A UNIDADE CASAMENTO
P. – Quais devem ser as propriedades do laço matrimonial?
R. – Deve ser uno e indissolúvel. Ou, por outras palavras, só deve unir duas pessoas. Uma vez formado, nunca mais deve ser desfeito.
P. – É verdade que Deus, logo no princípio do mundo, manifestou que o casamento devia ser a união apenas de duas pessoas?
R. – Sim. Deus manifestou a este respeito o seu pensamento, senão diretamente, pelo menos por intermédio de Adão, que secretamente inspirou: Foi por um instinto divino, diz o Concílio de Trento, que o pai da humanidade proferiu estas palavras célebres: “Eis aqui os ossos dos meus ossos e a carne da minha carne. Dar-se-lhe-há um nome tomado do nome do homem, porque do homem ela saiu. Por isso o homem deixará a seu pai e a sua mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne”. Aqui está, portanto, bem expresso que o matrimônio, cujo modelo é a união de Adão e Eva, deve ser de dois, e não de três ou mais.
P. – Era expressa e rigorosa esta união de dois numa só carne, promulgada por Adão?
R. – Não absolutamente, ao menos nas primeiras idades do mundo. Deus indicou bem, no princípio, o seu pensamento, mas sem deixar de reservar-se o direito de tolerar, nesse primeiro período do mundo, exceções, à regra geral, derrogações a uma lei que não tinha fixado definitivamente. De fato, ou para apressar a propagação da raça destinada ao culto do verdadeiro Deus, ou para facilitar a multiplicação das famílias e a sua difusão sobre a terra; ou ainda por qualquer outra razão, d’Ele conhecida e digna da Sua sabedoria, Deus tolerou a poligamia entre os patriarcas.
P. – E todos eles se aproveitaram dessa tolerância?
R. – Não. Alguns houve (como o filho do velho Tobias) que se empenharam em realizar na sua união a mais perfeita monogamia do casamento primitivo. “Nós somos os filhos dos Santos” diz o jovem Tobias à filha de Raquel, a quem vai desposar, e não podemos unir-nos como os gentios, que não conhecem a Deus… – Senhor, Deus de nossos pais, Vós que fizestes Adão do barro da terra e lhe destes Eva por companheira, bem sabeis que não tomo minha irmã por esposa para satisfazer uma paixão, mas com o único desejo de deixar filhos que abençoem o vosso nome pelos séculos fora. E Sara, compreendendo o pensamento do mancebo, acrescenta: “Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós, e possamos, nós ambos, chegar à velhice com perfeita saúde.”
O que Tobias e Sara pedem aqui a Deus é o casamento de dois, modelado pelo de Adão e Eva, no qual possam viver e envelhecer juntos. É o casamento de dois, celebrado pelo livro da Sabedoria: “Quem achará a mulher forte? A ela se entrega o coração de seu esposo.”
Por estes fatos e por estes louvores, quis Deus com que lembrar aos homens a instituição primitiva, que se propunha tornar mais tarde definitiva e obrigatória.
P. – Fora do povo judeu, qual foi a atitude dos homens em relação à unidade do casamento?
R. – Povos houve que se orgulhavam de guardar a monogamia. Tácito, falando dos germanos diz: “As suas virgens só desposam um único homem, para constituírem com ele um só corpo e viverem uma só vida.” (Moeurs des Germains, 9.)
Nas Leis de Manu lê-se: “O homem e a mulher formam uma só pessoa. A mulher é a companheira do homem, na vida e na morte.”
Lei admirável, sim, mas quão pouco observada no povo hindu! O próprio povo romano proclamava que o casamento devia ser “a união de duas vidas, realizando uma só.” (Digest. XXIII).
Mas também no povo romano as vergonhosas realidades da vida estavam longe do ideal puríssimo proclamado pelo Código. A licença e a promiscuidade tornaram-se, em Roma, a lei do casamento. Regra geral, a poligamia, em todos os povos pagãos, arrastou à maior degradação.
P. – Que fez Deus, alterado assim o casamento pelos gentios e judeus?
R. – Restaurador do mundo pela lei evangélica, Jesus Cristo, Deus e homem, quis, pelos merecimentos de seu sangue, restaurar o casamento, base da família. E começa logo por promulgar a unidade matrimonial, já anunciada no Paraíso por Adão: – E diz aos fariseus: “Não haveis lido que Aquele que criou o homem no princípio, o criou um só varão e uma só mulher? Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne.” (S. Math., XIX, 4-5).
P. – Que ensino encerram estas palavras?
R. – Um ensino claríssimo: Jesus Cristo, falando assim, proclama a unidade absoluta do matrimônio cristão. Não serão três, quatro ou mais numa só carne, mas unicamente dois, e estes dois só farão uma carne.
Por estas palavras tão nítidas e expressivas, o Senhor consagra de modo definitivo a monogamia, anunciada previamente por Adão; e afirma que deixará de haver exceções à regra.
Afirma que acabou a tolerância concedida no tempo dois patriarcas.
P. – E foi assim compreendido nos primeiros tempos do Cristianismo?
R. – Sim, afirmam-no os doutores da Igreja. – “A monogamia, escreve Teófilo de Antioquia, entrou nos costumes cristãos”. (Ad Antolycum, 1. III, 25). “Findou para sempre a poligamia! Barda vitoriosamente Clemente de Alexandria, Cristo aboliu-a”. (Sirom. 1. III). “Nós conhecemos apenas um laço matrimonial, diz ainda Minutius Félix: Uma só mulher, ou nenhuma”. (In Octav., 31).
P. – Não se levantou Lutero contra este ensino dos Padres da Igreja?
R. – Sim, para agradar aos príncipes, cujas boas graças procurava e de cuja proteção queria assegurar-se. Não receou autorizá-los a possuírem secretamente muitas mulheres. “A poligamia, disse-lhes, comentando o cap. XVI do Gênesis a seu modo, não é mais, afinal, do que o regresso aos costumes patriarcais”.
P. – Como foi recebida essa doutrina pelo Concílio de Trento?
R. – Fulminando o inovador com toda a severidade. “Anátema, bradou ele, a todos aqueles que permitem aos cristãos possuírem muitas mulheres, como se isto não fosse proibido por todas as leis divinas! (1)” (Sess. XXIV, cân. II).
EXTRATO
A que conduz a violação da lei da unidade matrimonial. – A poligamia moderna não conhece limites, fazendo gala em dar-nos a espetáculo dessas falsas famílias fundadas pelo adultério a dois passos do lar, e onde se põem de lado todos os constrangimentos que impunha ainda a honestidade d’uma esposa mal apreciada, que se enganou ou votou ao abandono. Aí se ridiculizam as suas lágrimas e se vêm as joias da esposa legítima a alindarem a rival. Aí, devora o filho adulterino o patrimônio do legítimo. Aí desaparecem, como num poço sem fundo, a honra, a saúde e a fortuna, e se desfazem e dissipam as esperanças ingênuas e as primeiras ilusões da aliança regular contraída junto dos altares. Aí por vezes se aniquilam séculos inteiros de tradições e virtudes. Esta poligamia não causa espanto aos nossos costumes, tão fáceis e corrompidos eles se encontram. Não faltam aduladores que a aplaudem, complacências que a aceitam, amigos que a desculpam: nem tão pouco, forçoso é dizê-lo, mulheres que a acham meritória nos maridos, e, nelas próprias, um atavio, um enfeite, uma coisa distinta…
Para evitar esta vergonha, cristãos e cristãs, guardai a grande e bela lei da unidade matrimonial, que refulge até na carne e no sangue. É a beleza, é a concórdia, é a força e a honra da civilização! (Mgr. Besson; Les Sacrements, XXVª conferência).
Catecismo do Matrimônio por P. Joseph Hoppenot, S. J., Obra aprovada por 48 cardeais, arcebispos e bispos de França e Bélgica, 1928.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
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