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A Paixão do Senhor: Jorrou Sangue e Água - Está consumado
A Paixão do Senhor: Está consumado (Consummatum Est) - James Tissot - Domínio Público - Wikimedia

Reflexões Devotas sobre a Paixão de Cristo

Reflexões e Afetos Devotos sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que podem servir de leitura espiritual ou de matéria de piedosa meditação

Diz Santo Agostinho, que não há coisa mais útil para alcançar a salvação eterna, do que pensar cada dia. nos tormentos que sofreu Jesus Cristo por nosso amor. .Já antes escrevera Orígenes que não pode reinar o pecado naquela alma, que consi­dera frequentemente a morte de seu Sal­vador. Revelou também o Senhor a um solitário, que não havia exercício mais próprio para acender num coração a chama do amor divino, como meditar a Paixão de Nosso Redentor. Por isso dizia o P. Baltasar Alvarez, que a ignorância dos tesouros que temos em Jesus Cristo cheio de dores e trabalhos, é a ruína dos cristãos; o que o movia a dizer a seus penitentes, que não imaginassem ter feito alguma coisa, se não chegaram a ter domicílio fixo no Coração de Jesus Crucificado. As Chagas de Jesus Cristo, dizia São Boaventura, são flechas ardentes que ferem os corações mais duros, e que inflamam as almas mais geladas: Ó Chagas, exclamava ele, que feris os corações de pedra e acendeis as almas geladas!

Neste fundamento, escreveu sabiamente um douto (o P. Croisset sobre as Dom. Tom. 3) que nada nos descobre tanto os tesouros que estão encerrados na Paixão de Jesus Cristo, como a simples narração do que sofreu. A uma alma fiel basta-lhe para inflamar-se no amor de Deus considerar a relação que da Paixão fazem os sagrados Evangelistas, e ver com olhos cristãos tudo aquilo que Nosso Senhor padeceu nos três principais teatros de sua Paixão, isto é, no jardim das Oliveiras, na cidade de Jerusalém e no cimo do monte Calvário. São belas e boas tantas contemplações como sobre a Paixão fizeram ou escreveram os autores piedosos; mas é certo que impressiona mais a um cristão uma só palavra das sagradas Escrituras que mil contemplações ou revelações, que nos consta terem sido feitas a pessoas devotas; porque as mesmas Escrituras nos asseguram que tudo o que nestas está contido é certo com certeza de fé divina. Tendo isto em vista e em graça, e para consolação das almas amantes de Jesus Cristo, quis pôr em ordem e referir com toda singeleza, acrescentando apenas algumas breves reflexões e afetos, o que os sagrados Evangelistas escreveram, sobre a Paixão de Jesus Cristo; porque eles certamente nos proporcionaram matéria para meditar muitos anos, e para inflamar-nos ao mesmo tempo em santa caridade para nosso amabilíssimo Redentor.

Ah! meu Deus! como é possível que uma alma que tem fé, e considera as dores e ignomínias que Jesus Cristo sofreu por nós, não arda em amor por Jesus e não forme resoluções firmes de trabalhar seriamente em fazer-se santa, para não ser ingrata a um Deus tão amante? É mister ter fé; porque se a fé não no-lo assegurasse, quem jamais acreditaria o que um Deus fez por nosso amor? Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de escravo. (Phil. II, 7). Quem, vendo a Jesus nascido num presépio, acreditaria que é aquele mesmo, a quem adoram os Anjos no céu? Quem, ao vê-lo fugir do Egito ao livrar-se de Herodes, acreditaria que é Ele o Onipotente? Quem, ao vê-lo agonizar em Getsêmani com tanta tristeza, pensará que Ele é o felicíssimo? Vê-lo preso a uma coluna ou suspenso numa cruz, e crê-lo Senhor do universo!

Que pasmo nos causaria, se, por um impossível, víssemos um rei fazer-se um verme que se arrasta pela terra, e metido num lamaçal deste lugar desse leis, nomeasse ministros e governasse o reino! Ó fé santa, revela-nos quem é este homem que aparece desprezível como outro homem qualquer. O Verbo fez-se carne (Joan. 1-11). São João nos diz claramente, que é o Verbo eterno, o Unigênito de Deus. E, que vida levou este Homem-Deus na terra? i-la aqui, como a refere o profeta Isaías (Is. LIII. 2-3): Vimo-lo desprezado, feito o opróbrio dos homens, o homem das dores. Ele quis ser o homem das dores, não havendo um só instante em sua vida em que se visse livre delas: foi o homem das dores, e o homem dos desprezos, pois foi desprezado e maltratado, como se fosse o último e o mais vil de todos os homens. Um Deus preso pelos ministros da justiça como se fosse um malfeitor! Um Deus açoitado como se fosse um escravo! Um Deus tratado como rei de comédia! Um Deus que morre pregado a um lenho infame! Que impressão não devem fazer estes prodígios em quem acredita neles! E, que desejos deveriam infundir-nos de padecer por Jesus Cristo! Todas as Chagas do Redentor dizia São Francisco de Sales, são outras tantas bocas que nos ensinam o modo como havemos de padecer por Ele. Esta é a ciência dos Santos: sofrer constantemente por amor de Jesus Cristo; e se nós o fazemos assim, logo chegaremos a ser santos. E, que amor tão grande nascerá em nossas almas à vista das chamas que se acham no seio do Redentor! Ai! e que felicidade grande, poder ser abrasado no mesmo fogo em que se abrasa nosso Deus! e, que gozo estar unido a Deus com as cadeias do amor!

Como, então, é possível que haja tantos fiéis cristãos que olhem com indiferença a Jesus Cristo na Cruz? É certo que assistem na Semana Santa, à comemoração de sua morte, mas é sem nenhum sentimento de ternura nem de agradecimento, como se si recordasse alguma coisa fingida, ou como se fosse coisa que nem de longe nos importasse. Ignoram estes, por ventura, ou não acreditam no que os Evangelistas nos dizem da Paixão de Jesus Cristo? Respondo e digo que bem o sabem e acreditam, mas é que não cuidam de pensar nisso. Porque, aquele que acredita e pensa refletidamente nestas coisas, não pode deixar de inflamar-se em amor por um Deus que tanto padece e que chega a morrer por seu amor. A caridade de Cristo nos urge, escreveu o Apóstolo (II Cor. V. 14); o que significa que na Paixão de Jesus Cristo, não tanto devemos considerar as dores e desprezos que padeceu, como o amor com que padeceu; porque quis sofrê-los todos, não só para salvar-nos, que para isso lhe bastara uma prece, senão também para dar-nos a entender o grande afeto que nos tinha, e para destarte ganhar os nosso corações. Não há a menor dúvida: uma alma que tem presente este amor de Jesus Cristo, não pode deixar de amá-lo. A caridade de Cristo nos urge: a alma sente-se obrigada e atraída quase à força, a dedicar-lhe todo o seu afeto. Nem por outro fim morreu por todos nós Jesus Cristo, senão para que todos vivamos, não para nós, senão unicamente para este amante Redentor, que por nós sacrificou sua vida divina.

Oh! felizes vós, almas amantes, diz Isaías (Is. XII, 3), vós que meditais amiúde na Paixão do Senhor! tirareis água com gozo das fontes do Salvador; vós tirareis das felizes fontes destas suas chagas águas perenes de amor e de confiança. E, como poderá desconfiar jamais da minha divina misericórdia um pecador (se se arrepender de suas culpas, por maiores que tenham sido no passado), se puser a vista em Jesus crucificado, sabendo que o Eterno Pai pôs todos os nossos pecados sobre este seu amado Filho, para que satisfizesse por nós? E pôs o Senhor sobre ele as iniquidades de todos nós (Is. LIII, 6). Como podemos temer, acrescenta São Paulo, que Deus nos negue alguma graça, depois de nos ter dado seu próprio Filho? Quem a seu próprio Filho não perdoou, mas antes o entregou à morte por todos nós, como, depois de nos ter dado este Filho tão amado, deixará de dar-nos qualquer outra coisa que lhe pedirmos? (Rom. VIII, 32).

Caminho Reto e Seguro Para Chegar ao Céu, Escrito por Santo Antônio Maria Claret, Arcebispo-Fundador dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, 1944.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico