Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Mês das Almas do Purgatório: 11º dia – Consolação e tormentos da esperança

MÊS DAS ALMAS DO PURGATÓRIO

DÉCIMO PRIMEIRO DIA

Consolação e tormentos da esperança

MEDITAÇÃO

I. A esperança é alternativamente o sustentáculo e o tormento do coração humano. Ninguém espera com mais vivacidade do que as almas do purgatório, e ninguém mais que elas sente os efeitos contrários daquele tão poderoso sentimento. O objeto de sua esperança é Deus, que se promete e se dá como recompensa ao justo; e, se a certeza de recolher um tal fruto das suas penas fazia experimentar aos maiores santos do Antigo e do Novo Testamento uma verdadeira alegria entre as adversidades da vida e as perseguições dos tiranos, quanto mais consoladas são na sua prisão as almas do purgatório, pelo pensamento de que em breve enxugará o Senhor os seus prantos e irão gozar com delícias o soberano bem! Por que é que nas tribulações da vida, não levantamos também os olhos ao céu, e não nos exercitamos a sofrer com paciência penas, que serão compensadas pela glória do céu?

Il. A esperança consola tanto mais quanto mais segura é, e quem poderia exprimir a perfeita certeza, que têm as almas do purgatório de possuírem a Deus? Elas lêem nos decretos a presciência divina, e neles se vêem escolhidas para a glória eterna; recordam-se das promessas de Jesus Cristo, e dotadas de sua graça, não podem duvidar de que são suas coerdeiras no reino eterno; contemplam as suas obras e esperam a coroa imortal da justiça, que o soberano Juiz não pode recusar aos seus merecimentos. Sobre este tríplice fundamento se baseia solidamente a sua esperança, que não só não poderia admitir temor ou desconfiança, mas que tem toda a força e caráter duma posse de então em diante próxima e segura. Que soberana consolação! E nós temos motivo para temer ou esperar? ldéia importante, que deve seriamente ocupar-nos!

III. Ainda que as almas do purgatório estejam inteiramente seguras de possuir a Deus, todavia ele difere o comunicar-se a elas até que completamente se purifiquem de toda a mancha, afim de que esta mesma demora aumente e redobre o ardor de seus desejos, e que, dilatando o seu amor por aspirações multiplicadas, se tornem capazes de abraçar e possuir um bem infinito. Assim, de um lado, a segurança de sua esperança as sustém e as fortifica; de outro, aflige-as a dilação da posse e aqueles mesmos desejos, que são o alimento e a vida de sua esperança, martirizam-nas e torturam-nas ao mesmo tempo no que elas têm de mais íntimo. Quanto maior é o objeto que elas esperam, mais cruel é o suplício, cuja violência aumenta com a intensidade do amor. Não falo, diz sto. Agostinho, para os homens frios e insensíveis; mas dai-me um coração que espere o soberano bem, e ele sentirá toda a força das minhas palavras.

SÚPLICA

Ainda que frios e insensíveis, sentimos, ó Senhor, o cruel combate, que travam, nas almas do purgatório, os diversos sentimentos produzidos pela esperança de vos possuir.

Ah! vós que sois o Deus da consolação e da paz como também o da esperança, dai-lhes repouso, satisfazendo os seus desejos. Fazei cessar as dilações, que as atormentam. Que o soberano objeto da sua esperança se converta no da posse benéfica! Que enfim elas cheguem até vós Senhor, porque, unidas uma vez a vós, experimentarão a consolação perfeita e a felicidade eterna.

EXEMPLO

No convento dos franciscanos da Conceição das Ilhas Canárias, morreu, em 1641, o grande servo de Deus frei João de Via. O frade leigo Ascenso, enfermeiro da comunidade, que lhe assistira com muita caridade, durante a sua última enfermidade, orava com fervor pelo repouso de sua alma, quando foi surpreendido pela aparição de um religioso da sua ordem rodeado de luminosos raios, que lhe deslumbravam as vistas. Duas vezes apareceu e desapareceu o espirito, sem romper o silêncio; mas à terceira vez, enchendo-se o enfermeiro de coragem, perguntou-lhe em nome de Deus o que desejava: “Eu sou, respondeu-lhe aquele, a alma de fr. João, por quem orais, e venho, por permissão de Deus, revelar-vos que estou destinado para o céu, e que o esplendor, que me cerca é um penhor da minha salvação. Bendigo e agradeço ao Senhor a sua infinita misericórdia a meu respeito, mas sofro o cruel martírio de uma longa dilação, para expiar a culpa da omissão de alguns Requiem, que durante a minha vida deveria recitar por meus irmãos defuntos. Peço-vos, pois, por essa bondade que sempre me testemunhastes, procureis se supra o mais cedo possível às minhas omissões, afim de se superarem os obstáculos que me impedem de chegar à posse de Deus, alvo de todos os meus desejos”. Terminara apenas o defunto estas palavras, quando o enfermeiro correu logo à cela do padre Guardião para lhe contar o que lhe acabava de acontecer; reuniu aquele todos os religiosos da casa, e ,expôs-lhes o fato em poucas palavras, ordenando-lhes que fossem imediatamente à igreja, para rezar aqueles ofícios cuja omissão retinha o seu irmão no purgatório. Pouco depois aparece de novo o defunto ao enfermeiro, mais resplandecente ainda que da primeira vez, e cheio de alegria; e agradeceu-lhe, assim como à comunidade, o ter-lhe obtido entrar no gozo eterno do seu Deus. Feliz alma! felizes nós também, se pudermos alcançar a mesma ventura! Mas não depende de nós segui-la àquela bem-aventurada pátria? Imitemos a santidade da sua vida, e depois da morte partilharemos a sua glória. (Fr. Franc. Gonzaga, de Orig. Seraph. Relig. part. 4, in Prov. Can. 17).

SUFRÁGIO

Ao soar das horas, testemunhemos aos defuntos, pelas nossas devotas súplicas, que não esquecemos.

***

Sendo que as dilações que padece a esperança das almas do purgatório lhes aumentam o sofrimento, muitos fiéis se impuseram a lei de oferecer por elas qualquer sufrágio a todas as horas. Cada vez que ouvem o som do relógio, rezam alguma pequena oração, que suavize as penas e acelere o livramento dos defuntos. Adotemos este piedoso dever e rezemos um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Requiem, quando ouvimos bater as horas; as almas do purgatório mostrar-se-ão reconhecidas por esta frequente lembrança, e, em troca de cada oração, obter-nos-ão algumas bênçãos do céu.

O Anjo Consolador – Piedosos exercícios, Leituras e Orações Dedicadas a Veneração das almas do Purgatório, compiladas por E. Da S. V. Redentorista, 1939.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico