Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Uma família em uma sala de estar, século 19, domínio público, Wikimedia Commons

O estado secular

E a um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade (Mat. XXV, 15).

A maior parte dos homens são chamados ao estado secular: nele há diferentes profissões, todas elas necessárias para que a grande família de Deus possa subsistir e florescer.

Humanamente falando a melhor sorte está reservada a uma porção muito reduzida: a maior parte dos homens tem de merecer o céu à custa de duros trabalhos e de uma luta continuada.

Se és do número dos ricos, daqueles que receberam cinco talentos, dá graças a Deus, e não te vanglories, porque não tens nisso mérito nenhum. Aquem recebeu muito, ser-lhe-á pedido muito (1).

Lembra-te que as riquezas e posição desafogada não dão carta branca para viver vida de ociosidade, egoísmo e sensualidade. És pessoa humana como as outros, filha de Adão, como as outras, e por conseguinte estás como as outras, obrigada à expiação por meio do trabalho.

O rico avarento, imagem do homem que só procura os prazeres, foi sepultado no inferno; e Lázaro, o pobre, foi transportado pelos anjos para o céu (2). Qual dos dois quererias ser?

O privilégio e honra dos ricos consiste em serem o reflexo da liberalidade de Deus, e os seus esmoleres. Mas, não basta: a caridade pessoal vale mais do que a esmola.

Se não recebeste a bênção dos bens temporais, consola-te com o exemplo de tantos outros, e não te perturbes nem desanimes. No céu tens um Pai que não se esquece de ti, que sustenta as avezinhas do céu e veste os lírios do campo com galas que a magnificência do mesmo Salomão invejaria (3).

Reconhece agradecida os sábios desígnios da Providência, que te leva ao destino eterno por um caminho mais seguro e menos perigoso do que o das riquezas.

Não te deu Deus aptidões corporais e potências espirituais, que muitos invejariam? São apenas dois talentos, mas encerram em si mais valor do que os cinco dos ricos. Aproveita-os pois, não os deles improdutivos, serve-te deles para glória de Deus.

São vários os gêneros de vida, sobretudo nos nossos dias, em que as jovens, ainda livres do matrimônio, podem granjear e negociar os talentos e ganhar com eles o sustento necessário.

Antes de tudo, a primeira vocação da donzela cristã consiste naquela tranquila esfera doméstica, em que a virtude prospera e é defendida, e da qual irradiam indescritíveis bênçãos. Esta vocação pintou-a magnificamente o Espírito Santo: Quem encontrará uma mulher forte? (4) Cuida no modo de proceder da família e não come o pão na ociosidade (5).

Abre a mão para socorrer o indigente e estende o braço para aliviar o necessitado (6). Os seus atavios são a fortaleza e a formosura (7). A lei da bondade governa a sua língua (8). O seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, lá dos últimos confins da terra (9).

Tal foi a vocação dessa admirável flor de santidade, Izabel de Hungria.

Não julgues que ela é humilhante quando praticada sob a dependência doutra pessoa, ajudando os teus pais ou irmãos menores, ao lado de algum parente, ou encarregada da direção da casa. É pelo contrário, vocação de muito mérito na presença de Deus, porque é enobrecida pela humildade e pela obediência.

Seria porventura mais honroso, deixares sem aplicação os teus talentos, e viveres numa inércia vergonhosa?

Muito dignas de todo o apreço são essas jovens que conculcando as falsas ideias da honra, se consagram a uma vida ativa e cheia de merecimentos. Quem se alegrará mais do que elas no último dia? (10)

Talvez Deus te tenha dado apenas um talento, mas de maior valia do que os cinco ou dois: a vocação de educar as criancinhas para o céu e para a terra. Examina se abraças esta profissão por amor de Deus e das crianças, ou se é só por interesse. Grande prejuízo seria para um povo uma mestra que não estivesse com o coração na escola, e que procurasse agradar aos homens e não a Deus. Pelo contrário, uma mestra com verdadeira vocação para o magistério, é um tesouro inestimável; prova-o aquela que tendo cegado ao cabo de sessenta e cinco anos de trabalho, só se lamentava da sua desgraça por já não poder dirigir criancinhas para o céu. Destas foram verdadeiramente ditas aquelas palavras: aqueles que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas, por toda a eternidade (11).

Poderá haver coisa maior? Qual será a sua alegria nos últimos dias, quando exclamar na presença de tantas almas que levou para Deus: Quem me deu todos estes filhos? e ouvir que lhe respondem: Aquele que faz que habite na casa a mulher estéril, alegre por se ver mãe de filhos! (12) Estas são as promessas que Deus fez às que abraçam a carreira do magistério, sempre que não caiam na soberba de espírito ou não sejam infiéis à sua vocação.

Se tens talento especial para a música, para a pintura, para o bordado ou para outros trabalhos delicados, cultiva-o, pois é um capital que Deus te emprestou para render juros.

Não falta quem se sinta inclinada para os estudos acadêmicos: são exceções, que supõem qualidades especiais de entendimento e de vontade, para não correrem grave perigo na fé e nos bons costumes.

Se te oferecessem uma colaboração em casa, ou às ordens doutra pessoa, considera bem antes de aceitares, não seja que vás expor a virtude a algum perigo.

Mas, seja qual for o estado que elegeres, é necessário, ó jovem, que ponhas os olhos em Deus e na salvação da tua alma. Só assim, deixarás mais tarde de te arrepender da eleição que houveres feito.

A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.

(1) Luc. XII, 48.
(2) Luc. XVI, 19-31.
(3) Mat. VI, 29.
(4) Prov. XXXI, 10.
(5) Prov. XXXI, 27.
(6) Prov. XXXI, 20.
(7) Prov. XXXI, 25.
(8) Prov. XXXI, 26.
(9) Prov. XXXI, 10.
(10) Prov. XXXI, 25.
(11) Dan. XXII, 3.
(12) Salm. CXII, 9.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico