MÊS DAS ALMAS DO PURGATÓRIO
TRIGÉSIMO DIA
As almas do purgatório esforçam-se por obter a salvação eterna a seus benfeitores
MEDITAÇÃO
I. Se as almas, ainda no purgatório prisioneiras, pedem e obtêm muitas graças, quanto mais eficaz não será sua intercessão quando reinarem na glória do paraíso! Não farão como o ingrato copeiro de Faraó, que, saído da prisão e restabelecido na côrte, esqueceu, na embriaguez da fortuna, a desgraça de José, que interpretara seu sonho. O sentimento da sua gratidão aperfeiçoa-se e aumenta à medida que seu estado se torna mais perfeito e sublime, e quando se encontram no céu mais próximas de Deus e penetradas de uma caridade mais ardente, não cessam de orar por nós, até que tenham obtido para seus benfeitores a felicidade temporal e espiritual. Quem não desejaria ter no paraíso tão grande número de intercessores tão poderosos?
II. A primeira graça que elas solicitarão, chegando como nossas embaixadoras nos céus, será a eterna salvação de seus benfeitores. “Grande Deus, dirão elas, prostradas ante o trono do Altíssimo, sêde misericordioso para com aqueles que tiveram piedade de nós. Libertaram-nos das ardentes cadeias do purgatório; soltai-as dos laços insuportáveis do pecado. Eles abriram-nos as portas bem-aventuradas do paraíso, abri-lhes o caminho para virem até nós. Recusareis admitir no vosso reino aqueles que tudo fizeram para que nele entrássemos cedo? Privareis da vossa visão beatifica os que nos conduziram às delícias que hoje gozamos em vosso seio? Não salvareis os que nos libertaram? Ah! dulcíssimo Salvador, já que vos comprazeis em nós, filhas e esposas vossas, dai-nos essas almas pelas quais o nosso reconhecimento vos ora com tanto amor”. É sentimento comum dos padres e doutores que aqueles que se interessam vivamente pelas almas do purgatório não morrerão eternamente.
Ó feliz sorte! Ó desejável segurança! sorte e segurança que deveríamos comprar a troco ainda do abandono de quanto possuímos.
III. Dizia nosso Senhor Jesus Cristo: “Com a vossa fortuna, fazei amigos no presente, aqueles que, à hora da vossa morte, vos recebam nos tabernáculos eternos”. Esses amigos são os pobres; mas todos os pobres deste mundo não entram nos eternos tabernáculos, ao passo que as almas do purgatório, que são os pobres mais miseráveis, mas seguros de entrarem na glória, serão felizes, por nos receberem nesta, quando o céu lhes tiver sido aberto por nós, gozando eternamente conosco da vista de Deus. Virão ao nosso encontro com a milícia celeste, formar-nos-ão a escolta e a coroa e conduzir-nos-ão em triunfo até junto do trono do Eterno, onde receberemos a recompensa da nossa generosa caridade. Que coração se não comoverá pensando em tão venturoso fim?
Quem não procurará todos os meios de praticar tão vantajosa devoção?
Ah! não a abandonemos nunca, apliquemo-nos sempre cada vez mais a ela! Pois grande interesse temos nisso.
SÚPLICA
Sim, Senhor, um interesse universal empenha os nossos corações na devoção às almas do purgatório: interesse sobre a terra, porque nos preserva de quase todos os males, enche-nos de quase todos os bens, e torna felizes os dias da nossa existência; interesse no purgatório, pois nos assegura a gratidão das santas almas; prepara-nos muitos sufrágios, e poupa-nos aqueles temerosos castigos; interesse para o céu, pois nos adquire intercessores poderosos, inclina em nosso favor o vosso Coração misericordioso, e assegura o importante negócio de nossa salvação eterna. Excitados por tão grandes interesses, qual não deverá ser o nosso zelo! Desejamos, Senhor, que ele seja ardente e perseverante; queremos que apague todas as negligências de que nos temos tornado culpados para com as almas; que ele faça com que nós, no futuro, cumpramos todos os deveres, tanto gerais como particulares, que nos impõem a respeito do purgatório a natureza, a religião, a pátria, o sangue, a amizade e os benefícios recebidos. Nada de considerações que nos detenham, ou dificuldades que nos desanimem, ou tibieza que nos afrouxe; nada, em uma palavra, poderá distrair-nos desta piedosa empresa. A devoção pelo purgatório será a alma da nossa fé, o mais caro objeto da nossa caridade, a mais habitual obra da nossa vida. Tal é a resolução com que terminamos os exercícios desta santa devoção. Anjos e bem-aventurados do céu, santíssima Virgem, e vós, ó Jesus, Redentor nosso, que tanto vos comprazeis em ver as almas recobrarem a liberdade, pedi e dai-nos a força e a virtude de lhes sermos sempre fiéis e de empregarmos sempre os tão eficazes meios de graça e justiça que nos fornecem a religião e a Igreja.
Que a Igreja do céu se una com a da terra para aliviar a Igreja padecente, que não pode ajudar-se a si mesma e à qual Deus, apesar do desejo da sua misericórdia, não vem de ordinário em ajuda, pela economia atual da sua providência. Que seja aliviada esta sofredora Igreja, que tanto merece pela sua santidade, pelos seus longos sofrimentos, pela sua heróica resignação; que ela seja aliviada das tão cruéis penas do dano e do fogo, desse estado deplorável que, numa palavra, a razão e a fé nos representam sob as mais sombrias cores. Ouvi, Senhor, a voz de todo o universo; o céu, o purgatório e a terra vos pedem pelas consternadas almas; ouvi-as e tornai essas pobres almas eternamente felizes, admitindo-as em vossa glória. Amen.
EXEMPLO
O momento da morte é o mais perigoso para o cristão, porque então correm os infernais inimigos para perdê-lo. Uma pessoa, que passava toda a sua vida na prática de todas as virtudes, e particularmente na da caridade para com as almas do purgatório, foi assaltada furiosamente, em seus últimos momentos, pelo demônio que a via no ponto de escapar-lho. Parecia que o abismo inteiro conjurado contra ela a cercava de suas infernais côrtes. Opunha o moribundo uma vigorosa resistência, e esta luta da alma fatigava-o e fazia-lhe sofrer mais que a dor corporal. Felizmente que, pelos seus multiplicados sufrágios, levara ao paraíso grande número de almas, as quais, vendo o seu benfeitor empenhado em horrível combate, não se contentaram de pedir para ele ao Senhor uma abundância de graças que pudessem fazê-lo triunfar, mas conseguiram vir confortá-lo e consolá-lo com a sua presença naquele instante decisivo. Descem do céu; algumas se precipitam sobre os maus espíritos e obrigam-nos a fugir; outras rodeiam em apertado círculo o leito do moribundo, para defendê-lo; outras enfim voltam-se para de afim de animá-lo. Então dá ele um profundo suspiro, e, transportado pelas consolações que o inundam, exclama: “Oh! por favor, quem sois vós, que tanto bem me fazeis? Responderam-lhe elas: somos os habitantes do céu que os teus sufrágios conduziram à bem-aventurança. Viemos aqui para agradecermos a tua compaixão e para te conduzirmos da morte à vida, deste lugar de angústia à posse da eterna felicidade. A esta feliz nova, um sorriso iluminou o rosto do moribundo, que, cedendo mais à alegria que à doença, fecha os olhos à luz do dia; expira, mas suas feições conservam como que um reflexo das alegrias do paraíso! Sua alma branca como o pomba, apresentando-se ao soberano Juiz, encontrou outros tantos protetores e advogados nos celestiais espíritos que a escoltavam, e reconhecida digna da glória eterna, entrou nela como em triunfo, no meio daquelas almas reconhecidas que a abençoavam, não se cansando de exaltar a sua piedosa compaixão. Assim seremos também tratados se até à morte formos fiéis em pedirmos pelas almas do purgatório. (Binet, de statu anim. Cap. 1).
SUFRÁGIO
Para aplicar mais prontamente pelos defuntos a virtude purificante do sangue de Jesus Cristo, unamo-nos por santos laços, com o fim de recolhermos o maior número de sufrágios possível por sua intenção.
***
A venerável madre Francisca do Santíssimo Sacramento, carmelita descalça, manifestou tanto zelo pelas almas do purgatório que conseguiu das almas religiosas e das pessoas que a visitavam estabelecessem uma associação de orações e exercícios piedosos, para vantagem dos defuntos, afim de libertar o maior número deles das penas que padeciam. Eis o dia trigésimo do mês, em que vamos terminar os nossos piedosos exercícios; mas não cessemos de nos interessar pelo purgatório e, a exemplo dessa fervorosa religiosa, estabeleçamos em nossas famílias, associações de orações e boas obras, por intenção dos defuntos, afim de que, durante todo o ano, uma santa emulação nos faça espalhar no purgatório muitos caritativos sufrágios, como se durasse ainda o piedoso exercício do mês de novembro que acabamos de terminar. (Fr. Joach. a S. M. carm. desc. in vita V. Franciscae a SS. Sacram., lib. 2).
O Anjo Consolador – Piedosos exercícios, Leituras e Orações Dedicadas a Veneração das almas do Purgatório, compiladas por E. Da S. V. Redentorista, 1939.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
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