Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Vinde, Espírito de Sabedoria, atraí-me!

1 – O dom de entendimento faz-nos penetrar as coisas de Deus, o dom de sabedoria leva-nos ainda mais longe: faz-nos saboreá-las, confere-nos um conhecimento saboroso delas: É o “conhecimento saboroso” de que fala S. Bernardo, é o intraduzível “dulce sapere” invocado por S. Tomás (Adoro Te devote); é o dom precioso que o Espírito santo nos oferece, dizendo-nos: “Gustate et videte quam bonus sit Dominus” saboreai e vede como o Senhor é bom (Sal. 33, 9). Não foi ao acaso que disse primeiro saboreai e depois vede, porque o dom de sabedoria dá-nos a conhecer Deus através da experiência do coração que “saboreia” o objeto amado.

Há dois modos de conhecer: um especulativo, intelectual, e outro experimental que provém duma espécie de “conaturalidade” com o objeto a conhecer; este último é menos claro, mas muito mais profundo do que o primeiro e capta a íntima substância das coisas. Assim, por exemplo através da afinidade de sentimentos e afetos que a unem a seu filho, uma mãe conhece o seu coração muito melhor do que qualquer outra coisa. Semelhante a este é o conhecimento das coisas divinas adquirido pelo dom de sabedoria. Entre Deus e nós há uma espécie de “conaturalidade”, uma espécie de semelhança produzida pelo amor que nos une a Ele e que, de algum modo, nos assemelha a Ele. S. Paulo não hesita em dizer que “o que está unido ao Senhor é um só espírito com Ele” (I Cor. 6, 17). O dom de sabedoria dá-nos a conhecer Deus e as coisas divinas precisamente através desta “conaturalidade” e por isso proporciona-nos uma experiência cálida e saborosa motivada pelo amor de que ela deriva. Esta experiência prende a alma no seu centro, quer dizer, na vontade, redunda como luz no entendimento. O dom de sabedoria age mais ou menos como o raio do sol que aquece e ilumina ao mesmo tempo. Aquece, reativa a caridade da alma e por meio desta inflamação de amor ilumina-a acerca das realidades divinas e torna-a capaz de as julgar fazendo-a compreender por intuição a sua bondade infinita e a sua absoluta superioridade sobre todas as coisas. “Ó profundidade das riquezas de Deus!” (Rom. 11, 33), é o grito da alma inflamada e iluminada pelo dom de sabedoria.

2 – Todos os dons do Espírito Santo estão estreitamente relacionados com a caridade, já que se encontram só na alma que a possui e se desenvolvem na medida em que ela aumenta; mas o dom de sabedoria tem com o amor de caridade uma relação particular. Em primeiro ugar porque atua por meio da caridade; “a causa do dom de sabedoria – diz S. Tomás – encontra-se na vontade e é a caridade” (IIª IIª, q. 45, a, 2, co.), por conseguinte, quanto mais uma alma ama a Deus, tanto mais é capaz de receber a moção deste dom. Além disso, o conhecimento saboroso de Deus que deriva do dom de sabedoria é poderosíssimo para aumentar a caridade. Como será possível não amarmos mais o Senhor depois de O termos saboreado? À medida que o dom de sabedoria invade uma alma, aumenta nela a caridade, aumentando também a sua força unitiva pela qual a alma adere cada vez mais a Deus.

Este dom conduz a uma oração ainda mais profunda do que aquela em que intervém só o dom de entendimento: a alma sente-se verdadeiramente unida ao Senhor, saboreia-O nesta união – não de uma forma sensível, mas espiritual – e tem dEle a intuição mais íntima que é possível neste mundo. A alma sai desta oração inflamada de amor, amor que demonstra sobretudo na perfeita conformidade da sua vontade com a de Deus em todas as contingências da vida; sai desta oração tão cheia de Deus que, voltando às suas ocupações ordinárias, tudo vê e considera em relação a Deus. Deste modo, o dom de sabedoria estende a sua influência mesmo à vida prática e ensina-nos a julgar todas as coisas à luz de Deus.

Para sermos suscetíveis de captar as moções do dom de sabedoria – o mais sublime dos dons – temos que dispor docemente o nosso coração para a plenitude do amor e aplicar-nos, ao mesmo tempo, a adquirir uma profunda humildade, pois, como disse Jesus, “estas coisas estão escondidas aos sábios e prudentes segundo o mundo, e são reveladas aos pequenos” (cfr. Mt. 11, 25).

“Só têm a sabedoria de Deus os que, como crianças ignorantes, renunciando ao seu saber, caminham com amor no Seu serviço” (J.C. S. I, 4, 5).

Colóquio – “Descei, ó Espírito divino, pousai sobre a minha cabeça e invadi o meu coração; dissipai todas as trevas que a loucura do mundo chama sabedoria: concedei-me, pelo contrário, o dom de sabedoria celestial. Só Vós me podeis ensinar a desprezar o que o mundo ama, o que deleita e lisonjeia; só Vós me podeis ensinar a saborear as coisas de Deus, a virtude, a piedade, o amor que viestes acender na terra, a fim de que o mundo nele se inflame” (Autor anônimo).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico

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