Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Pickersgill, Frederick Richard (b, 1820) - Mulher Orando (Rosário)

A modéstia

Ó Jesus, Esposo das virgens, mostrai-me como deve viver uma alma consagrada a Vós.

1 – A castidade perfeita supõe um domínio absoluto do espírito sobre a matéria. tal domínio é, porém contrariado em nós, pelas tendências desordenadas aos prazeres sensíveis; também as almas consagradas a Deus levam o tesouro da castidade em “vasis fictilibus” (II Cor. 4, 7), quer dizer, no vaso frágil dum corpo de carne que se sente a inclinação para as satisfações dos sentidos. O voto de castidade não liberta a alma destas tendências e por isso não a dispensa duma vigilância contínua: “O que fez a Deus voto de pureza total, deve lutar com a oração e penitência para alcançar a suprema vitória” (Pio XII). Com a oração, porque sem Deus ninguém pode ser casto; com a penitência e mortificação, porque é necessário sujeitar o corpo às exigências do espírito.

A modéstia é uma exercício particular de mortificação destinado a moderar e regular toda a atividade interior e exterior do homem, em conformidade com a sua vocação. S. Paulo recomenda esta virtude a todos os cristãos: “A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens” (Fil. 4, 5); mas de maneira especial estão obrigados a ela as almas consagradas porque, sendo chamadas – pelo seu estado de vida – a conservar intacto o tesouro da castidade, têm necessidade de uma mais assíduo e delicado exercício de moderação dos sentidos. Exatamente como aquele que, possuindo tesouros materiais de grande valor, toma todas as medidas e precauções para os defender dos ladrões. “Irmãos, sede sóbrios e vigiai”, exorta-nos S. Pedro (I, 5, 8), porque o inimigo do bem está sempre à espreita.

Consagrando a Deus o corpo, o voto de castidade consagra também a Deus os sentidos, que devem por isso, estar livres das coisas vis da terra, para se ocuparem totalmente no serviço divino.

2 – Quanto mais uma pessoa aspira a uma total doação a Deus e mais visa à união com Ele, tanto mais a sua atitude deve ser informada por uma perfeita modéstia. Modéstia no rosto, no andar, nos gestos, no trato: “Em todas as coisas que fizerdes e tratardes, sede modestas”, ensina Santa Teresa de Jesus às suas filhas; e Santa Teresa Margarida do Coração de Jesus “de tal forma refreava e guardava as suas potências e sentidos que evitava todo o olha ou palavras que de algum modo não tivesse relação com Deus” (Sp. pg. 272). É a regra de ouro de S. João da Cruz: usar dos sentidos unicamente para o serviço e honra de Deus e para elevar o coração para Ele (cfr. S. I. 13, 4), o que na prática significa usar dos sentidos só na medida requerida pelo cumprimento dos próprios deveres ou por um honesto e justo alívio e “o resto deve-se deixar desocupado para Deus” (J.C. AM. II, 38). Portanto, guardar a vista e os ouvidos de todas aquelas imagens, curiosidades e notícias que os embaraçam inutilmente, com perigo de fazer chegar à alma impressões menos puras e santas.

Quem, sem necessidade, quer ver tudo, ouvir tudo, provar tudo, é semelhante àquele que deixa as portas da própria casa abertas a qualquer invasão. Os sentidos são as portas da alma; importa guardá-los para não pôr em perigo o tesouro da castidade.

A modéstia, porém, não é só uma arma defensiva da castidade, é também o baluarte de toda a vida interior: somente a alma que sabe guardar os seus sentidos, é capaz de se recolher no seu interior para viver em intimidade com Deus. A modéstia, desviando os sentidos das cosias terrenas, concentra-os e fixa-os em Deus: “Faremos morrer em nós a curiosidade dos nossos olhos e desviando-os de todas as coisas inúteis, fixá-los-emos em nós próprios, nos movimentos do nosso coração e no Coração de Jesus” (T.M. Sp. pg. 261). Este é o valor positivo da modéstia. Só quem ama muito o Senhor é capaz de se impor uma tal disciplina.

Colóquio – “Ó meu Deus, auxílio, defesa e doce esperança minha, que Vos ame ardentemente! Fazei que Vos abrace, ó Sumo Bem, sem o qual não há bem algum para mim; fazei que me deleite em Vós, fonte de perfeição, sem a qual nada há perfeito.

“Abri os meus ouvidos à Vossa palavra mais penetrante que uma espada de dois gumes, e que eu ouça a Vossa voz. Iluminai os meus olhos, ó luz incomparável, e fazei-o com tanta força que nãos e voltem mais para as vaidades terrenas, mas Vos procurem unicamente a Vós, ó Bem invisível. Criai em mim um olfato novo, ó perfume suavíssimo da minha vida, para que eu corra atrás da fragrância dos Vosso aromas. Sarai o meu gosto, Senhor, a fim de que eu conheça e saboreie a Vossa imensa doçura, aquela doçura que reservastes aos que estão cheios do vosso amor. Dissipai e destruí com a Vossa doçura, a minha concupiscência para que eu não deseje outra coisa fora de Vós, nem seja seduzido e enganado pelas vaidades mundanas, a ponto de considerar amargo o doce e doce o amargo, trevas a luz e luz as trevas. Livrai-me das armadilhas tecidas pelo inimigo das nossas almas, que enche o mundo com as suas insídias.

“Eis, dulcíssimo Senhor meu, que o mundo está cheio dos laços das concupiscências. E quem poderá fugir a todos eles? Certamente só aquele a quem Vós tirardes a soberba dos olhos, a concupiscência da carne, a irreverência e a obstinação do espírito. Oh! como é feliz aquele que recebe de Vós esta graça, porque com ela passará ileso pelo meio de tantos inimigos!” (Sto Agostinho).

Ó meu dulcíssimo Senhor, de todo o coração renovo diante de Vós a consagração dos meus sentidos. Consagro-Vos os olhos para que não procurem senão o Vosso rosto e não vejam senão aquilo que a Vós conduz; consagro-Vos a língua para que seja digna de cantar os Vossos louvores e nunca pronuncie uma palavra que Vos desagrade; consagro-Vos os ouvidos par que só escutem a Vossa voz e o que é necessário para o Vosso serviço, consagro-Vos o olfato, o gosto, o tato para que se deleitem unicamente em Vós, ó Esposo das virgens! Com Santa Inês quero repetir: “Amando-Vos, ó meu Cristo, sou casta, tocando-Vos, sou pura, possuindo-Vos, sou virgem!” (BR.).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico