São Filipe Benício († 1285)
São Filipe Benício era descendente da nobre família de Florença. À mãe, senhora muito piedosa, foi revelado em sonho a futura santidade do filho. Isto concorreu para que se esmerasse ainda mais na educação que deu ao mesmo. Filipe, já tendo concluído seus estudos e estando, porém, sem saber a que profissão devia dedicar-se, foi assistir à Santa Missa, na quinta-feira depois da Páscoa, numa capela que os Servitas possuíam, fora da cidade. À leitura da Epístola, ouviu as palavras que o Espírito Santo dissera ao diácono Filipe: “vai e aproxima-te do carro”. Arrebatado em Espírito, parecia-lhe estar no meio dum vasto campo, onde não se viam senão altas montanhas e penhascos inacessíveis. Em redor havia só espinhos, armadilhas, imundícies e animais nojentos. Tão impressionado ficou com esta visão que, guiado ainda pelo instinto de conservação, gritou por socorro. Levantando os olhos, viu no alto Maria Santíssima, sentada num carro e rodeada de muitos Anjos e Santos, tendo nas mãos o hábito igual àquele que os Servitas usam. A mãe de Deus, dirigindo-se a ele disse-lhe as mesmas palavras da Epístola: “Filipe, vai e aproxima-te deste carro”.
Passada a visão, voltou a si. Dissiparam-se lhe as dúvidas sobre a vocação e logo no dia seguinte, pediu admissão, como irmão leigo, na Ordem dos Servitas. Foi aceito e desde os primeiros dias da entrada, deu a todos o exemplo de religioso perfeito, que, como virtude principal, cultivava a humildade. Ocultando cuidadosamente a nobre origem, a cultura intelectual, não teve em mira outra coisa senão imitar Jesus Cristo na humildade e no espírito de penitência.
Os trabalhos mais humildes eram os que mais procurava. Por mais pesado e fatigante que o trabalho fosse, Filipe entregava-se-lhe com toda a dedicação, tendo diante dos olhos o exemplo de Nosso Senhor, de S. José, dos maiores Santos do Antigo e do Novo Testamento, pois todos eram trabalhadores.
Filipe conhecia bem e praticava melhor a arte de ficar unido a Deus, quando as mãos estavam ocupadas em árduo labor. Virtude tão distinta não podia deixar de chamar sobre si a atenção dos confrades. Nem tão pouco podiam ficar desconhecidos seus conhecimentos científicos e grande preparo espiritual, e assim aconteceu que os superiores o tirassem das ocupações humildes e secundárias e o apresentassem como candidato ao sacerdócio e, mais tarde, o propusessem para o alto cargo de superior geral da Ordem. Com todo empenho Filipe se opôs a essa vontade dos confrades. Devendo, porém, aceder às insistências da Comunidade, toda a atenção se lhe dedicava à expansão da Ordem e propaganda da fé. Uma das primeiras ordens expedidas por ele, como superior-geral, foi a pregação do Evangelho na Scythia, para onde enviou alguns missionários. Ele mesmo, acompanhado por dois confrades, percorreu grande parte da Itália, pregando penitência aos pecadores, animando os católicos a prestarem obediência do Papa, e intensificando por toda parte a devoção a Nossa Senhora. Deus abancou-lhe visivelmente a missão e o nome de Filipe, como dum grande missionário, estava na boca de todos, clérigos e leigos.
Em Viterbo estavam reunidos em Conclave os Cardeais da Igreja. Vendo-se em grande dificuldade para eleger um Papa, depois de muitos escrutínios, deram os votos a Filipe. Este, tendo notícia da eleição, fugiu para as montanhas desertas de Thuniati, onde permaneceu em seguro esconderijo até que soube que os Cardeais tinham desistido do seu nome e eleito outro Papa.
Filipe guardou durante toda a vida a inocência batismal e para isto conseguir, sujeitou o corpo às mais duras mortificações. Homem de oração, fossem quais fossem as ocupações, tinha o espírito constantemente unido a Deus. Trabalho nenhum começava sem que invocasse primeiro o auxílio de Deus. A caridade para com Deus e o próximo era o único motivo de suas continuas e penosíssimas viagens.
De todas as devoções, a que mais cultivava era a de Nossa Senhora. Fôra convite de Maria Santíssima que tomara o hábito dos Servitas e manifestava a gratidão para com a divina Mãe, fazendo-se Apóstolo do seu culto. Em todas as práticas lhe exaltava o santo Nome e animava os fiéis a porem toda a confiança em Maria Santíssima e a imitarem-lhe as virtudes.
Longos anos tinha Filipe dedicado à vida missionária, tão cheia de trabalhos, sacrifícios e responsabilidades e só a abandonou, quando sentiu faltarem-lhe as forças e apresentarem-se lhe os primeiros indícios do enfraquecimento do organismo. Recolhido ao convento de Todi, ali começou a preparação para a morte. Na festa da Anunciação de Nossa Senhora fez o último sermão, com um entusiasmo tal, que causou admiração aos ouvintes. Quando desceu do púlpito, sentiu-se levemente agitado pela febre. Embora os confrades não ligassem muita importância a esta circunstância, Filipe tomou-a como preparação da morte, para a qual começou logo a se preparar meticulosamente. Com uma devoção que a todas edificou, recebeu os santos Sacramentos. Terminadas as cerimônias sacramentais, rezou os salmos penitenciais e a Ladainha de Todos os Santos. Quando chegaram à invocação: “Nós pecadores, ouvi-nos, Senhor”, o doente caiu em êxtase, perdendo o uso dos sentidos de tal forma, que todos o julgavam morto. Nesse estado permaneceu durante três horas. Foi então que um dos confrades lhe falou alto ao ouvido, o que o fez voltar a si. Parecia então como se acordasse de um profundo sono e contou que, durante todo o tempo do arrebatamento, teve uma luta horrível com o demônio que, objurgando-lhe os pecados, procurava por todos os meios leva-lo a desesperar da misericórdia divina. No auge da tentação, apareceu no meio a Santíssima Virgem, à cuja aparição o espírito infernal o deixou. Com tanta comoção Filipe contou este encontro com o demônio, que a todos impressionou profundamente. Pediu que lhe dessem seu livro – assim chamava a imagem do Crucificado. Estreitou-a fortemente contra o peito e entoou com entusiasmo o canto de Zacarias, acrescentando-lhe as palavras: “Em vós, meu Deus, confiei; em vossas mãos recomendo meu espírito”. Mais um olhar cheio de fé dirigiu ao Senhor Crucificado e a alma evolou-se lhe, em demanda dos páramos celestiais. A biografia de S. Filipe Benício está repleta de milagres, que Deus se dignou de fazer por intermédio de seu santo servo.
S. Filipe foi canonizado por Clemente X e pelo mesmo Papa fixada a festa para o dia 23 de Agosto.
REFLEXÕES
A vida de Filipe Benício ensina-nos o bom uso do tempo, pelo trabalho honesto e assíduo. Embora fosse de família nobre, não se eximia dos serviços, nem dos mais pesados da Comunidade. Em tudo procurava só a glória de Deus. Tendo as mãos no trabalho, o coração estava junto de Deus e satisfazia plenamente as ordens do superiores.
A operosidade é uma qualidade que deve distinguir todo cristão. Um bom cristão é sempre um cumpridor do dever e bom trabalhador. A ociosidade, a preguiça é incompatível com o espírito de Cristo e; mãe de todos os vícios. O preguiçoso não dá a Deus a honra que lhe deve e a cada instante ofende os interesses do próximo.
O preguiçoso é mau cristão, mau cidadão e mau amigo. Há cristãos que ociosos não são e se queixam de que lhes falta o tempo necessário para ir à igreja e para tratar da alma e da salvação eterna. Sempre ocupados, não se ocupam como e com o que deviam. Perdem o tempo com ninharias e esquecem-se dos trabalhos de obrigação. Estes não correspondem à vontade de Deus, que quer fidelidade também nas coisas pequenas. O céu é prometido ao servo fiel, ao trabalhador dedicado ao cumpridor dos deveres.
Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.
Última atualização do artigo em 17 de outubro de 2026 por Arsenal Católico