É aqui onde eu vos quero muito afeiçoado a seguir o meu conselho; porque neste artigo consiste um dos mais seguros meios do vosso adiantamento espiritual.
Assim como as aves têm ninhos nas árvores para fazerem seu retiro quando precisam, e os veados têm as suas moitas e os seus fortes onde se escondem e se põem a coberto, tomando a frescura da sombra no estio, assim também os nossos corações devem tomar e escolher algum lugar cada dia, ou no monte do Calvário, ou nas chagas de Nosso Senhor, ou em qualquer outro lugar próximo a ele, para ai fazer o seu retiro em toda sorte de ocasiões, e para ai se aliviar e recrear no meio dos negócios exteriores, e ai estar como num forte, a fim de se defender das tentações. Ditosa a alma que puder dizer em verdade a Nosso Senhor: Sois a minha mansão de refúgio, o meu baluarte seguro, o meu teto contra a chuva e a minha sombra contra o calor.
Lembrai-vos, pois, de fazer sempre vários retiros na solidão do vosso coração, enquanto corporalmente estiverdes entre as conversações e os afazeres; e essa solidão mental absolutamente não pode ser impedida pela multidão daqueles que vos estão em volta, pois eles não estão em volta do vosso coração, senão em volta do vosso corpo, de sorte que o vosso coração permanece sozinho na presença de Deus. Era esse o exercício que o rei David fazia no meio de tantas ocupações que tinha, tal como ele mesmo testemunha por mil passos dos seus salmos, como quando diz: Ó Senhor, estou sempre convosco. Vejo meu Deus sempre diante de mim. Elevei meus olhos a vós, ó meu Deus, que habitais no céu. Meus olhos estão sempre em Deus. E também as conversações não são geralmente tão sérias que se não possa, de vez em quando, retirar delas o coração para repô-lo nessa divina solidão.
Havendo o pai e a mãe de Santa Catarina de Sena tirado a esta toda comodidade do lugar e o vagar para rezar e meditar, inspirou-a Nosso Senhor a fazer um pequeno oratório interior no seu espírito, dentro do qual retirando-se mentalmente, pudesse, entre os afazeres exteriores, cuidar dessa santa solidão cordial. E depois, quando o mundo a atacava, ela não sofria nenhum vexame com isso, porque, dizia ela, se fechava no seu gabinete interior, onde se consolava com seu celeste Esposo. Por isto, desde então aconselhava ela a seus filhos espirituais fazerem um quarto no coração e ficarem nele.
Em suma, ide estabelecendo cada vez mais os vossos bons propósitos, as vossas santas resoluções: aprofundai cada vez mais a vossa consideração nas chagas de Nosso Senhor, onde achareis um abismo de razões que vos confirmarão na vossa generosa empresa e vos farão sentir o quanto é vil e vão o coração que faz alhures a sua morada, que se aninha noutra árvore que não na da Cruz. Ó meu Deus, que felizes seremos se vivermos nesse santo Tabernáculo! Não: nada, nada no mundo é digno do nosso amor; deve ele ser todo desse Salvador que nos deu todo o seu.
Entrai cada dia da semana, devotamente, numa das chagas sagradas do nosso doloroso e amoroso Salvador. No domingo, entrai na chaga do lado; na segunda, na do pé esquerdo; na terça, na do pé direito; na quarta, na da mão esquerda; na quinta, na da mão direita; na sexta, nas cicatrizes da sua adorável Cabeça; no sábado, volvei ao seu lado sagrado, a fim de por ele começardes e acabardes a vossa semana.
O Segredo da Salvação, A Lembrança da presença de Deus e as Orações jaculatórias, extraído das Obras de S. Francisco de Sales, por Fernando Millon, Missionário de S. Francisco de Sales, 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico