A cada momento aumentava a dor do Senhor. Agora, Pedro, um dos apóstolos mais querido, jurava não conhecê-lo; ele que tinha sido avisado; o negaria, não uma vez, mas três vezes.
A primeira vez foi pouco depois da meia-noite. Os servos e os guardas acenderam um fogo, porque fazia frio, e se aqueciam. Com eles estava também Pedro, de pé, aquecendo-se (Jo 18, 18). Ele que tinha entrado, porque João conhecia a porteira, estava no átrio fugindo do frio, quando a porteira o interrogou; Pedro negou e saiu, o galo cantou pela primeira vez.
A terceira negação deve ter sido por volta das quatro da manhã. Os evangelistas narram que na terceira negação, o galo cantou. São Marcos diz que era a segunda vez que o galo cantava; este segundo canto costuma ser por volta deste horário.
São Lucas narra: Passada quase uma hora (Lc 22,59). Então a segunda negação foi provavelmente às três da manhã. O Senhor tinha alertado a Pedro: Antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás (Mc 14, 72). Referia-se a dois momentos que o galo canta, um por volta da meia-noite, e outro antes de amanhecer. Da primeira negação à segunda, São Lucas diz: Pouco depois (Lc 22, 58), para se referir a terceira negação, São Marcos diz o mesmo: Pouco depois (Mc 14, 70). Tudo aconteceu muito rápido para Pedro naquela noite.
Tudo aconteceu no átrio, que é o pátio das casas; como não há telhado, o céu fica aberto. Por isso os soldados e os criados tiveram que acender uma fogueira para se protegerem da fria madrugada.
Não se deve estranhar que uns narrem que Pedro estava fora, outros que estava dentro: estava fora da sala de julgamento, mas dentro da casa. São Mateus completa: estava sentado no pátio (Mt 26, 69). Também deduzimos que a sala de julga mento ficava no andar de cima: Estando Pedro embaixo, no pátio (Mc 14, 66).
Voltando-se o Senhor; olhou para Pedro (Lc 22, 61). Como pode olhar se Pedro estava no pátio e Ele em cima? Provavelmente, após o conselho, quando já tinha acontecido a terceira negação e levavam-no para outra sala ou Pedro foi ver como tinha acabado o julgamento, e o Senhor olhou para ele.
Provavelmente tenha acontecido desta maneira: Terminado o julgamento, os sacerdotes se recolheram. Na casa apenas ficaram os guardas e criados. Conduziram Jesus para outra sala, onde vigiariam até amanhecer. Todos estavam no pátio, aquecendo-se na fogueira, uns sentados e outros de pé. Cansados de tanto escarnecerem, com frio e sono, revezavam-se na guarda do Senhor. Pedro afirmava não conhecê-lo e como estava arrefecido no amor de Jesus, aquecia-se junto ao fogo do inimigo. Tendo traído Deus, estava precisando urgente de uma consolação.
A porteira que tinha deixado entrar, percebeu-o sentado junto ao fogo, encarou-o deperto e disse: Também este homem estava com ele (Lc 22, 56). Porventura não é um dos discípulos? Antes que Pedro respondesse, acrescentou: Sim, com certeza é um dos que andavam com o Nazareno!
Pedro sentindo-se acuado no meio de toda aquela gente, cheio de medo de uma simples criada, negou diante de todos ser um discípulo: Não o sou (Jo 18, 17); Mulher, não o conheço (Lc 22, 57); Não sei o que dizes (Mt 26, 70).
Pedro, Pedro! Há pouquíssimo tempo dizia: Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás. Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei (Mt 26, 33.35). Não está em perigo de morte, não é o procurador romano ou o sumo sacerdote que pergunta, os soldados não te ameaçam; como não pode responder com coragem a uma simples porteira? É um homem fraco Pedro e, sem ajuda da graça, é vencido diante de uma situação insignificante.
Levantaram-se todos, Pedro aproveita ndo para disfarçar, ficou de pé e aproximou-se mais da fogueira. Estava intranquilo e com muito medo, afastou-se e saiu do pátio em direção a porta. O galo cantou pela primeira vez.
Aquela noite estava tumultuada: entrava e saia gente, muitas perguntas e opiniões, o barulho era enorme. Pedro tentava ficar oculto para não ser reconhecido, ao mesmo tempo procurava saber como estava o seu Mestre. Depois de mentir que não era discípulo e nem o conhecia, ficou perturbado, não sabia onde ficar ou como se comportar, levantava e sentava, a proximava -se do grupo para escutar algo, depois se afastava, andava e voltava do átrio a portaria, estava completamente perdido.
Pouco depois foi em direção da porta do pátio, outra criada olhou-o fixamente e disse aos outros: Este é um dos que estavam com Jesus de Nazaré! Pedro voltou a sentarse junto ao fogo com os demais, e perguntaram-lhe: É verdade que é um discípulo deste homem? Pedro respondeu: Não, não sou. Um servo que o olhava atentamente disse: Tenho certeza de que é um deles. Pedro respondeu aborrecido: Deixe-me em paz homem, já disse que não sou! E jurou não conhecer Jesus.
Pedro quando negou pela primeira vez, devia ter abandonado aquela conversa e saído do lado daquelas pessoas, que tanto lhe aborreciam . Porém, como ficou, sua culpa e o seu pecado foram maiores. Na primeira vez mentiu, mas na segunda jurou. Grande exemplo para nossa debilidade: devemos fugir das ocasiões perigosas, para não cairmos em pecado. Pedro ficou junto ao fogo e a terceira negação seria ainda pior.
Passada quase uma hora (Lc 22, 59). Um dos criados insistiu: Certamente tu és daqueles, pois é galileu (Me 14, 70). Outros repetiram: Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer (Mt 26, 73). Diziam isto, porque os galileus falam com sotaque diferente dos outros judeus. Pedro continuava negando, mas um dos criados do sumo sacerdote, parente daquele que teve a orelha cortada, desmascarou-o: Não podes negar; pois eu mesmo te vi, quando estava com ele no horto. Pedro acuado disse: Que diz? Não te entendo! Como não acreditavam nele, começou a jurar e praguejar: Eu não conheço esse homem! Imediatamente o galo cantou. Era perto das quatro horas da madrugada.
A promessa de Pedro não aconteceu: Darei a minha vida.(5) O Senhor havia profetizado: Três vezes me negará! Todos os evangelistas narram as três negações.
Pedro tinha esquecido do Senhor, mas Jesus lembrou-se dele; voltando-se o Senhor; olhou para Pedro (Lc 22, 61) para que se levantasse de sua queda. Este momento pode ter sido quando acabou o processo, e desciam Jesus para outra sala. Apesar do grande sofrimento, o Senhor olhou para Pedro, confortando-o. Ele entendeu e lembrou-se daquelas palavras que não tinha acreditado: Nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, terás me negado três vezes.
Saiu dali e chorou amargamente (Lc 22, 62). Entendeu a gravidade de sua culpa, contraposta a bondade do Senhor. O choro amargo e as lágrimas nasciam do afetuoso amor de seu Mestre. Recordava-se que tinha reconhecido Jesus como o Filho de Deus, e agora, mesmo avisado antecipadamente, jurava não conhecê-lo mesmo com todos os benefícios que tinha recebido e os privilégios que tinha perante os outros companheiros. O juramento que proclamou diante de todos, queimava-lhe as entranhas. Foi tanta dor que, por muito tempo, toda manhã quando o galo cantava, chorava amargamente, lembrando-se deste momento. São Marcos escreveu “começou a chorar”, como se fosse apenas o começo de um longo pranto, durante muito tempo. O olhar de Jesus tocou-lhe no fundo de sua alma. Como não pode retratar-se publicamente de sua covardia, desatou a chorar de arrependimento. Com a queda, ficou mais humilde e menos confiante em si, não colocou mais em risco sua debilidade. Experiente ensinou aos outros como evitar ocasiões de pecar, e que a fortaleza vem de Deus.
Não pediu perdão imediatamente. Pensou em lançar-se aos pés do Senhor, suplicando perdão. Mas, pareceu lhe muito atrevimento conseguir um perdão tão rápido, talvez conseguisse com lágrimas e mortificações. Ficou calado e não apresentou nenhuma desculpa, somente chorou, lavando com lágrimas sua culpa. Foi para fora do palácio, para chorar em paz, buscando consolação na Virgem Maria, refúgio dos pecadores. Onde mais poderia buscar consolo? Contar sua tristeza e amargura? Ela o confortou com firme esperança de alcançar o perdão de seu Filho. O Senhor permitiu que a pedra fundamental da Igreja pecasse e fraquejasse, para ensinar que ninguém deve ter a presunção de confiar em si mesmo, pois mesmo um apóstolo cheio de privilégio e amor, caiu.
Tomemos como aviso o que diz São Paulo: Portanto, quem pensa estar de pé veja que não caia (1Cor 10, 12). Devemos aprender com o que aconteceu a Pedro, nunca duvidar de Deus, mesmo quando estamos perdidos, pois apesar do pecado ser enorme, graças às suas lágrimas e a sua penitência, voltou à amizade com Cristo. Foi confirmado como príncipe dos apóstolos, cabeça da Igreja, Pastor do rebanho de Cristo e depositário das chaves do reino dos céus.
Comenta Santo Agostinho: Atrevo-me a dizer que é proveitoso para os soberbos cair num pecado claro e evidente, pelo qual se vejam como são pecadores, pois já tinham pecado com a sua soberba. Pedro se viu mais pecador quando chorou a sua culpa, do que quando presumia sua fidelidade.
Outra razão fornece São Gregório: A misericórdia que o Senhor usou para aquele que seria Pastor da Igreja, aprendesse por si mesmo como devia compreender as fraquezas alheias e compadecer-se delas, foi grande e digna de ser sempre recordada: O Senhor olha para seu amigo que o negou para salvá-lo, e para dar-lhe a mão para que não se perca. Assim o Senhor foi piedoso com ele, para que ele o fosse com as ovelhas do rebanho que lhe confiaria, para que não desamparasse ninguém por muito enfermo, revoltado ou perdido que possam estar.
A Paixão do Senhor, Luis de La Palma, 1624.
(5) Não aconteceu naquele momento, depois de Pentecostes revestido do poder do Espírito Santo, como chefe e coluna da Igreja, morreu martirizado em Roma.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico