É PRECISO CASAR CEDO?
P. – Refletindo e orando, dois jovens reconheceram estar destinados ao casamento. Têm a idade precisa e gozam saúde. Fixaram-se na escolha, após as necessárias averiguações. Que mais lhes resta fazer?
R. – Casarem-se depressa. Quanto mais cedo, melhor. As demoras só podem ser prejudiciais aos jovens que desejam casar-se e à própria união que desejam contrair.
P. – Prejudiciais, porquê?
R. – Porque essas demoras os privam d’um remédio muito necessário na sua idade.
P. – Pode explicar esse pensamento?
R. – Sim; regra geral, os jovens, chegados à idade em que o sangue ferve nas veias e as paixões se desencadeiam, sofrem as revoltas da carne. Ora, um dos fins do casamento, diz o Catecismo do Concílio de Trento, é apazighuar essas revoltas; por isso lhe chama remédio contra a concupiscência; Remedium concupiscentiae. Assim todos vêem os prejuízos causados à alma dos jovens pelo emprego tardio desse remédio providencial. É expô-los a quedas dolorosas, arrastá-los por vezes a uma vida de pecado, durante anos, fazê-los contrair maus hábitos, tornar-lhes aborrecido o casamento legítimo e comprometer assim a sua salvação.
P. – Disse-nos também que essas demoras eram prejudiciais ao próprio casamento. Porquê?
R. – O mancebo que, para casar, espera obter primeiro, como se diz, uma posição ou situação definida, vai viver durante dez ou quinze anos (salvo raras exceções) numa repartição, num quartel, ou num cartório, essa vida detestável de solteirão que temos censurado. Os prazeres fáceis dessa vida tornar-lhe-ão menos atraente o casamento; tratará dele quase que com desgosto, já cansado de corpo e de organismo gasto, e sem grande desejo de cumprir a suas obrigações.
Ademais, esses dez ou quinze anos votados à vida estéril de solteirão, são dez ou quinze anos que o homem ainda jovem e generoso, inimigo da parcimônia e dos cálculos grosseiros, teria aproveitado bem melhor, proporcionando-se a alegria de ver-se reviver em numerosos filhos. Por isso essas demoras são prejudiciais ao próprio casamento.
P. – Qual a conclusão a tirar?
R. – Para não cair em exageros, é mister distinguir duas categorias de jovens dispostos a casar: uns têm, como se diz, uma posição definida: um jovem operário trabalhou dos quinze aos vinte e um anos, no ofício do pai, e que, uma vez acabado o serviço militar, volta logo ao exercício da profissão paterna; um filho de comerciante, designado para administrar o estabelecimento do pai; um filho de industrial, que ficará naturalmente com o negócio dos pais; um jovem cultivador: o campo dos avós que ele irá cultivar em breve poderá sustentar a mulher e os filhos. Esses são os privilegiados sob o ponto de vista matrimonial.
Há uma outra categoria de jovens, de que já falamos mais acima. A maior parte deles destina-se às carreiras liberais – médicos, advogados, militares. Estes têm de conquistar a sua posição.
Desde que a tenham adquirido, será ela apenas, em muitos casos, o seu único patrimônio. Ser-lhes-á mais difícil casarem-se cedo.
P. – Que deverão fazer os primeiros, os que têm já uma posição definida?
R. – Não deixarem de agradecer a Deus o terem o seu futuro assegurado, casarem-se mais cedo possível; evitarão assim os pecados que desonram, os caminhos perigosos em que tantos perdem a alegria de dar á sua companheira, com as primícias do seu amor, a flor duma vida robusta e sã.
P. – Que farão os segundos, ainda sem posição?
R. – Não os podemos acusar por demorarem o casamento até adquirirem a posição que lhes permita sustentar a mulher e filhos. Mas, conhecendo os perigos da vida de rapaz: 1º que diligenciem apressá-lo, trabalhando ardorosamente para adquirirem a sua posição o mais depressa possível; 2º que, por meio do trabalho, da oração, da comunhão frequente, e da fuga das ocasiões, “conservem o seu corpo, segundo o conselho de S. Paulo (I Thess. IV, 4); na santidade e honestidade, sem o abandonarem aos arrebatamentos da paixão, como os pagãos que não conhecem a Deus”.
Quem sabe? – e não se trata d’uma quimera – talvez que, em recompensa da sua vida laboriosa e pura, uma herdeira rica e virtuosa, seduzida pela integridade dos seus costumes lhe ofereça, além da sua mão e do seu coração, um dote que o impeça de contar os berços a encher e as bocas a sustentar.
P. – Não têm os pais, neste grave negócio, uma parte de responsabilidade?
R. – Têm, sim, e muito importante. Que os que pertencem às classes laboriosas, operários, lavradores, comerciantes, industriais, se guardem, portanto, de arrastar os filhos, por vaidade tola e sem motivos sérios, para as profissões chamadas liberais.
Esta invasão exagerada das carreiras públicas não só produz desclassificados e desempregados – advogados sem causas, médicos sem doentes, professores sem discípulos, senão ainda tem o grave inconveniente, pela demorada preparação a que obriga, de retardar a época do casamento. Se, por conselho daqueles que o rodeiam ou por disposição pessoal, um determinado rapaz pretende abraçar alguma destas carreiras liberais, que os pais se dediquem a orientar, quanto possível, os estudos, exames e estágios de filho, ou mesmo da filha, de sorte que não aguardem por muito tempo o “remédio da concupiscência”, de que podem necessitar.
P. – Que deve pensar-se dos casamentos de inclinação?
R. – Nada têm de condenável em si mesmos. Se um mancebo conhecer uma donzela que o atraia, pelo seu encanto simples, e mormente pela sua alma, que os pais evitem opor-se a essa união só pelo motivo “dela não trazer bastante riqueza”; que se não esqueçam desta verdade: que os “casamentos de inclinação” são muitas vezes preferíveis aos “casamentos de dinheiro”; nem tão pouco de que há mais quem case para ser amado do que para aumentar o seu pecúlio. Desde então, não se arroguem o direito de fazer esperar a seu filho, durante anos, o “brilhante casamento”, o casamento que eles sonharam. Esse brilhante casamento poderá satisfazer a ambição paternal, lisonjear a sua vaidade; mas não será a união que os filhos desejavam, união feliz, união das almas, união realizada a tempo de dois corações que se compreenderam e se dão um ao outro para a vida inteira, sob o olhar de Deus.
EXTRATO
Os casamentos mal feitos – há nos costumes do nosso tempo uma chaga que corrói o coração da família, como o parasita corrói os frutos; é a chaga sempre crescente das uniões e dos casamentos mal feitos. Existe a este respeito, sobretudo nas altas camadas, uma aberração espantosa. Chegada a hora de fixar, por meio d’uma união, o futuro d’um filho, o pai e a mãe, frequentemente, cedendo ás exigências do século, sentem-se tomados, sob inspirações diversas, da vertigem da mesma loucura: d’um lado, o orgulho de sangue; do outro, o orgulho da fortuna; um, à procura do que haja de mais elevado, outro de quem seja mais rico; e ambos, nas suas combinações mal ajustadas, desprezam quase completamente estas duas coisas que, no entanto, deveriam interessa-los acima de tudo: as virtudes da alma e os afetos do coração. Chama-se engenhosamente a isto fazer casamentos razoáveis; melhor seria chamar-lhes casamentos desatinados.
Certamente não pediremos que seja só a rápida impressão experimentada num momento dado por um coração de dezoito anos que decida d’uma união que não deve quebrar-se jamais: e muito menos ainda que o arroubamento d’uma paixão abafe, nestas grandes decisões, os conselhos da experiência e as lições da sabedoria. Mas o que declaro ser uma aberração desastrosa para a família e par a sociedade, é a parte preponderante que se atribui e, algumas vezes, a importância exclusiva que se dá aos cálculos da ambição ou ás combinações da vaidade, neste ato solene em que a razão exige que se veja, antes de tudo, almas que se estimem, corações que amem, e vidas que se atraiam.
Mostremos aqui os fatos em toda a realidade que a dignidade do discurso comporta. Há em determinado lugar uma criança cujo coração ainda puro se abre ao seu primeiro afeto, como uma flor ao seu primeiro sol. Do que necessita essa criança? Ah, vós desejais sabe-lo? Mas necessita d’uma alma com a sua e d’um coração como o seu; d’uma alma que guarde o tesouro da afeição. Sem esses dois tesouros que se completam um ao outro, nada a satisfará; e o nome mais sonoro e o milhão mais bem cotado não lhe dissimularão a sua irreparável miséria (P. Felix, Quaresma de Notre-Dame, 1860).
Catecismo do Matrimônio por P. Joseph Hoppenot, S. J., Obra aprovada por 48 cardeais, arcebispos e bispos de França e Bélgica, 1928.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico
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