Dia 1
Morreu Jesus! Ó meu Deus, e quem morreu? ah! morreu o autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, tu foste a admiração do céu e da natureza. Morrer um Deus por suas criaturas! Caridade infinita! Sacrificar-se Deus, sacrificar Suas delícias, Sua honra, Seu Sangue, Sua vida! por quem? por criaturas ingratas: e morrer num oceano de dores e desprezos para pagar as nossas dívidas!
O alma minha, ergue os olhos e repara nesse homem crucificado. Olha aquele cordeiro divino sacrificado já sobre aquele altar de dores; recorda que Ele é o Filho de Deus muito amado, e que morreu pelo amor que te dedicava. Repara que tem os braços estendidos para acolher-te, a cabeça inclinada para dar-te o ósculo de paz, o lado aberto para admitir-te em seu coração. Que dizes? achas que mereces ser amado por um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que teu Senhor diz desde a cruz: olha, filho, se há no mundo quem te haja amado mais que eu, que sou teu Deus. Ai, meu Deus e meu Redentor! Vós então morrestes, e morrestes com a morte mais infame e dolorosa; e, para que? para ganhar meu amor? Mas, que amor de pura criatura poderá jamais chegar a pagar o amor de seu Criador, que morreu por ela? Ó meu adorado Jesus! ó amor de minha alma, como seria possível que me esquecesse de Vós? e como poderia eu amar outra coisa senão a Vós, depois de Vos ver morrer de dor nessa cruz, para satisfazer por meus pecados e salvar-me? Como poderei ver-Vos morto e pendente desse madeiro e não amar-Vos com todas as minhas forças? Poderia eu pensar que foram as minhas culpas que Vos puseram nesse estado e não chorar sempre de Vos ter ofendido?
Dia 2
Ai, meu Deus! Se o mais vil de todos os homens tivesse padecido por mim o que padeceu Jesus Cristo; se eu visse um homem ferido com açoites, pregado numa cruz feito o escárnio dos homens para salvar minha vida, poderia eu lembrar-me dele, sem que o meu coração se enternecesse e se enchesse de amor? E se me apresentassem o retrato desse homem no ato de expirar naquele madeiro, poderia eu olhar para ele com olhos enxutos e dizer: Oh! este infeliz morreu tão atormentado por meu amor: se não me amasse tanto, teria ele morrido assim? Ai, de mim! quantos cristãos têm em sua habitação um crucifixo como se fosse uma jóia qualquer! Louvam seu feitio, a expressão da dor, mas pouco ou nenhuma impressão faz em seu coração, como se não fosse a imagem do Verbo encarnado, senão a dum homem estranho e desconhecido.
Ai, meu Jesus! não permitais que seja eu um deles! Lembrai-Vos que prometestes que, quando fosseis levantado da terra atrairíeis a Vós os corações. Eis aqui o meu, que enternecido à vista de Vossa Morte, não quer já resistir aos Vossos chamamentos: eia, levai-o à força. ao Vosso amor. Vós morrestes por mim, e eu não quero viver senão para Vós. Ó dores de Jesus! ó ignomínias de Jesus! ó morte de Jesus! ó amor de Jesus, ficai em meu coração; fique nele sempre vossa doce memória, para ferir-me continuamente e inflamar-me de amor!
Dia 3
O Pai Eterno, olhai a Jesus morto por mim, e pelos méritos deste Filho usai comigo de misericórdia. Ó minha alma, não desanimes pelos delitos cometidos contra Deus; este Pai é aquele mesmo que deu ao mundo esse seu Filho por nossa salvação, e esse Filho é Aquele mesmo que voluntariamente se ofereceu a satisfazer por nossos pecados. Ai, meu Jesus! já que Vós, para me alcançardes o perdão, não Vos perdoastes a Vós mesmo, olhai-me com aquele mesmo afeto com que me olhastes um dia, agonizando por mim na cruz; olhai-me, iluminai-me e perdoai-me especialmente a ingratidão com que procedi em minha vida passada, pensando tão pouco em Vossa Paixão e no amor que nela me mostrastes. Eu Vos dou graças pela luz que me dais, fazendo-me conhecer nestas Vossas chagas e rasgados membros, como por outras tantas janelas, o grande e singular afeto com que me amais.
Infeliz de mim, se depois de me haverdes comunicado estas luzes, eu deixasse de amar-Vos, ou amasse outra coisa fora de Vós. Morra eu, dir-Vos-ei com Vosso amante São Francisco de Assis, por amor de Vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó coração aberto de meu Redentor! ó morada feliz das almas amantes, não Vos dedigneis de recolher também a minha pobre alma.
Ó Maria, ó Mãe de dores! recomendai-me a esse Filho que está morto em vossos braços. Vede suas carnes despedaçadas, seu divino Sangue derramado por mim, e inferi daqui quão agradável será para Ele que lhe recomendeis minha salvação. Minha salvação consiste em amá-lo, e Vós me haveis de alcançar este amor. Alcançai-m’o, minha Mãe, mas um amor grande, um amor eterno. Assim seja.
Caminho Reto e Seguro Para Chegar ao Céu, Escrito por Santo Antônio Maria Claret, Arcebispo-Fundador dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, 1944.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico