Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
El Greco, Cristo segurando a cruz [Detalhe], por volta de 1602, Museu do Prado (domínio público / Wikimedia Commons)

Modo prático de imitar com espírito de devoção a Jesus Cristo levando a Cruz

O cristão que deseja ir após Jesus Cristo levando a cruz, deve ter presente que este nome cristão quer dizer discípulo ou imitador de .Jesus Cristo; e que é indispensável, se quiser levar com toda a propriedade tão honorífico e nobre título, fazer aquilo que no seu santo Evangelho nos re­comenda Jesus, isto é, que se queremos ser seus discípulos, devemos opôr-nos ou negar-nos a nós mesmos, tomar a cruz e segui-lO. Com estas palavras, segundo explicam os expositores, Jesus Cristo nos pede mortificação interior e exterior, se o quisermos seguir. A mortificação interior está compreendida nestas palavras : negue-se a si mesmo, o que quer dizer que não tenha vontade própria; e a mortificação exterior em estas outras : tome sua cruz. A mortifica­ção, segundo a linda comparação de São Francisco de Sales, não é tão necessária como o sal para a conservação das carnes; de sorte que assim como sem sal as carnes mortas se deitam a perder, fermentam e são logo pasto de bichos, mas com o sal se conservam todo o ano; assim nós, com o sal da mortificação nos conservaremos na virtude, e sem ela seremos pasto de todos os vícios, e por último nos perderemos de todo. Eis porque São Paulo dizia com muita verdade: Irmãos, se viverdes segundo a carne, regalando-a e não a mortificando, morrereis, vos Condenareis; mas se mortificardes a carne, vivereis, vos salvareis. Por isso, desejando eu vosso proveito espiritual, julguei ser muito oportuno explicar-vos o que entendemos pela palavra mortificação e o modo de praticá-la, para que assim possamos ajudar ao Senhor a levar a cruz.

Mortificar, pois, não significa matar, senão sujeitar e enfreiar, e assim a palavra mortificação diz o mesmo que uma ordem, conserto e moderação de todos os movimentos da parte inferior do homem para que esteja sempre em harmonia com a parte superior, feita pela razão ilustrada pela fé. “Que coisa é mortificação?”, pergunta um contemplativo (o P. Croisset, t. 2 “Sexta feira de cinzas” ) , e responde : “É uma morte de amor, que mata a vida criminosa, que desprende a alma dos sentidos, que a separa de seu corpo e a faz viver do espírito; é um sacrifício de amor; o Espírito Santo é o sacerdote, o corpo a vítima, o altar o coração, a penitência a faca, o amor é o fogo, e a glória é o fruto é um martírio de amor sem crime e sem tirano, menos sangrento que o da fé, porém mais prolongado e mais cruel, posto que é livre, e em certo modo mais voluntário; é a continuação do sacrifício de Jesus, que cumpre sua Paixão, faz nossos corpos membros do seu, anima-nos com seu espírito, faz-nos participantes de suas dores, merece-nos os tesouros da graça e nos leva ao trono da glória”. Até aqui o P. Croisset; e parecendo-me que com o dito entenderás, que não é tão bravo o leão como o pintam, e que talvez olharás com prazer o que até agora te assombrava, passo já à sua específica divisão.

A mortificação, pois, é de “duas maneiras; uma de obrigação; e a outra de devoção tem por objeto refreiar e tirar tudo aquilo que possa ser impedimento para cumprir os preceitos da lei de Deus e as obrigações do próprio estado. A de superrogação ou de devoção inclina-se a privar-se daquelas coisas que, até, não sendo coisa má nem pecado fazê-las, é contudo de grande proveito abster-se delas, para oferecer ao Senhor um sacrifício que lhe é muito agradável, por exemplo: olhar para um bonito jardim, beber um copo de água fresca etc., não é em si nenhum pecado e contudo é incalculável a utilidade que traz ao espírito privar-se disso por amor de Deus, ou de Maria Santíssima. E disse que a utilidade desta espécie de mortificação é incalculável, porque quase toca nas balizas da necessidade, pois é coisa averiguada, que quem não souber ou não quiser mortificar-se no de superrogação ou devoção, também não saberá ou não quererá no que for de obrigação.

Esta mortificação de devoção divide-se em ativa e passiva. A ativa consiste em buscar, por eleição própria, e pelo grande amor que alguém tem a Deus e à Santíssima Virgem, coisas que causem pena e humilhação, para assim oferecer-lhes um obséquio. A passiva consiste em sofrer com paciência, resignação e conformidade com a vontade de Deus tudo quanto nos causar pena, sem nós o termos procurado nem intentado, como são as perseguições, calúnias, opróbrios, roubos, doenças, frio, calor e outras semelhantes. A mortificação interior é sem dúvida a melhor e mais nobre, porque ela é a alma de todas as outras.

Caminho Reto e Seguro Para Chegar ao Céu, Santo Antônio Maria Claret, 7ª Edição, 1944.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico