Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Santa Clara de Assis com a Santíssima Eucaristia

Santa Clara

Santa Clara († 1253)

Santa Clara nasceu em Assis, na Itália, filha de pais ricos e piedosos. O nome de Clara foi-lhe dado em virtude de uma voz misteriosa, que a mãe Hortulana ouviu, quando, antes de dar à luz a filha, fazia fervorosas ora­ções diante de um crucifixo. “Nada temas! – disse aquela voz – o fruto do teu ventre será um grande lume, que iluminará o mundo todo.” Desde pequena, Clara era em tudo bem diferente das companheiras. Quando meninas dessa idade costumam achar agrado nos brinquedos e bem cedo revelam também qualidades pouco apreciáveis, Clara fazia grande exceção da regra. O seu prazer era rezar, fazer caridade e penitência. Aborrecia a vaidade e as exibições, e tinha aversão declarada aos divertimentos profanos.

Vivia naquele tempo o grande Patriarca de Assis, São Francisco. A este se dirigiu Santa Clara, comunicando-lhe o grande desejo que tinha, de abandonar o mundo, fazer o voto de castidade e levar uma vida da mais perfeita pobreza. São Francisco reconheceu em Clara uma eleita de Deus e animou-a a persistir nas piedosas aspirações. Depois de ter examinado e sujeito a duras provas o espírito da jovem, aconselhou-lhe que abandonasse a casa paterna e tomasse o hábito de religiosa. Foi num domingo de Ramos que Clara executou este plano, dirigindo-se à Igreja da Porciúncula, onde S. Francisco lhe cortou o cabelo e lhe deu o hábito de penitência. Clara contava apenas 18 anos, quando disse adeus ao mundo e entrou para o convento das Beneditinas em Assis.

O procedimento estranho de Clara provocou os mais veementes protestos dos pais e parentes, que tudo tentaram, para tirar a jovem do convento. Clara opôs-lhes resistência enérgica. Indo à Igreja segurou-se ao altar, e com a outra mão mostrou aos pais a cabeleira cortada e disse-lhes: “Deveis saber que não quero outro esposo, senão a Jesus Cristo. A este escolhi e não mais o deixarei”. Tais palavras causaram pasmo aos parentes, que não podiam deixar de manifestar­-se admirados de tão provecta virtude. Clara tinha uma irmã mais moça, de nome Inês. Esta convidada e animada por Clara, poucos dias depois imitou o exemplo da irmã e, abandonando a casa paterna, entrou para o convento onde estava Clara. Com este passo da jovem não se conformaram os parentes que, em número de doze, a arrancaram dos braços de Clara, para levá-la para casa. Quando, porém, chegaram à portaria do convento e a viva força a quiseram arrebentar, Inês gritou em alta voz: “Vem em meu socorro, minha irmã e não permitas que me tirem dos braços do meu Senhor Jesus Cristo e me privem de tua amável companhia”. Pela forte resistência saiu vitoriosa e S. Francisco deu-lhe o hábito de religiosa. lnês contava apenas quatorze anos.

S. Francisco adquiriu a Igreja de S. Damião e uma casa contigua para as novas Religiosas, às quais se associaram outras companheiras. Sob a direção de Clara, formaram estas a primeira comunidade, que, desenvolvendo-se cada vez mais, tomou a forma de nova Ordem religiosa. Esta Ordem, de origem tão humilde, tornou-se celebérrima na Igreja Católica, a que deu muitas Santas e muito trabalhou e trabalha para o engrandecimento do reino de Cristo sobre a terra. Obedecendo à ordem de S. Francisco, Clara aceitou o cargo de superiora, cargo que exerceu durante quarenta e dois anos. Clara deu à Ordem regras severas, sobre a pobreza. Uma oferta de bens imóveis, que o Papa fez à Ordem, Clara respeitosamente a recusou. Não só na observação da pobreza, como também na prática de outras virtudes, Clara era modelo exemplaríssimo para suas filhas espirituais. Grande lhe foi a satisfação quando da própria mãe e de outras parentas recebeu o pedido de admissão na Ordem. Além destas, entraram três fidalgas da casa Ubaldini na nova Ordem das Clarissas. Julgaram maior honra associar-se à pobreza de Clara do que viver no meio dos prazeres de um mundo enganador.

Na prática da penitência e mortificação Clara era de tanto rigor, que seu exemplo podia servir mais de admiração e espanto, do que de imitação. O próprio S. Francisco aconselhou-lhe que usasse de moderação, porque do modo por que vivia e martirizava o corpo, era de recear que não pudesse ter longa vida.

Severíssima para consigo, era inexcedível na caridade para com o próximo. O maior prazer de Clara era servir os enfermos.

Uma das virtudes que se lhe observava, era o grande amor ao SS. Sacramento. Horas inteiras do dia e da noite passava nos degraus do altar. O SS. Sacramento era seu refúgio, em todos os perigos e dificuldades.

Aconteceu que a cidade de Assis fosse assediada pelos Sarracenos que, a serviço do Imperador Frederico II inquietavam a Itália. Os guerreiros tinham já galgado o muro, justamente onde estava o convento das Clarissas. A superiora enferma guardava o jeito. Tendo notícia da imediata invasão dos bárbaros no convento, Clara levantou-se, e, ajudada pelas filhas, dirigiu-se ao altar do SS. Sacramento, tomou nas mãos a custódia com a sagrada Hóstia e assim munida de Deus Nosso Senhor, dirigiu-lhe o seguinte apelo em voz alta: “Quereis, Senhor, entregar aos infiéis estas vossas servas indefesas, que nutri com vosso amor? Vinde em socorro de vossas servas, pois não as posso proteger”. Ditas estas palavras, ouviu-se distintamente uma voz dizer: “Serei vossa proteção hoje e sempre”. Os fatos provaram que não se tratava de coisa imaginária. Dos Sarracenos apoderou-se um pânico inexplicável grande parte deles fugiram às pressas; alguns, que já haviam galgado em cima do muro, caíram para traz. Foi visivelmente a devoção de Santa Clara ao Santíssimo Sacramento que salvara o convento e a cidade, do assalto do inimigo. Outros muitos milagres fez Deus por intermédio de sua serva, que a estreiteza de espaço não nos permite narrar.

Clara contava sessenta anos, dos quais passara vinte e oito sofrendo graves enfermidades. Por maiores que lhe fossem as dores, nenhuma queixa lhe saia da boca. Na meditação da sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor achava o maior alívio. “Como passa depressa a noite, – dizia – ocupando-me com a Paixão de Nosso Senhor”. Em outra ocasião disse: “Homem haverá que se queixe, vendo a Jesus derramar todo seu sangue na Cruz?” Sentindo a proximidade da morte, recebeu os Santos Sacramentos e teve a satisfação de receber a visita do Papa Inocêncio IV, que lhe concedeu uma indulgência plenária. Quase agonizante, disse ainda estas palavras: “Nada temas, minha alma; tens boa companhia na tua passagem para a eternidade. Vai em paz, porque aquele que te criou, te santificou, te guardou como a mãe ao filho e te amou com grande ternura. Vós, porém, meu Senhor e meu Criador, sêde louvado e bendito”. Em visão lhe apareceram muitas virgens, entre as quais uma de extraordinária beleza, que lhe vieram ao encontro, para leva-la ao céu. Santa Clara morreu em 12 de Agosto de 1253, mais em consequência do amor divino, do que da doença que a martirizava. Foi em atenção aos grandes e numerosos milagres que se lhe observaram no túmulo, que o Papa Alexandre IV, dois anos depois, a canonizou.

REFLEXÕES

“Haverá quem se queixe, vendo a Jesus Cristo na cruz, coberto de sangue? ” A meditação da sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo dava força à Santa Clara, para sofrer com paciência as dores da doença. A mesma meditação produziria em ti o mesmo efeito, si em teus sofrimentos te quisesses lembrar das dores que Jesus Cristo sofreu por teu amor. Vendo Jesus na cruz, a nada se reduz o que te faz sofrer. Jesus era inocente e sofreu mais que um homem jamais sofreu e poderá sofrer. Tu, que não és inocente, nada queres sofrer? Jesus aceitou a cruz e a dor; e da boca não lhe saiu uma palavra de queixa. Não deverás imitar também este exemplo de teu Salvador? Considerações desta espécie, nos dias do sofrimento, fazem milagres. “Quem se lembra da sagrada Paixão de Jesus Cristo, sofre tudo com paciência, por mais doloroso que seja”, diz S. Gregório.

Santa Clara teve uma grande devoção ao Santíssimo Sacramento. Aos pés do altar procurava e achava alivio, consolação e auxilio. Se tivesses devoção igual a Jesus Eucarístico, os mesmos efeitos poderias experimentar. Se Nosso Senhor andasse entre nós, como andou na terra da Palestina, cheio de confiança a ele te dirigirias, certo de alcançar-lhe da bondade o que desejasses. Que diz a nossa doutrina sobre o Santíssimo Sacramento? Não é real a presença de Jesus Cristo na Hóstia consagrada? Pois se é esta a tua fé, porque te portas como se não acreditasses nesta verdade? Se está presente no Santíssimo Sacramento, então é o mesmo que fez ressuscitar o mancebo de Naim, a filha de Jairo e Lázaro. Se Jesus está no Santíssimo Sacramento, então entre Ele e Aquele que fez o milagre da multiplicação dos pães, não há diferença nenhuma. Não deve, portanto, ser outra a tua fé. Porque não procuras Jesus no Santíssimo Sacramento, quando tua alma se vê atribulada, quando a dor te oprime o coração? Se aos homens abres o coração e em suas palavras procuras consolo e conforto, porque não fazes a Jesus tuas confidências? Procura o Santíssimo Sacramento, aviva tua fé neste mistério da nossa Religião e, como Santa Clara, encontrarás quem te console, proteja e defenda.

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico