Catecismo do Matrimônio (Parte 2) – Capítulo 5: Celebração do Casamento

Catecismo do Matrimônio (Parte 2)

Capítulo 5: Celebração do Casamento

P. – É na repartição do registro civil que se celebra o casamento?

R. – Não. Aí apenas se realiza a cerimônia impropriamente chamada “casamento civil” mas que, em verdade, não é mais que uma “simples formalidade”, prescrita pela lei, a fim de dar e assegurar os efeitos civis aos cônjuges e sua descendência.

P. – Onde se celebra o verdadeiro casamento?

R. – Na Igreja, perante o pároco da freguesia, ou seu delegado, e duas testemunhas conforme as regras fixadas pelo código. (Cân. 1.094-1.103).

P. – Qual é o ato essencial desta celebração?

R. – É o ato pelo qual os dois cônjuges dão um ao outro o seu consentimento.

P. – Que cerimônias acompanham este ato?

R. – Revestido de alva e estola e de casula, se tem de celebrar missa, o pároco da freguesia, ou o seu delegado, dirige-se ao altar, seguido dos nubentes e convidados e reza uma curta oração encomendando a Deus o ato que vai realizar; recorda aos futuros esposos e à assistência numa breve alocução a grandeza do sacramento que vai celebrar-se e o recolhimento com ele deve ser recebido.

Em seguida, dirigindo-se aos noivos, pergunta-lhes:

– F., quereis receber a F. aqui presente, por vossa legítima esposa, conforme manda a Santa Madre Igreja?

Ouvida resposta afirmativa, claramente dada, o sacerdote dirige-se à noiva nos mesmos termos:

“F., quereis receber a F. aqui presente, por vosso legítimo marido, conforme manda a Santa Madre Igreja?”

Obtida resposta afirmativa, o sacerdote diz aos esposos que unam, um ao outro, a sua mão direita.

P. – O gesto das mãos é antigo?

R. – Sim, remonta a uma grande antiguidade. Quando foi do cativeiro dos judeus na Media, Raquel tomou a mão direita de sua filha, e pondo-a na mão direita de Tobias, para celebrar a sua união, disse-lhes: “Que o Deus de Abraão, de Isaac, e de Jacob seja convosco e vos uma numa santa união, enchendo-vos das suas bênçãos mais abundantes.” (Tob., VII, 15).

P. – Foi observada essa cerimônia nos primeiros tempos do cristianismo?

R. – Sim, desde o IV século, S. Gregório de Nazianzo alude a ela. Desculpando-se de não assistir às bodas da filha de Anísio, seu amigo, exprimiu-se assim: “Estou convosco em espírito, e… por afeição… Uno uma à outra a mão direita destes jovens e ambas elas à de Deus”. (Epístola LVII).

P. – Que significa esta união das mãos?

R. – Significa o auxílio mútuo que os dois esposos devem dispensar-se, a sua fé recíproca e o laço que os une.

P. – Não se pratica ainda, em certos países, uma cerimônia que torna ainda mais sensível a indissolubilidade matrimonial?

R. – Sim, o padre passa a sua estola em volta das duas mãos unidas como para liga-los, em nome da Igreja, para sempre.

P. – Que faz ele depois?

R. – Profere as seguintes palavras: “Em nome de Deus vos uno em matrimônio, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amen”.

P. – É por estas palavras que o padre casa realmente os dois esposos?

R. – Não. Ele não faz mais do que sancionar e abençoar, em nome de Deus, o laço sacramental. É testemunha, e não ministro do Sacramento.

P. – Quem formou então o laço?

R. – Os próprios esposos, quando pronunciam o sim solene e irrevogável. São eles próprios (é essa a sua glória) os ministros do grande sacramento.

P. – A cerimônia dos anéis é também usada no casamento?

R. – Sim, e remonta aos tempos mais remotos.

P. – Como se realiza na Igreja católica a bênção dos anéis?

R. – O sacerdote recita esta bela oração: “Abençoai, Vós, Senhor, este anel que nós abençoamos em Vosso nome, a fim de que a sua portadora, mantendo inviolável a fidelidade a seu esposo, viva perpetuamente na vossa paz e segundo a Vossa vontade, gozando durante toda a vida as alegrias duma caridade bem compreendida. Assim, vo-lo pedimos, por Jesus Cristo, Senho Nosso. Assim seja”. Depois, o sacerdote abençoa, aspergindo-o, o anel e entrega-o ao esposo, que o enfia no dedo anular da esposa.

P. – Que significa esta tradição?

R. – A fidelidade inviolável dos dois esposos. “O anel nupcial, diz S. Francisco de Sales, é o símbolo do casamento. Antigamente as promessas selavam-se com o anel que se trazia nos dedos, como afirma a Sagrada Escritura. Este é, pois, o segredo da cerimônia, que se celebra nas bodas. Pela mão do Sacerdote, a Igreja benze um anel, e, dando-o primeiro ao homem, dá a entender que ela sela e cerra o seu coração por este sacramento para que nunca mais possa entrar nele o nome nem o coração de qualquer outra mulher, enquanto for viva a que se lhe deu. Em seguida, o esposo põe o anel no dedo da esposa, para que, reciprocamente, ela saiba que jamais seu coração deve afeiçoar-se a outro homem, enquanto na terra viver aquele que Nosso Senhor acaba de lhe dar”. (Introdução à vida devota).

P. – Não há também o costume de se benzerem, durante a cerimônia, algumas moedas? Que significa isso?

R. – Sim, é um uso que existe em certos lugares. O esposo oferece à esposa uma moeda assim benzida, dando-lhe a entender desse modo que entram ambos, daí em diante, em comunhão de bens.

P. – Deve ouvir-se missa depois de recebido o matrimônio?

R. – No primeiro século da Igreja, o Papa S. Evaristo afirma que é de tradição apostólica o santo sacrifício na celebração das bodas. No século seguinte, Tertuliano diz: “Este casamento só é feliz quando feito pela mediação da Igreja, confirmado e selado pela oblação e promulgação pelos anjos” (Ad uxor., II livro).

P. – Porque liga a Igreja tanta importância à missa do casamento?

R. – 1º Para atrair sobre os recém-casados as graças superabundantes que brotam do altar; 2º para lhes recordar os seus grandes deveres: dever de amor mútuo, dever de fidelidade inviolável, tão bem expressos na Epístola e no Evangelho da missa do casamento.

P. – Mas, afinal, a assistência a esta missa é obrigatória para os casados?

R. – Não, mas a Igreja, para mostrar como deseja que os noivos a ela assistam, proíbe que se lhes lancem as bênçãos fora dessa missa. (Codex juris canonici, can. 1101).

P. – Que vem a ser a bênção nupcial?

R. – É uma oração solene pela qual a Igreja solicita as bênçãos de Deus para os esposos.

P. – Concede-se a todos?

R. – Não. A Igreja recusa-a às viúvas que voltam a casar, para mostrar que, permitindo embora à mulher novas núpcias, tem em maior apreço aquela que permanece fiel à lembrança do seu primeiro marido.

P. – Em que altura se realiza essa cerimônia?

R. – Depois do Pater e antes da Pax Domimi, ajoelhando o sacerdote no último degrau do altar. A oração e como segue:

“Dignai-vos, Senhor, atender as nossas súplicas e enchei com a vossa graça o sacramento que instituístes para a propagação do gênero humano, afim de que a vossa assistência conserve o que a vossa autoridade uniu, por Jesus Cristo, Senhor Nosso.

“Ó Deus, que pelo vosso poder criastes do nada todo o universo; que, logo no princípio do mundo, tendo feito o homem á vossa imagem, lhe destes para sua companheira inseparável a mulher que dele próprio formaste, a fim de nos ensinardes que jamais é permitido separar o que Vos aprouve unir; ó Deus, Vós que consagrastes o casamento por um mistério tão precioso que a aliança nupcial é a figura da união sagrada de jesus Cristo e da sua Igreja; ó Deus por Quem a mulher se une ao homem e que dais à sua união íntima a única bênção de que não fomos privados, nem pelo castigo do pecado original nem pela sentença do dilúvio. Lançai um olhar complacente sobre a vossa serva que, antes de unir-se a seu esposo, implora a vossa proteção. Fazei que o seu jugo seja um jugo de amor e paz: fazei que, fiel e casta, ela se consorcie em Jesus Cristo; que siga sempre os exemplos das santas mulheres; que seja amável para seu marido como Raquel e sábia como Rebeca; que goze uma longa vida e seja fiel como Sara. Que o autor do pecado coisa alguma encontre nela que lhe pertença a ele; e que ela se mantenha forme na fé e na observância dos vossos mandamentos, afim de que, unicamente ligada a seu marido, não manche o leito nupcial por nenhum comércio ilegítimo; que para revigorar a sua fraqueza tenha sempre uma vida regrada, respeitando o seu pudor; que se instrua nos deveres da doutrina toda celestial de Jesus Cristo; que de Vós obtenha uma fecundidade feliz: que a sua vida seja pura e irrepreensível e alcance o repouso dos santos no reino do céu.

“Fazei, Senhor, que eles ambos vejam os filhos de seus filhos até à terceira e à quarta geração e cheguem a uma velhice feliz, pelo mesmo Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Missa pro sponso et sponsa).

P. – Que deve pensar-se desta oração?

R. – Que é, simultaneamente, uma obra prima de lirismo cristão e um admirável código das obrigações conjugais.

A Igreja pede a Deus que a aliança dos novos esposos lhes seja: 1º uma aliança toda de amor (que o seu jugo seja um jugo de amor); 2º uma aliança cristã (que se casem em Jesus Cristo); 3º uma aliança casta (que não enxova-lhe o leito nupcial); 4º uma aliança fecunda (que alcance de vós uma fecundidade feliz).

P. – Que devem fazer os esposos enquanto o padre os abençoa?

Farão bem seguindo no seu missal as palavras que ele profere, traduzidas na sua língua, unindo a sua oração à do sacerdote. Melhor será ainda que meditem nela durante os dias que precederem o casamento, devendo ainda fazê-lo depois, frequentes vezes, para se aperceberem bem do seu estado e da gravidade das suas obrigações.

P. – No fim da missa, a Igreja determina ao padre que fala uma nova recomendação aos noivos. Qual é?

R. – A de guardarem continência na época das grandes preces e de penitência e por ocasião das festas religiosas. Lembra-lhes assim eu a grande lei da penitência cristã deve reger todos os apetites da nossa natureza. É certo que a Igreja, sobre este ponto, não prescreve coisa alguma sob pena de pecado, mas indica todavia quando é o tempo próprio de proceder assim. Entretanto, e qualquer que seja a época penitencial, nenhum dos cônjuges tem o direito por esse motivo, de recusar o ato conjugal, se o outro o exigir.

P. – Não deverá ainda outra razão para esta continência momentânea, durante a vida conjugal?

R. – Sim; quando a saúde d’um dos esposos ou qualquer outra razão grave os possa obrigar a isso temporariamente. Procedendo de modo diferente, incorrerão no perigo de ofender a Deus.

P. – Qual deve ser a atitude dos assistentes à missa do casamento?

R. – A atitude de cristãos e de pessoas bem educadas.

Como cristãos, devem pensar que são testemunhas d’um sacramento da nova lei; devem orar pelos jovens esposos; devem solicitar em seu favor as graças do céu, e alcançarem, eles próprios, a coragem precisa para observarem perfeitamente as leis sagradas do casamento.

Como pessoas bem educadas, devem evitar na casa de Deus qualquer atitude irrespeitosa, conversas impróprias e risos inconvenientes. E devem testemunhar a sua veneração pelos ritos que teem feito, com justo motivo, a admiração dos séculos.

P. – Como devem passar o resto do dia, terminada a cerimônia religiosa?

R. – É perfeitamente justo que o passem alegremente. O dia de casamento tem sido sempre um dia de festa. Assim foi nas bodas de Caná, na Galileia, em presença do Divino Salvador. Importa, porém, que, em todas as bodas cristãs, os folguedos sejam, como naquelas, dignos de esposos cristãos.

“Guardai-vos, diz S. João Crisóstomo, de desonrar o casamento com pompas inventadas pelo demônio…” (T. III, in illud: Propter fornicationem… uxorem habeat, § 2).

E noutro ponto: “Para longe de vós, portanto, as danças lascivas, as palavras vergonhosas e todo esse aparato que transforma as vossas bodas na festa do diabo!” (Ibid., § 3).

EXTRATO

Os ministros do sacramento são dois cônjuges – Jesus Cristo diz aos esposos que são dignos de ouvi-lo e capazes de compreendê-lo: “Vinde ao meu altar, vinde e acendei ali a chama d’um amor puro e imortal”. E eles vão, entre flores e incenso, ao som das suaves e profundas harmonias do órgão. Não são dois noivos, mas dois sacerdotes. O amor cristão não é somente uma religião; é também um sacerdócio. O padre católico está presente, sem dúvida; mas, espetáculo estranho! Como que despojado do seu poder sacramental. Está presente como delegado da Igreja; como intercessor e testemunha necessária; como intercessor, para orar e abençoar; como testemunha, para ver e o vir. Mas, por uma exceção única na economia das coisas divinas, ele, o dispensador de todos os sacramentos, desde o batismo até à Extrema-unção, não é o ministro deste sacramento admirável. Os dois esposos é que são os ministros. O seu coração comove-se, a sua voz treme, as suas mãos encontram-se num casto aperto, e manifestam o seu mútuo consentimento. É o bastante. Do mesmo passo, na presença do padre, dos anjos e de Deus, firmaram o contrato do seu amor natural e o sacramento da sua união sobrenatural: como é belo o matrimônio santificado! – (Mgr. Gibier, la Désorganization de la famille, pag. 39-40).

Obrigação da temperança no casamento – A lei austera da renuncia e a obrigação do recurso a Deus pela oração a todos incumbem, religiosos ou leigos, homens ou mulheres, solteiros ou casados… Mesmo no casamento o homem e a mulher devem moderar os seus desejos. Cada marido deve ter pela compleição de sua mulher os cuidados e atenções que a prudência e a delicadeza do coração exigem.

Bem pode acontecer que um dia a salvaguarda da saúde d’um dos esposos os afaste um do outro, por muito tempo, talvez como respeitariam essa barreira, se desconhecessem os primeiros esforços da continência?

Ninguém desconhece a reserva imposta pela temperança e pela sobriedade na comida e na bebida. A castidade conjugal é tanto mais necessária quanto é certo serem mais cegamente inferiores os impulsos que ela dirige e deve reger. E não vos espanteis, protestando que exigimos o impossível. Deus jamais vo-lo ordena, responde Santo Agostinho numa frase célebre adotada pelo Concílio de Trento, mas espera que vós, depois de haverdes feito o que vos permitem as vossas forças naturais, lhe imploreis que, pela sua graça, venha em auxílio da vossa insuficiência.

Um dos frutos da graça do sacramento do matrimônio é preparar aos esposos, para as honras mais laboriosas do seu comércio conjugal, as energias que faltariam à sua boa vontade natural. Esposos cristãos: se desejais, com sinceridade, permanecer impecavelmente fiéis, pedi todos os dias a Deus que vos conceda sempre essa coragem.

Esposa cristã: receais talvez o perigo da maternidade. Mas esse perigo não é tão grave como vo-lo pintam, muitas vezes; mesmo que ele, excepcionalmente, obrigasse a uma intervenção cirúrgica, os progressos da cirurgia são bem patentes para fortalecer a vossa confiança. Está apurado, efetivamente, que os operadores hábeis salvam hoje a vida da mãe noventa e cinco vezes em cem casos. Por diminuto que seja, contudo, o perigo da operação requer uma força de ânimo que só poderemos encontrar na oração e na confiança naquele a quem vos entregais.

Recordai-vos, pois, esposos e esposas, das vossas origens celestes e dos vossos imortais destinos. Deixai a esses para quem o matrimônio não excede o nível duma união cujo fim só reside no amor sensual, a ideia deprimente de que a paixão é soberana, incoercível, sempre legítima. Subi vós mais alto. Que o vosso casamento realize a união dos vossos corpos e das vossas almas; que, nesse estado, as vossas alegrias sejam sóbrias e moderadas; evitas procura-las pelo que são em si mesmas, fora da observância das condições naturais da constituição da família. (Carta de Sua Em.ª o cardeal Mercier, arcebispo de Malines, sobre Os deveres da vida conjugal, 1909).

Catecismo do Matrimônio por P. Joseph Hoppenot, S. J., Obra aprovada por 48 cardeais, arcebispos e bispos de França e Bélgica, 1928.

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