Santo André Corsino

Santo André Corsino († 1373)

Fatos como os que referem os santos Livros, de Deus ter ouvido as orações de piedosos esposos e lhes ter dado prole depois de longo espaço de anos passados em aparente esterilidade, têm se repetido na vida dos Santos, como prova a de Santo André Corsino. Da nobre família dos Corsini, em Florença, nasceu André no dia do Apóstolo do mesmo nome, coincidência que determinou os pais a darem este nome ao primogênito e muito desejado filho.

Antes de dar à luz André, sua mãe teve um sonho singular, que bastante a impressionou. Viu que seu fruto era um lobo, o qual, correndo para a Igreja dos Carmelitas, à entrada da mesma se transformou em cordeiro. A significação deste sonho muito mais tarde se descobriu. André não foi o filho, como os pais o tinham desejado; muito pelo contrário. Desprezando ordens, conselhos e ameaças dos seus progenitores, muitos desgostos lhes causavam. Certa vez, em ocasião de grande mágoa, sua mãe disse-lhe: “Meu filho, estou vendo que és o lobo que me foi mostrado em sonho. A primeira parte deste sonho está realizada. Quando chegará a segunda, que te me mostre transformado em cordeiro?” Muito impressionado com estas palavras da mãe, André pediu-lhe que lh’as explicasse. A mãe contou-lhe o sonho e disse-lhe ainda, que tinha feito o voto a Deus e Maria Santíssima de consagrar seu filho a seu santo serviço, voto este, cujo cumprimento não só dela dependia.

André, muito comovido com aquilo que ouvira, caiu aos pés de sua mãe, chorou amargamente e prometeu emenda de sua vida. Foi à Igreja dos Carmelitas, pediu admissão na Ordem, fez-se religioso da Ordem do Carmo e começou uma nova vida. Tentações as mais terríveis e impertinentes, que demônio, carne e mundo lhe causaram, com a graça de Deus corajosamente as venceu e ficou perseverante na sua santa vocação. Após o noviciado, seus superiores mandaram-no para Paris onde, com muito brilho, concluiu os estudos. Quando soube que seus parentes lhe preparavam carinhosa e festiva recepção em Florença, onde devia celebrar sua primeira Missa, foi a um convento bem distante de sua cidade natal e celebrou a Missa em todo o recolhimento.

Já naquele tempo notavam-se causas extraordinárias na sua vida religiosa. A um primo seu, João Corsini, livrou de um tumor maligno na garganta, impondo-lhe as mãos, e fez com que este seu parente se convertesse a Deus, depois de ter levado uma vida bem desregrada.

Convidado para batizar o filhinho dum amigo, durante a santa cerimônia começou a chorar amargamente. Aos que lhe perguntaram o motivo de sua comoção, disse: “Choro, porque esta criança nasceu para a desgraça de sua família”. E assim aconteceu. O infeliz filho morreu como traidor da pátria e todos os seus parentes foram degradados.

Poucos anos depois foi nomeado superior do convento em Florença e nesta qualidade, principalmente como pregador, trabalhava com muito bom resultado. Quando morreu o Bispo de Fiesoli, o cabido daquela diocese elegeu André para sucessor. Este, porém, sabendo o resultado da eleição, retirou-se a uma cartuxa bem distante e baldadas foram as diligências para o encontrar. Houve, então, segunda sessão dos eleitos para procederem a uma nova eleição. Não chegaram a realiza-la, pois uma criança de três anos exclamou em alta voz: “Deus quer, que André seja o nosso Bispo. Ele está na cartuxa em oração”. Uma comissão que para lá se dirigiu, achou o Santo, como a voz infantil tinha afirmado. André, por sua vez, teve um aviso do céu para aceitar o novo cargo.

Sendo Bispo, em nada modificou sua vida a não ser nos exercícios de penitência. Sabendo que Deus exige do Bispo maior santidade que dos fiéis e do clero, André não se poupou para satisfazer a esta exigência. O uso do cilício era constante. A recitação do breviário acrescentou a dos salmos penitenciais e uma dura flagelação. Sua mesa era pobre e o jejum frequente hóspede de sua casa. Grande parte da noite passava-a em oração e meditação e para o repouso servia-lhe uma cama dura e incômoda. O trabalho diurno era dedicado à administração da diocese, à instrução religiosa da mocidade e às visitas aos doentes. Conversas com pessoas de diferente sexo eram limitadíssimas; aduladores e caluniadores os detestavam ele, e grande amor votava aos pobres. Como o Papa São Gregório, possuía um canhenho com os nomes e as necessidades dos indigentes. A imitação do divino Mestre, lavava cada quarta-feira os pés de alguns pobres. Apresentando-se uma vez um deles com os pés cheios de úlceras, não quis que o Bispo lh’os lavasse. André, porém, insistiu para que não fizesse exceção. Não só lavou-lhe os pés, como os deixou inteiramente curados.

Não podia o Bispo deixar de ser alvo das simpatias dos diocesanos. Todos o amavam como um verdadeiro pai e o veneravam como um Santo. Desta maneira era muito grande a influência que André exercia sobre os espíritos dos seus súbditos. Muitos se convertiam, outros faziam as pazes com os seus inimigos. Em Bologna existia grande divergência entre a aristocracia e o povo. Todas as tentativas da parte do clero e de pessoas importantes para conciliar os partidos tiveram resultado negativo. Receando piores consequências, o Papa Urbano V incumbiu ao Bispo de Fiesoli, a missão de restabelecer a paz entre as duas partes inimigas. O que parecia coisa impossível, André o conseguiu e seu nome estava na boca de todos, que o bendiziam como anjo da paz.

No ano de 1372, na noite de Natal, teve um desmaio. Uma voz do céu anunciou-lhe a morte para o dia 6 de Janeiro. No dia seguinte sobreveio-lhe uma febre que não mais o deixou. Preparando-se para sua viagem à eternidade, recebeu com muita devoção os santos sacramentos. Sua última palavra foi: “Agora deixai, Senhor, partir em paz o vosso servo, segundo a vossa palavra.” – Seu corpo descansa na Igreja dos Carmelitas em Florença. O povo, em vez de rezar pelo descanso eterno da alma de seu Bispo, dirigia orações ao que tinha em reputação de Santo. Urbano VIII canonizou-o em 1639, transferindo sua festa para 4 de Fevereiro. Santo André Corsini é o padroeiro da cidade de Florença.

REFLEXÕES

1. Santo André Corsino, não achando tempo necessário para rezar, tomava as noites, passando-as em colóquios com Deus. O mundo chama isto extravagância, senão mania religiosa. Mania a seu ver não é passar as noites em jogo, nos bailes e divertimentos, e perder o tempo com futilidades e na ociosidade. O conceito que Deus fará dos Santos e dos filhos do mundo, não poderá ser duvidoso. “Meu Deus e Senhor – exclamava S. Lourenço Justiniano, ­- quanto tempo de minha vida passou sem eu ter tirado proveito! Que direi no dia do juízo! Como poderei levantar os meus olhos a vós, Senhor da minha vida, quando exigirdes conta dos dias de minha existência! “Assim falava um Santo, seriamente preocupado com a responsabilidade que tinha perante Deus do uso que fez de seu tempo.

– Que uso fazes do tempo, que Deus te deu? Lembra-te que deves dar conta a Deus da tua administração.

2. Achando-se doente, Santo André, recusou os remédios que se lhe ofereciam, para diminuir o sofrimento. Deus não exige de ti este sacrifício. O uso de remédios é lícito. Lícito é o recurso a medicamentos, que trazem alivio na dor. É inegável, porém, que Deus nos manda doenças e dores para beneficiar a alma. Para muitos uma doença é um bem extraordinário. Nos seus sofrimentos lembram-se de Deus e fazem penitência. “A doença do corpo é saúde para a alma”, diz S. Gregório. Muitos há, diz Santo Agostinho, que, achando-se doentes, não pensam em impurezas, enquanto que, gozando saúde, são escravos da luxúria.”

– Se Deus te mandar uma doença, aceita humildemente, e entrega-te cegamente a sua Providência.

3. Antes de dar à luz seu filho André, a mãe do Santo teve um sonho singular. Sonhos há que têm por autores os anjos ou o próprio Deus, são benefícios, e contribuem extraordinariamente para a santificação do homem como provam numerosos fatos do antigo e novo Testamento. Sonhos diabólicos perturbam, e têm por fim, afastar o homem do bem e incitá-lo ao pecado. Muitos são os sonhos, e em sua quase totalidade, simples ativações do sistema nervoso, e como tais nenhuma importância tem. Há pessoas, e não poucas, que atribuem aos sonhos uma influência poderosa sobre a vida, e com muito empenho procuram obter sua explicação.

Esta pratica é supersticiosa e pecado. Uma palavra do Espírito Santo não te deixará em dúvida sobre o valor dos sonhos; ele diz: “Não ponhas neles o teu coração, porque os sonhos tem feito extraviar a muitos, que caíram, por terem posto neles a sua confiança.” (Eccl. 34. 6. 7.)

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume I, 1928.

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