expatriarem-se missionários, ordenarem-se padres para a salvação desta só alma. Concluídos todos estes preparativos, e tirada esta alma do nada por um ato da onipotente misericórdia, é então necessário confiar a sua guarda a um anjo. Durante todo o tempo que ela tem a passar na terra, Jesus deve ocupar-Se dela; Maria deve por ela, fazer muito; enfim, todos os Anjos e Santos devem pedir e interessar-se em seu favor. Em cada bom pensamento, em cada piedosa palavra, em cada ação virtuosa (e, como se pode imaginar, o seu número não tarda a crescer até o infinito), deve concorrer essa participação da natureza divina a que se chama graça. É necessário afastar desta alma os espíritos malígnos e invisíveis, é necessário frustar todas as ciladas que eles lhe armem. As tentações que a assaltam a toda a hora excitam uma emoção mais ou menos intensa entre os seus celestes defensores. Em virtude de disposições que o próprio Deus não desdenhou decretar, todos os atributos divinos devem concorrer para a sua salvação; e cada um deles obedece ao pedido desta alma, como as peças do teclado aos dedos do artista. É necessário que os méritos do precioso Sangue lhe sejam comunicados pelo canal de sacramentos cheios de mistério, cuja forma e matéria foram determinadas por Nosso Senhor mesmo. É necessário que em seu favor a água, o azeite, os círios, os rosários, as medalhas, os escapulários se saturem duma virtude sobrenatural, à voz do padre que os benze. É necessário em fim, que o corpo, a alma e a divindade do Verbo encarnado lhe sejam comunicadas mil e mil vezes, de sorte que estas comunicações se tornem para ela uma circunstância ordinária da vida, conquanto cada uma delas seja um milagre mais espantoso que a criação do mundo. Esta alma pode falar ao céu, e o céu escutará a sua voz. Pode usar das satisfações de Jesus como se fossem suas; as portas do Purgatório abrem-se diante dela, e pode libertar de lá quem quiser. Finalmente, está sempre tão perto de Deus, o seu coração é um santuário tão oculto e privilegiado, que à exceção de Deus, ninguém poderia comunicar-lhe a graça, ninguém; nem mesmo os anjos, nem mesmo a sempre bendita Mãe de Deus.

Eis aí o que exige a salvação duma alma. Para chegar à beatitude eterna, é necessário que se converta em filha de Deus, em irmã de Deus, e que participe da natureza de Deus. Vejamos agora a felicidade duma alma salva.

Olhai esta alma que vem de ser julgada. Jesus Cristo acaba de proferir a sentença, o som da sua meiga voz mal se extinguiu, e os amigos do defunto ainda lhe não fecharam os olhos: a sentença foi proferida, e tudo está consumado. Foi breve, mas misericordiosa. Que digo eu? – misericórdia! Não há em nenhuma língua palavra capaz de dizer o que essa sentença foi; é preciso apelarmos para a imaginação. Se aprouver a Deus, um dia o saberemos por agradável experiência própria. Bem forte deve ser esta alma para não sucumbir à veemência dos sentimentos que se apossam dela; necessita que Deus a sustenta para não ser aniquilada. A vida passou. Como foi curta! Veio a morte. Quão suave foi a sua agonia dum momento! Como lhe parece haverem sido pequenas as suas provações, e ligeiras as suas aflições! Agora, obteve uma felicidade que não acabará nunca, Jesus falou, a dúvida já não é possível. Que felicidade é essa? nunca olhos humanos a viram, jamais nossos ouvidos a ouviram. Ela vê Deus, a eternidade estende-se diante dela na sua infinidade. A sua inteligência é inundada de delícias inefáveis, haure novas forças nessa glória que a imaginação não pode conceber; sacia-se dessa visão, em presença da qual toda a ciência do mundo não passa de trevas e ignorância; a sua vontade nada num oceano de amor, uma felicidade incomensurável enche todas as suas faculdades. Como uma esponja se ensopa d’água no meio do mar, assim esta alma é saturada de luz, de beleza, de felicidade, de enlevo, de imortalidade, de Deus. Isto não são mais que palavras mesquinhas, mais leves que uma pena, mais frágeis que a água; não podem representar à imaginação a sombra da felicidade desta alma. Mas então que experimenta ela? Nunca olhos o viram, ouvidos o ouviram, o coração não o pode conceber. E toda esta felicidade, toda esta glória são a herança duma alma que, há uma hora apenas, gemia na dor, débil como a mais débil criança.

E ainda não é tudo. Ela não tem a recear a perda da sua felicidade; está-lhe assegurada; é dela, a imperfeição não mais a embaciará. A sua felicidade, embora das mais variadas, é doravante imutável e ao abrigo de todas as vicissitudes; as suas alegrias são inumeráveis e as suas delícias sem fim; na sua fronte brilha a coroa real, que aí deve resplandecer por toda a eternidade. E quanto lhe custou a posse desta magnífica felicidade? Pouca coisa: os cuidados, as provações efêmeras desta vida, que a graça fazia leves, e as quais o amor convertia em verdadeiros prazeres! E agora, em recompensa, recebeu uma glória deslumbrante e a magnificência da visão beatifica! A alma julgar-se-ia sob o império dum sonho, se a sua calma sobrenatural lhe não permitisse medir a sublimidade da sua nova vida. A consciência que tem de si mesma lhe é segura garantia da realidade e da eternidade da sua felicidade. Eis aí o que a salvação proporciona a uma alma. Ah! que desprezo não teríamos pelo mundo, se considerássemos seriamente que entre tantas pessoas, que morrem a todos os instantes do dia e da noite, há as que, em cada minuto, são julgadas e ouvem esta sentença favorável, que abre os olhos à incompreensível beleza de Deus! Ó tristeza! ó aborrecimento! Seriam estas as únicas palavras que nossos lábios poderiam articular quando encaminhássemos nossos pensamentos para os nossos miseráveis cuidados da vida, para as tentações que nos assediam, para o amor próprio que nos atormenta, para a nossa baixeza que nos humilha e nos faz faltar á generosidade para com Deus! Esta alma deixou a vida, está julgada, é feliz. Sim, muito feliz! E nós ainda aqui estamos. Que perigos não temos ainda a correr! Ó aborrecimento! ó tristeza!

Porém, há poucos minutos, esta alma não estava ainda segura da sua salvação; travava-se uma luta desesperada, um combate decisivo entre o céu e o inferno, e o céu parecia sucumbir. O moribundo mostrou bastante paciência para merecer tudo quanto se pode merecer. Mas Deus havia posto o último dom, a última graça, a perseverança final fora do alcance do mérito, e parecia assim dar vantagem ao inimigo. O momento era crítico: tudo quanto se fizera pela salvação desta alma até esta hora, estava em risco de se perder para sempre, (em cada minuto sucede isto em alguma parte do mundo) e corria ela o perigo de nunca chegar a colher os doces frutos, que a salvação dá. Poderá a própria imaginação criar situação mais terrível? E Jesus lá estava, seguindo com inquietação as fases do combate; no profundo silêncio, ter-se-iam podido ouvir as apressadas pulsações do Seu Sagrado Coração. Havia suspendido os efeitos da doce e amável lei pela qual, em virtude dos seus méritos, podemos nós mesmos merecer. E conquanto ele haja merecido para nós o dom da perseverança final, de modo que quem recebe esta graça, recebe-a unicamente em virtude dos méritos de Nosso Senhor, parecia não obstante ter abandonado este momento supremo à soberania de Deus. Uma só lei, por sérias razões, não fora suspensa e conservava toda a sua eficácia. Esta lei era a da oração de intercessão. Quer sejais próximo parente, amigo ou inimigo deste moribundo; quer seu confessor, ou bem-feitor; quer sejais seu vizinho, ou vos separe dele uma distância de mil léguas; quer o conheçais perfeitamente, ou sempre ignorásseis a sua existência e jamais pensásseis na sua agonia, pouco importa: a vós foi dado decidir da vitória; a sorte da sua alma está agora nas vossas mãos, depende das vossas orações. Jesus decidiu que sereis vós e não ele (se é permitido assim me exprimir), quem salvará esta alma; sois convidados a completar a medida das graças que a sua salvação exige; sois chamados a colocar-lhe na fronte a coroa que deve ser sua herança na eternidade. Talvez fiqueis ignorando sempre, ou pelo menos até ao momento em que vós mesmos fordes julgados, o bem que houverdes feito; e sem embargo, na comunhão dos santos e na união de Jesus Cristo, deveis ser os salvadores desta alma, os vencedores desta batalha indecisa.

Tudo por Jesus ou Caminhos Fáceis do Amor Divino pelo Rev. Padre Frederico William Faber, Superior do Oratório de S. Phillippe de Nery (de Londres) Doutor em Teologia, 1853.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico