São Lucas conta que era grande a “agonia” do Senhor nesta terceira volta. Agonia significa: estado de transição que precede a morte, espaço de tempo que dura este estado, luta, sofrimento, a margura. Cristo lutava dentro de si; por um lado estava a natureza hu mana que rejeitava esta morte, do outro a natureza divina que desejava obedecer ao mandato de seu Pai. O Espírito lutava contra a carne e animava-o a aceitar o martírio. Nesta batalha o Senhor rezou com mais fervor e a oração foi longa. Angustiado, violentou-se a si mesmo com tanta força, que algumas veias se romperam, fazendo cair gotas de sangue pelo chão. Não suou sangue por medo, mas pelo esforço imenso em obedecer plenamente a vontade de Deus. Quanto mais aumentava o seu sofrimento, mais sua oração se intensificava; clamando para que o cálice fosse afastado, porém, mais ainda, que fosse feita a vontade do Pai. Todos os anjos contemplavam a cena, em que o Filho de Deus agonizava e suplicava três vezes para se evitar esta morte tão cruel e vergonhosa. Aguardavam o resultado daquela súplica; como Abraão guardou sua espada perante seu filho Isaac; igualmente, talvez Jesus fosse poupado.
Deus mostrou aos anjos que sua vontade era soberana e que aceitava a oração de seu Filho, e assim, se cumpriria toda justiça e misericórdia, toda dívida pelos pecados ficaria paga e seria aberta a salvação aos homens. Todos os anjos adoraram a Deus pela sua infinita sabedoria e incompreensível bondade.
Uma oração humilde e perseverante, nunca fica sem resposta. A decisão tomada antes da criação do mundo não seria mudada. Deus enviou-lhe um anjo para confortá-lo. Evidente que um anjo não poderia trazer uma paz maior que aquela que Jesus tinha passado aos apóstolos. Mas naquele momento de solidão, o Senhor se sentiu querido e foi confortado. Assim, ensina o Mestre, que humildemente devemos aceitar e procurar consolo, mesmo que seja em pessoas aparentemente simples.
Terminada a oração, o Senhor levantou-se e novamente encontrou os apóstolos dormindo. Despertou-os com uma aparente ironia: Dormi agora e repousai! (Mt 26, 45). Com isto queria dizer: ótimo lugar e ocasião para dormir, o inimigo está perto para me prender; solicitei que rezassem e vigiassem comigo, mas agora é tarde. Como não se levantavam, gritou: Basta! Veio a hora! o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores (Mc 14, 41).
Ultrajado era o sentimento do Senhor, por aqueles que o prendiam, e mais ainda por Judas, pois era um apóstolo e o vendia por pouco valor. Judas não barganhou, conformou-se com o valor pago: Que quereis dar-me e vo-lo entregarei (Mt 26, 15). Agora, o Senhor não ocultaria mais o desgosto pelo traidor: Levantai-vos e vamos! Aproxima-se o que me há de entregar (Me 14, 42); ele não perdeu tempo e nem está dormindo.
Encontramos neste episódio dois grandes ensinamentos: a oração sempre é eficaz, embora a consolação fosse pequena, a fortaleza para vencer foi enorme; e diante de Deus precisa mos abrir inteiramente nosso coração como fez Davi: Ponho diante dele a minha inquietação, eu lhe exponho toda minha angústia (SI 141, 3). Perante a dificuldade é preciso mostrar valentia e enfrentar os que nos perseguem.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico