Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Edouard de Beaumont - Em oração - jovem mulher com o bebê, séc. XIX - public domain - Wikimedia Commons

Vida mariana

Ó Maria, Mãe dulcíssima, quero viver convosco como um filho vive com a sua mãe.

1 – O grande lugar que Maria, na sua qualidade de Mãe, ocupa na obra da nossa santificação, justifica plenamente o desejo de uma vida de intimidade com Ela. Como o filho está de bom grado com sua mãe, assim o cristão vive com agrado com Maria e por isso se serve de pequenos meios para manter bem desperta na mente a sua lembrança. Procura, por exemplo, ter sob os olhos a sua imagem, habituando-se a saudá-la amorosamente sempre que a vê. Mas com um olhar de fé, vai muito além das imagens, vai até Maria que vive na glória e que, por meio da visão beatífica, nos vê, nos segue, conhece todas as nossas necessidades, nos socorre com o seu auxílio maternal; e assim, por meio da fé, a alma mantém-se em contínuo contato com a Santíssima Virgem. Então, espontaneamente, multiplica durante o dia as pequenas práticas de piedade em sua honra, as invocações, as jaculatórias e tudo isto lhe serve para intensificar as suas relações com Ela. O dia de sábado, o mês de Maio, as suas numerosas festas são outras tantas ocasiões para a recordar de modo especial, para meditar nas suas prerrogativas, para contemplar as suas belezas, para se enamorar cada vez mais dEla. De fato, não é possível trazer na mente e no coração a doce figura de Maria, sem nos sentirmos movidos a amá-la, sem sentirmos a necessidade de lhe demonstrar a realidade do nosso amor, procurando dar-lhe prazer, ou seja, viver como seus verdadeiros filhos. Deste modo, a vida “mariana”, isto é, a vida de intimidade com Maria, pode penetrar todo o conjunto da nossa vida “cristã” e conduzir-nos a uma maior fidelidade no cumprimento de todos os nossos deveres, porque nada pode agradar mais à Mãe do que ver-nos cumprir com amor a vontade do seu Filho. E, por outro lado, a vida cristã, vivida assim sob o olhar maternal de Maria, adquire especial doçura e suavidade que nascem espontaneamente da companhia contínua de uma Mãe dulcíssima que nos rodeia de atenções.

2 – Outro aspecto da vida mariana é a imitação de Maria. Só Jesus é o “caminho” que nos conduz ao Pai. Ele é o único modelo; mas quem mais do que Maria é semelhante a Jesus? Quem mais do que Maria pode dizer que tem os mesmos sentimentos de Cristo? “Ó Senhora – exclama S. Bernardo – Deus mora em vós e vós habitais nEle. Vós O revestis com a substância da vossa carne e Ele vos reveste coma glória da Sua majestade”. Permanecendo no seio puríssimo da Virgem, Jesus revestiu-a de Si, fê-la participante das Suas perfeições infinitas, infundiu-lhe os Seus sentimentos, os Seus desejos, os Seus afetos, os Seus quereres; e Maria que se abandonou inteiramente à Sua ação, foi totalmente transformada nEle de modo a tornar-se a Sua cópia mais fiel. “Maria – canta a liturgia – é a imagem perfeitíssima de Cristo, pintada ao vivo pelo Espírito Santo”. O Espírito Santo, que é o Espírito de Jesus, tomando posse inteira da alma puríssima e dulcíssima de Maria, esculpiu nela, do modo mais perfeito e delicado, todos os traços e características da alma de Cristo e por isso pode dizer-se que imitar Maria é imitar Jesus. É por esta razão que nós a escolhemos como modelo. Como não amamos Maria por si mesma, mas em relação a Cristo, de quem é Mãe, assim não a imitamos por si mesma, mas em relação a Cristo de quem é a imagem mais fiel. Jesus é o único caminho que nos conduz ao Pai, e Maria é o caminho mais seguro e mais fácil para chegar a Jesus. Jesus, incarnando em Si as perfeições do Pai, tornou-nos possível a imitação de Deus; e Maria, recopiando em si as perfeições de Jesus, tornou-as mais acessíveis, pô-las mais ao nosso alcance. Por outro lado, ninguém mais do que Ela pode dizer-nos: “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo” (I Cor. 4, 16). Como Jesus veio a nós por meio de Maria, assim é justo que nós vamos a Jesus por meio dEla.

Colóquio – “Ó minha Mãe dulcíssima, vós chamais-me e dizeis-me: ‘Se alguém é pequeno venha a mim’. AS crianças têm sempre nos lábios o nome da mãe, e em qualquer perigo, medo ou dificuldade, imediatamente a chamam. Ó Mãe dulcíssima, ó Mãe amorosíssima, vós desejais que, como uma criança, vos chame sem cessar, recorra sempre a vós… Deixai, pois, que continuamente vos invoque e vos diga: minha Mãe, minha Mãe amabilíssima. Este nome consola-me, enternece-me, recorda-me a obrigação que tenho de vos amar. Este nome anima-me a confiar em vós. Minha Mãe! Assim vos chamo, assim desejo sempre chamar-vos. Depois de Deus, sois a minha esperança, o meu refúgio, o meu amor neste vale de lágrimas. Ó minha doce Senhora e Mãe, que com o amor que mostrais aos vossos filhos arrebatais os seus corações, arrebatai também, eu vos rogo, o meu pobre coração que tanto vos deseja amar. Com a vossa beleza, ó minha Mãe, enamorastes um Deus fazendo-O baixar do céu ao vosso seio, e eu hei de viver sem vos amar? Não, não terei repouso enquanto não estiver certo de ter obtido um verdadeiro amor, um amo constante e terno para convosco, minha Mãe. Sim, eu quero amar-vos, Mãe dulcíssima, mas ao mesmo tempo receio não vos amar, porque ouço dizer que o amor torna os amantes semelhantes às pessoas amadas… Por isso, se me vejo tão diferente de vós, é sinal de que não vos amo? Vós tão pura e eu tão impuro! Vós tão humilde e eu tão soberbo! Vós tão santa e eu tão iníquo! Mas o que vós deveis fazer, ó Maria, já que me amais, é tornar-me semelhante a vós. Vós tendes todo o poder de mudar os corações; tomai portanto o meu e transformai-o. Fazei ver ao mundo quão grande é o vosso poder em favor daqueles que vós amais! Santificai-me, fazei-me vosso digno filho” (cfr. Sto Afonso).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico