Amou-me e entregou-se por meu amor (Gal. II, 20).
Sim, meu amado Salvador, amaste-me e entregastes-Vos à morte por meu amor! (1)
Passaram os acontecimentos de Getsemani; Anás, Caifás, Herodes e Pilatos sentaram-se nos seus tribunais; a flagelação, a coroação de espinhos, a via dolorosa, a crucifixão, tudo isso passou também.
Suspenso entre o céu e a terra, estais pendente do madeiro ignominioso, ladeado de dois malfeitores. Em torno da cruz agita-se a multidão, que atraída pela curiosidade, ali está mofando e blasfemando de Vós.
O Sangue de Jesus humedece a terra, os seus membros contraem-se de dor! A cabeça cansada, procura inutilmente onde repousar; os olhos só presenciam objetos de aflição; inimigos furiosos, amigos covardes, uma plebe endurecida, um povo ingrato, cruel e insensato; os seus ouvidos só ouvem as ofensas, imprecações, maldições e alaridos em que irrompe a malícia e a sede de vingança ainda não saciada de todo.
Oh Senhor, aumentai a minha fé (2). Vós sois Cristo, o Filho de Deus vivo! (3)
Sim: este Homem crucificado, desamparado, mofado e moribundo, é Deus.
A tanto o levou o amor que nos tem, tanto quis sofrer para nos abrir os olhos, afim de que vejamos o valor em que devemos ter as coisas da terra.
Sempre o mesmo, no Calvário, em Belém e Nazaré, Jesus despreza as honras terrenas, desdenha as riquezas, e não quer conhecer os prazeres sensíveis; mas abraça a pobreza, os sofrimentos e humilhações, tornando-as suas companheiras na vida e na morte.
Grandes, dignas de amor e ditosas devem ser a pobreza, os trabalhos e as humilhações para o Filho de Deus querer viver inseparavelmente unido a elas durante toda a vida, desde o berço até à cruz.
As chagas que as três concupiscências abriram na nossa natureza eram tão fundas que foi necessário um remédio extraordinário para as curar. Os erros que dominavam entre os homens, a estima demasiada das criaturas, especialmente das que lisonjeiam a ambição e a sensualidade, estavam tão profundamente enraizadas que era necessário o testemunho provado com obras do Deus sapientíssimo, para que, caindo-nos a venda dos olhos, se nos descobrisse a cegueira que tonava os nossos passos vacilantes e mortalmente perigosos.
O remédio veio, o testemunho deu-se.
Oh cruz! só em ti está a salvação! Oh cruz, cadeira da verdade! prega, clama sem cessar, levanta a voz como som duma trombeta, e anuncia ao mundo insensato a sentença do Homem-Deus, que morre crucificado.
Oh cruz! lugar onde o amor eterno derramou o seu sangue! Estendidos tens os braços para neles estreitares amorosamente o mundo inteiro, e para o levar Àquele que padeceu por nós todos estes tormentos!
Sim, por nós: por ti, ó jovem, escolheu o teu Salvador esta vida de sacrifício e sofreu esta morte dolorosa! Não é pois, evidente o direito que tem a que te sacrifiques por Ele?
Ele amou-te e entregou-se à morte por ti. Não quererás tu corresponder ao seu amor, estando sempre disposta a fazer ainda os maiores sacrifícios, se Deus tos pedisse?
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Gal. II, 20.
(2) Luc. XVII, 5.
(3) Mat. XVI, 10.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico