Devoção Oficial
Espírito da devoção
A mediação universal de Maria não é um simples nome, é uma realidade. Esta realidade consiste principalmente na participação da Santíssima Virgem na Redenção e na sua intercessão atual no Céu.
Ora, a sagrada Liturgia, ao venerar a Santíssima Virgem, ou comemora a parte que teve na Redenção dos homens ou invoca a sua intercessão, quando não faz ambas as coisas ao mesmo tempo. Sirva de exemplo esta antiquíssima oração, que entre a Epifania e a Purificação usa atualmente a Igreja:
«Ó Deus, que pela fecunda virgindade de Maria, outorgastes ao gênero humano o dom da salvação eterna: Nós vos rogamos nos concedais a graça de experimentarmos que interceda por nós Aquela por cujo meio recebemos o Autor da vida, Jesus Cristo Nosso Senhor.»
O recurso à intercessão da Santíssima Virgem encontra-se constantemente em todas as orações das suas festas, e algumas vezes com a ênfase da «Secreta» da Vigília da Assunção, que diz assim:
«Recomende, Senhor, as nossas oblações no acatamento da vossa clemência a oração da Mãe de Deus: a quem trasladastes deste mundo para confiadamente interceder junto de Vós por nossos pecados.»
Este espírito da devoção à mediação universal é o que inspira e informa toda a devoção da Igreja à Virgem Maria.
Festas anuais
A maior parte das festas que se celebram na Igreja universal recordam ou a cooperação de Maria na obra da Redenção ou a sua intercessão atual no Céu.
Ao primeiro gênero pertencem:
A Imaculada Conceição, que nos apresenta Maria não só isenta do pecado original, mas também como segunda Eva que há de esmagar a cabeça da serpente infernal;
A Anunciação, em que Maria, dando o seu livre consentimento à embaixada celeste, inicia a obra da reparação humana;
A Purificação, em que a Santíssima Virgem oferece ao Pai Celeste a sagrada Vítima, e as duas festas das Dores com que Maria associa a sua Compaixão à Paixão do Redentor.
Ao segundo gênero pertencem: a Assunção ao Céu, quando Maria toma posse do seu ofício de Intercessora dos homens, e as festas do Santíssimo Nome de Maria, do Rosário, das Mercês e da Aparição de Lurdes, que recordam os benefícios que Maria desde o Céu está concedendo constantemente aos homens.
Entre as festas particulares convém mencionar em primeiro lugar a da Santíssima Virgem Maria, Medianeira de todas as graças, que a pedido de Sua Eminência o Cardeal Mercier o Papa Bento XV instituiu a 12 de Janeiro de 1921, com Missa e ofício próprios, determinando para a sua celebração o dia 31 de Maio (1).
Ainda que particular, esta festa é virtualmente universal, visto a Santa Sé estar disposta a concedê-la a quantos a pedirem; e de fato celebra-se em muitas nações e ordens religiosas.
A instituição desta festa é um grande passo para a suspirada definição dogmática da Mediação Universal, como o foi, segundo o testemunho de Pio XI, antes mencionado, para a definição dogmática da Imaculada Conceição a celebração da sua festa. Contudo, ainda que nova sob esta denominação, a festa da Mediação Universal de Maria é antiquíssima na Igreja sob outros nomes. Por exemplo, o «Sinaxário Árabe Jacobita» publicado por R. Basset (na «Patrologia Orientalis» de Graffin-Nau, tomos I, II I, XI, XVI e XVII) menciona duas festas que são na realidade da Mediação Universal: uma a 18 de Outubro «em honra de Nossa Senhora, Imaculada Mãe de Deus, em comemoração dos seus benefícios, porque ela se lembra constantemente de nós, e intercede por nós diante de seu Filho» (T. I, pág. 144) ; outra a 15 de Julho «em comemoração de Nossa Senhora. . . o Refúgio Augusto, o Tesouro inesgotável para os cristãos» (T. XVII, pág. 1211).
Das 21 festas particulares da Santíssima Virgem, contidas na última edição oficial do Missal Romano, 13 referem-se à Mediação Universal, como se vê pelo ofício próprio, e ainda pelos seus mesmos títulos, que são: Auxílio dos Cristãos, Nossa Senhora do Bom Conselho, da Consolação, das Graças, Mãe da Misericórdia, Mãe do Divino Pastor, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Mãe da Divina Providência, Mãe do Amor Formoso e Rainha de Todos os Santos, Refúgio dos Pecadores, Rainha dos Apóstolos, Saúde dos Enfermos, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.
O «Calendário litúrgico» de Holweck já citado menciona nada menos que 150 festas análogas a estas, muitas das quais têm o seu ofício próprio, como as que estão contidas nas edições anteriores do Missal Romano: do Patrocínio da Santíssima Virgem, de Nossa Senhora do Socorro, do Sufrágio, dos Prodígios ou Rainha da Paz, e outras duas, diferentes das já mencionadas, da Consolação e da Mãe do Divino Pastor.
Outras Menções da Mediação na Liturgia
Fora destas festas, faz-se muitas vezes menção da Mediação Universal de Maria não só nas Missas e ofícios da Santíssima Virgem, mas ainda nas festas dos Santos.
Por exemplo, na festa de todos os Santos o hino de Vésperas começa por esta estrofe: «Perdoai, Jesus Cristo, aos vossos servos, pelos quais Maria sua Advogada, implora a clemência do Pai no tribunal da vossa misericórdia».
São também uma invocação à Medianeira universal as antífonas com que terminam as horas do ofício divino, especialmente a Salve-Rainha. E como estes, poderíamos citar outros muitos exemplos: prova manifesta de que a crença na mediação universal da Santíssima Virgem está profundamente arraigada no coração da Igreja.
Ladaínha de Nossa Senhora
Muitos dos títulos com que invocamos a Santíssima Virgem na Ladainha referem-se à mediação universal, principalmente os de Mãe da Divina Graça, Virgem Poderosa, Virgem Clemente, Causa da Nossa Alegria, Arca da Aliança, Porta do Céu, Saúde dos Enfermos, Refúgio dos Pecadores, Consolação dos Aflitos, Auxílio dos Cristãos, Rainha de todos os Santos, Rainha da Paz.
Santuários e títulos
A liturgia desenvolve-se principalmente no sagrado recinto do templo.
Ora, os templos católicos dedicados à Mãe de Deus, desde o magnífico Santuário de Santa Maria Maior em Roma até à ermida da aldeia mais humilde, enchem materialmente todo o mundo. Talvez não seja temerário afirmar que pelo menos a metade dos templos católicos estão consagrados à Santíssima Virgem.
E em todos os outros nunca falta uma capela, um altar, ou pelo menos uma devota imagem da Mãe de Deus.
E a que títulos de Maria costumam estar dedicados os templos católicos? Em geral pode dizer-se que, quando não recebem a sua denominação de alguma circunstância regional ou histórica, como os do Pilar ou Montserrat, costumam ter algum título de Maria que se refere à sua mediação universal. Tais são, por exemplo, os santuários dedicados a Nossa Senhora sob a invocação da Misericórdia, da Piedade, da Providência, das Graças, dos Remédios, do Perpétuo Socorro, da Consolação, da Paz, da Esperança, do Bom Sucesso, dos Milagres, de Maria Reparadora, de Maria Auxiliadora, do Carmo.
O que prova eloquentemente que a devoção à Santíssima Virgem é uma devoção à sua mediação universal.
Devoção Particular
Espírito da Devoção
O espírito que anima esta devoção do povo cristão e a distingue da devoção aos outros santos é uma confiança afetuosa e ilimitada na bondade maternal e no poder da Santíssima Virgem.
Para o povo fiel Maria é a Mãe amorosa, cujo ofício e ocupação constante é, como diz Pio X, proteger e velar pelos homens seus filhos. Por conseguinte, o espírito da devoção à mediação universal é a alma de toda a devoção à Santíssima Virgem.
É o que significam aquelas boas palavras de Leão XIII: «Realmente só a fé divina é causa de que nos sintamos movidos por um impulso avassalador que nos arrasta suavissimamente para Maria; nada mais digno de apreço nem mais desejável do que acolher-nos sob o amparo e a fidelidade daquela a quem podemos confiar os nossos planos e ações, a nossa inocência e arrependimento, as angústias e alegrias, orações e desejos, numa palavra, todas as nossas coisas; porque todos abrigam uma alegre e segura esperança de que, se por nossa indignidade seriam menos gratas a Deus as ofertas ou petições apresentadas por nossas mãos, essas mesmas postas nas mãos da nossa Mãe Santíssima, lhe hão de ser sumamente agradáveis e aceites» (Enc. Octobri mense, 22 Sept. 1891).
O Rosário
A devoção predileta do povo cristão à Santíssima Virgem é a do Santíssimo Rosário. Pois bem, os dois elementos principais do Rosário são a meditação dos Mistérios da nossa Redenção e a recitação da Ave Maria.
Nos Mistérios consideramos a parte ativa que neles teve Maria Santíssima. Na Ave Maria invocamos a sua intercessão atual. E como a cooperação de Maria na obra da nossa Redenção e a sua intercessão atual são os dois aspectos principais da mediação universal, a recitação do Rosário é uma devoção dirigida à Santíssima Virgem Medianeira da graça.
O piedoso costume de ajuntar ao terço a Salve Rainha e a ladainha, onde a mediação universal aparece com tanto relevo, põe como que o selo ao caráter do Rosário como devoção a Maria Medianeira.
Outras devoções
Há uma devoção análoga à do Rosário, a recitação do Angelus (vulgarmente chamado as Ave Marias) em que se recorda a parte que a Santíssima Virgem tomou na Incarnação do Redentor, e se invoca três vezes a sua intercessão maternal
.Mais explicitamente se refere à mediação universal de Maria o costume dos fiéis mais piedosos, que todas as manhãs ao oferecimento que fazem a Deus de suas obras juntam a consagração de si mesmos e de todas as suas coisas a Maria, por meio da oração popular: «Ó Minha Senhora, ó minha Mãe» (2).
Em todas as suas necessidades, tentações ou perigos recorrem instintivamente à proteção de Maria rezando-lhe o «Lembrai -vos».
Em suma, todo o bom cristão, como diz Leão XIII, «a todas as horas do dia saúda a Maria, invoca a Maria, tudo espera de Maria» (Enc. Octobri mense).
Estas manifestações e outras muitas semelhantes mostram, ao contrário dos protestantes e católicos tíbios, quão arraigadas estão no coração do povo fiel, a crença na mediação universal de Maria e a terna devoção à Santíssima Virgem Medianeira de todas as graças.
Maria Medianeira de Todas as Graças, pelo Padre José M. Bover, S. J. Tradução de Manuel Batista, S. J., 1957.
(1) Como atualmente no dia 31 de Maio se celebra a nova festa de Maria Rainha, a festa de Maria Medianeira foi mudada para o dia 15 de Dezembro.
(2) São também uma Consagração a Maria, mais estável e perfeita, a «Carta de escravidão» proposta pelo P. Gaspar de la Figuera S. J. na sua Suma espiritual, a «Carta de Filiação», escrita e firmada pelo P. Bernardo de Hoyos, e a «Consagração de si mesmo a Jesus Cristo, Sabedoria Incarnada, por meio de Maria», composta e recomendada por S. Luis M. Grignion de Montfort. O voto de defender a mediação universal feito recentemente por muitos particulares e corporações inteiras, é também sob outro aspecto uma consagração a Maria.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico