Pilatos sabia que os sumo sacerdotes o haviam entregado por inveja (Me 15, 10). Convencido disso procurava libertar Jesus, mas como não havia conseguido como inocente, tentou como culpado. Era costume que o governador soltasse um preso apedido do povo em cada festa de Páscoa (Mt 27, 15), em memória da libertação do Egito. Como era um benefício, todo o povo estava em frente a residência de Pilatos, lembrando-lhe desta tradição. Pareceu a Pilatos que tinha encontrado a solução para livrar Jesus. Havia na prisão um, chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio (Mc 15, 7). Embora a tradição fosse o povo escolher algum preso, desta vez seria diferente, teriam que escolher um dos dois. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido: Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo? (Mt 27, 17). Como sabia que era por inveja, não acreditava que se atreveriam a escolher um assassino no lugar de Jesus.
Mas venceu a maldade dos sacerdotes. Ao ouvir a pergunta do governador, sabendo que o povo admirava Jesus por seus milagres e ensinamentos, se espalharam pelo povo para subornar e convencer, que pedisse a libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus (Mt 27, 20). Argumentaram que Barrabás era realmente um assassino, mas pior é querer destruir o templo; caso Barrabás não se endireitasse, poderiam depois prendê-lo de novo, mas com certeza ficaria tão agradecido que fatalmente se comportaria bem; que Jesus era presunçoso e nunca agradeceria a liberdade, continuando a colocar a nação em perigo; se não fosse agora, depois seria tarde para consertar o dano causado; que o governador tentava enganá-los, porque se escolhesse quem estava contra César seriam coniventes e os romanos os aniquilariam. Foram com estas razões que os pontífices instigaram o povo para que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás (Mc 15, 11).
Como houve uma demora do povo em responder, Pilatos perguntou novamente: Qual dos dois deve ser solto? Estava claro que a intenção era livrar Jesus, pois o considerava inocente. Mas dar a liberdade em confronto com Barrabás era um favor mesquinho, pois não o inocentava, apenas o libertava pelo privilégio da Páscoa. Mesmo que Jesus saísse livre, era uma ofensa e uma injustiça compará-lo a Barrabás. Induzidos pelos sacerdotes, todo o povo gritou a uma voz: À morte com este, e solta-nos Barrabás (Lc 23, 18). O ódio era tanto que nem o chamavam pelo nome: Não! A este não! Mas a Barrabás! (Jo 18, 40).
Como o Senhor tem uma alma generosa, talvez o desprezo e a ingratidão ao escolherem Barrabás foram as ofensas mais profundas que o Senhor recebeu em sua Paixão, maiores que as agressões físicas sofridas em seu corpo.
Quando somos ofendidos, devemos pensar que pouco vale a opinião dos homens e buscar somente agradar a Deus.
O próprio Santo dos Santos foi considerado malvado entre os malvados: Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele (Is 53, 3). Esta foi a grave acusação que Pedro lançaria sobre eles: Mas vós renegastes o Santo e o Justo e pedistes que se vos desse um homicida. Matastes o príncipe da vida (At 3, 14- 15). Esta escolha acarretou para os judeus: a destruição de sua cidade, o fim de Israel como nação e a morte e sujeição de muitos.
Pilatos ainda desejando libertar Jesus, intercedeu de novo: Que devo fazer com o rei dos judeus? Nomeando como rei, os envergonhava, pois não poderiam dar uma morte de cruz, seria um desonra muito grande, mas eles só desejavam uma coisa, a condenação e gritaram repetidas vezes: Crucifica-o! Pilatos insistiu com mais força: Mas, que mal fez ele, então? Não achei nele nada que mereça a morte; irei, portanto, castigá-to e, depois o soltarei (Lc 23, 22).
Quanto mais o defendia, mais os pontífices ficavam enfurecidos e gritavam para crucificá-lo; a boa vontade do governador estava sendo dominada.
A Paixão do Senhor, Luis de La Palma, 1624.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico