Ouve o conselho e recebe a correção, para que sejas sábio no fim da tua vida (Prov. XIX, 20).
O matrimônio é o primeiro e o mais importante dos estados; dele derivam de certo modo os outros.
Deus Nosso Senhor não contente com ter formado por Suas próprias mãos Adão e Eva, e com os ter feito instrumento do Seu poder criador, quis elevar o matrimônio à dignidade de sacramento, do qual está continuamente manando a sua graça.
O matrimônio é pois, santo na sua origem, santo na sua duração e santo nos seus fins.
Os teus filhos estarão em volta da tua mesa, como rebentos de oliveira (1).
Digo-vos que este sacramento é grande, mas em Cristo e na Igreja (2).
Nem sequer se pode imaginar que haja uma jovem que se atreva a abraçar um estado que a coloca em íntima relação com Deus, sem nele pensar, e sem ver, se abraçando-o, cumpre com a vontade de Deus!
Infelizmente porém, repete-se com demasiada frequência a tragédia do paraíso; a mulher que se deixa enganar pela serpente, arrasta depois consigo o homem para a ruína. O amor sensual triunfa sobre a razão, a eleição faz-se às cegas, abraça-se o matrimônio sem se pensar nos mandamentos de Deus e da Igreja, e depois vem o desengano, não raro ao cabo de bem pouco tempo. Mas já é tarde: o vínculo já está contraído. Então avança-se na loucura, e por fim intenta-se quebrar um laço, que segundo a lei de Deus, só a morte pode romper.
Os cônjuges divorciam-se para formar novos laços criminosos, que depois de novos desenganos, acabam por se romperem também. Os extravios não terminam.
Quantos matrimônios são nos nossos dias fruto do capricho, e da imprudência ou insensatez?
Jovem cristã, sê tu mais prudente, ouve a voz da razão e não ouses desrespeitar a lei de Deus.
Pergunta-se antes de tudo: Terei eu vocação para o matrimônio?
Houve jovens que encontraram nele uma morte prematura, por não terem ouvido a voz dos pais e dos médicos. Estas pagaram o capricho com a vida.
Mias difícil é ainda a escolha do esposo; neste ponto é muito para temer que a paixão nos cegue.
Como há de ser feliz o matrimônio em que há entre os cônjuges grande indiferença de idade, condição e fortuna? Como poderás ser feliz com um homem fútil, ou inútil para o trabalho, colérico, desposta e orgulhoso?
Poderá esperar ser feliz, casando-te com um homem que só se busca a si, que desconhece as obrigações do matrimônio, que só aspira a viver bem , e cujo fito principal é o teu dinheiro? Poderás esperar ser feliz com um homem sem religião, por mais que se apelide de católico? Poderá um homem assim ajudar-te e guiar-te para o céu? Não será de temer que se torne tíbia e indiferente, e te arraste à perdição eterna? Seria necessário um prodígio de fortaleza para que assim não sucedesse.
Como é possível que seja agradável aos olhos de Deus o matrimônio entre uma jovem católica e um heterodoxo?
A razão responde negativamente, porque não pode haver unidade no que há de mais elevado e importante, que é a fé. E esta diversidade de crenças derrama as suas negras sombras sobre os momentos mais sagrados, e envenena as alegrias mais puras da vida de família.
Que sentirá a esposa no ato do casamento, ao considerar que o esposo não olha o matrimônio como um sacramento indissolúvel, mas como um mero contrato que o poder civil pode romper?
Que inquietação e angústia perturbará as alegrias da mãe, quando se discutir o culto em que o filho há de ser batizado?
A esposa só gozará a meias da alegria da primeira comunhão dos filhos, visto que o pai não pode compartilhar dela.
E que dúvidas tão duras se levantarão no leito de morte do esposo!
O culto externo cessará em casa; não haverá orações em comum; nem crucifixos, nem imagens de santos, nem água benta, nem ninguém se benzerá porque tudo será tachado de superstição.
Oh! como tudo isto perturbará a vida da alma? Não tardarão a cair sobre a família aquela frialdade e indiferença, que são precursoras da morte.
E qual será a religião dos filhos? Seguirão o exemplo do pai, ou o da mãe? Quem poderá impedir, que extraviados de ideias religiosas, se façam indiferentes ou incrédulos de todo?
Dir-me-ás que a Igreja dá dispensa para estes matrimônios! Sim: mas fá-lo contra vontade, e só debaixo da condição de que fique assegurado à parte católica o livre exercício da religião e a educação católica de todos os filhos. Por isso, não se pode dizer que a Igreja aprova tais matrimônios; tolera-os para evitar males maiores, sem responder das consequências funestas que deles se seguem, e que só caem sobre os que o contraem.
Quantas vezes o cônjuge heterodoxo deixa de cumprir as promessas que fizera antes do matrimônio!
Para os fautores do erro essas promessas são imorais; e por isso não obrigam. Além disso, as leis civis que nalguns países favorecem o pai, apoiam a infração da promessa. As preocupações do mundo apresentam também com muita frequência pretextos para desculpar a infração.
Segundo as estatísticas, a maior parte dos filhos de matrimônios mistos são perdidos para a Igreja, apesar das promessas mais santas dos cônjuges dissidentes. Que fonte de amargura e desconsolação! E quantas vezes se vai até ao último extremo, até à separação dos esposos! Neste caso o cônjuge infiel contrai facilmente outro matrimônio, ao passo que a parte católica foca ligada em consciência pelo vínculo contraído.
E se há matrimônios mistos em que a boa educação dos filhos prospera; é porque o cônjuge não católico cumpre a promessa, e o católico redobra de esforços, convencido da responsabilidade que lhe incumbe. Mas, a que perigos fica exposta, ainda nestes casos, a vida religiosa dos filhos!
Não é pois, estranho que a maior parte deles sejam perdidos para a Igreja.
Que responsabilidade a tua, jovem cristã, se apesar destas reflexões contraísses sem necessidade matrimônio com um heterodoxo, ou consentisses que o matrimônio se celebrasse nalgum templo protestante, sem respeitares a tua consciência nem os preceitos da Igreja, tornando-te assim réu de excomunhão maior!
Quem ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim (3), diz o Senhor. E tu, ó jovem, hás de sacrificar nas aras de um amor insensato, a salvação da tua alma, e o próprio Deus?
Ouve pois, a voz da consciência: ouve os conselhos dos teus pais, quando os não cegar também a afeição terrena; ouve os conselhos do eu diretor no negócio mais importante da vida. Pede fervorosamente a Deus que te ilumine, para que a tua eleição seja do seu agrado e te conceda a sua bênção.
Conserva na devida honra o estado de noiva e santifica-o recebendo com mais frequência os santos sacramentos. É muito para recomendar que faças confissão geral algum tempo antes de contraíres matrimônio.
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Salm. CXXXVII, 3.
(2) Ef. V, 32.
(3) Mat. X, 37.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico