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O Liberalismo é pecado

O Liberalismo é Pecado – 25. Confirma-se o que ultimamente dissemos com um mui consciencioso artigo da “Civiltà Cattolica”

LIBERALISMO É PECADO

D. Félix Sardà y Salvany

25.CONFIRMA-SE O QUE ULTIMAMENTE DISSEMOS COM UM MUI CONSCIENCIOSO ARTIFO DA “CIVILTÀ CATTOLICA”

Duvidamos se encontre saída a este argumento, porque a não têm. Mas como a matéria é transcendentalíssima e tem sido nestes últimos tempos objeto de acalorada controvérsia, sendo além disso escassa e de pouco peso a nossa autoridade para falar definitivamente sobre ela,  permitam-nos os nossos leitores que aduzamos aqui, a favor de nossas doutrinas, um voto de mais reconhecida, para não dizer incontável e incontestada, competência.

É da Civiltà Cattolica, o primeiro periódico religioso do mundo, senão oficial em sua redação ao menos em sua origem, pois foi fundado por Breve especial de Pio IX, e por ele confiado aos PP. da Companhia de Jesus.

Este periódico, que já a sério, já em sátira, não deixa sossegar com seus artigos os liberais do seu país, viu-se várias vezes repreendido de falta de caridade por esses mesmos liberais.

Para responder a estas farisaicas homilias sobre a moderação e caridade, publicou a dita Civiltá um artigo engraçadíssimo e chistoso a par de profundamente filosófico.

Vamos reproduzi-lo aqui para consolação de nossos liberais e desenganos de tantos pobres católicos influenciados de Liberalismo, que fazem côro com eles e se escandalizam a tidas as horas da nossa anatematizada falta de moderação.

Intitula-se o artigo: – “UM POUCO DE CARIDADE”, e é como se segue:

“Diz De Maistre que a Igreja e os Papas nunca pediram para a sua causa mais do que verdade e justiça.  Muito contrário dos liberais, os quais por um certo salutar horror, que naturalmente devem ter à verdade e muito mais à justiça, não fazem senão pedir-nos caridade e todas as horas.

“Há cerca de doze anos que por nossa pare estamos assistindo a este curioso espetáculo que nos dão os liberais italianos, que não cessam um momento de mendigar lacrimosa, fastidiosa e desavergonhadamente a nossa caridade, suplicando-nos, de braços cruzados, em prosa e em verso, em folhetos e em periódicos, em cartas públicas e privadas, anônimas e pseudônimas direta e indiretamente, que, por Deus! Tenhamos para com eles um pouco de caridade; que não mais nos entretenhamos em examinar tanto por miúdo e sob tantas feições, os seus elevados escritos; que não sejamos tão pertinazes em trazer a público suas gloriosas façanhas; que façamos vista grossa e ouvidos surdos a respeito de seus descuidos, solecismos, mentiras, calúnias e mistificações; que, numa análise, caridade é caridade; e que a não tenham os liberais, está muito bem e compreende-se perfeitamente; porém que a não usem escritores, como os da Civiltà Cattolica, isso é outra coisa.

“Justo castigo de Deus é que os liberais, que tanto aborreceram sempre a mendicidade pública, a ponto de a proibirem em muitos países sob pena de cárcere se vejam agora forçados a fazer-se públicos pedintes, mendigando de porta em porta, como pícaros reacionários… um pouco de caridade.

“Com esta edificante conversão ao amor da mendicância imitam os liberais aquela outra não menos célebre e edificante conversão de um rico avarento à virtude da esmola; i qual havendo assistindo uma vez ao sermão e ouvindo uma exortação mui fervorosa à prática dela, de tal sorte se comoveu, que chegou a ter-se por verdadeiramente convertido. E na verdade, havia,gostado sobremaneira do sermão, tanto, que, (dizia ao sair do templo) é impossível que esses bons cristãos que o ouviram não me dêem de vez em quando e de hoje em diante alguma coisa por caridade.

“Assim os nossos sempre estupendos liberalaços, depois de haverem demonstrados por feitos e escritos (cada um segundo as suas posses) que têm à caridade o mesmo amor que o diabo à água benta, quando depois, ouvindo falar em caridade, voltam a si e se recordam que há no mundo algo que se chama virtude da caridade e que esta pode em certas ocasiões ser-lhes de algum proveito, mostram-se de repente furiosamente enamorados dela e vão pedi-la de voz em grita ao Papa, aos Bispos, ao clero, aos frades, aos jornalistas, a todos… até aos redatores da Civiltà.

“E é preciso ouvir-lhes as belas razões que sabem aduzir em seu favor! A acredita-los não falam por interesse próprio, santo Deus! Senão por interesse da nossa religião santíssima, que eles têm no íntimo do coração e que não pode deixar de sair muito prejudicada do modo tão pouco caritativo com que nós a defendemos. Falam por interesse dos mesmos reacionários, e especialmente (quem o acreditará) de nós mesmos, os reatores da Civiltà Cattolica.

“Que necessidade tendes, com efeito, (assim dizem em tom confidencial) de meter-vos nessas pelejas? Não tendes bastantes hostilidades que arrostar? Sede tolerantes e sê-lo-ão convosco os vossos adversários. Que ganhais com esse ruim ofício de cães ululando, sempre ao ladrão? E se afinal saís batidos e esmagados, a quem dareis a culpa, senão a vós mesmos, que o andais procurando, ao que parece, com o maior empenho.

“Sábia e desinteressada maneira de discorrer, que só tem o defeito de ser muito parecida à que na novela I promessispossi recomendava a Renzo Tramaglino, o comissário de polícia, quando ao bem queria leva-lo ao cárcere, porque presumia que, ao mal, o mancebo se não deixaria conduzir. “Creia-me (dizia a Renzo), creia-me, que sou prático nestas coisas. Caminhe devagarinho e a direito, sem andar de um lado para o outro, sem que alguém repare; assim ninguém fará caso, ninguém advertirá no que se passa, e conservará, portanto, a sua reputação.”

“Mas aqui observa Manzoni que “de tão galantes razões Renzo não acreditava em nenhuma, nem tampouco que o comissário o estimasse, ou tomasse muito a peito sua honra e reputação, ou tivesse verdadeira intenção de favorece-lo. De sorte que tais exortações não serviram mais do que confirma-lo no desígnio já preconcebido de portar-se inteiramente ao contrário.”

“Desígnio que (falando com franqueza) estamos mui tentados a formar nós; porque não podemos à fé, persuadir-nos de que os liberais se importem pouco ou muito com o muito ou pouco dano que possamos causar à religião, ou que tenham grande cuidado pelo que realmente possa convir-nos. Cremos ao contrário, que se os liberais julgassem verdadeiramente, que o nosso modo de escrever prejudicava a religião ou pelo menos a nós, não somente se guardariam de nos advertir, senão que antes nos alentariam muito com aplausos.

“Afigura-se-nos que o fazerem-se zelosos e rogar-nos que modifiquemos o nosso estilo, é sinal claro de que nada perde com isso, por culpa nossa, a Religião, e que os nossos escritos tem algum leitores, o que para um escritor não deixa de ser sempre de alguma consolação.

“Pelo que diz respeito a nossos interesses e ao princípio utilitário, visto que os liberais hão sido com justa razão tidos sempre como grandes mestres neste ponto, e tem fama de haver aplicado sempre este princípio muito mais em proveito próprio do que em nosso favor hajam de permitir-nos crer, como temos crido até hoje, que em tudo isto que se ventila sobre o nosso modo de escrever contra eles, não somos nós os que ficamos mais prejudicados, nem tampouco a religião.

“Pelo que, havendo manifestado esta nossa pobre opinião, e suposto que as razões poderíamos chamar intrínsecas e independentes do princípio utilitário, que alegam os liberais em favor próprio e contra o nosso modo de escrever, tem sido já muitas vezes refutadas nas passadas séries da Civiltà Cattolica, só nos restaria despedir com bons modos esses mendigos de novo cunho, advertindo-os de fazer daqui em diante o seu ofício de advogados em causa própria, melhor do que o faziam com Renzo aqueles mencionados esbirros do século XVII. Mas porque alguns não deixam ainda de continuar mendigando, e recentemente publicaram em Perusa um opúsculo com o título: “Que é chamado partido católico?” em que nada mais se faz do que mendigar da Civiltà Cattolica um pouco de caridade; não será inútil repetir mais uma vez no princípio desta 5ª série as mesmas antigas respostas contra as mesmas antigas objeções. E também será isto grande obra de caridade: não, certamente, aquela que nos pedem os liberais, senão outra que tem também o seu mérito, qual é a de escutar-nos com paciência, não sabemos já se pela centésima vez.

“Não merece menos o tom humilde e queixoso com que de algum tempo a esta parte nos andam pedindo um pouco de caridade.”

O Liberalismo é Pecado – Pe. Félix Sardá y Salvany, 1949.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico