Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Cristo coroando São Raimundo Nonato, Diego González de la Vega, 1673, Museu do Prado, Domínio Público, Wikimedia Commons

São Raimundo Nonato, Cardeal

São Raimundo Nonato, Cardeal († 1240)

Raimundo, cognominado Nonato, filho de pais nobres, porém, destituídos de fortuna, nasceu em 1204, em Portel, na Catalunha. Menino ainda, mostrava muita propensão para práticas de piedade e já era fiel cumpridor dos deveres. Dotado de boa inteligência, com grande facilidade fez os primeiros estudos. O pai, porém, observando no filho uma certa inclinação para o estado religioso, encarregou-o da administração de uma pequena fazenda. Raymundo obedeceu prontamente. A vida tranquila do campo, em vez de absorver-lhe as ideias religiosas, ainda mais as favoreceu. Foi na solidão que no espírito lhe amadureceu a resolução de dedicar-se unicamente a Deus, na Ordem de Nossa Senhora das Mercês, chamada também da Misericórdia da Redenção dos Cativos, Ordem que, havia pouco, tinha sido fundada por Pedro Nolasco. Nesta resolução grandemente influiu a devoção à Maria Santíssima, sua divina Mãe, a quem se consagrou inteiramente. No sítio onde estava, havia uma pequena capela, dedicada à Rainha do céu. Lá, aos pés do altar de Nossa Senhora, Raimundo passava horas, em doce colóquio com a Mãe de Jesus. As flores mais belas que encontrava, levava-as à capela, para enfeitar o altar e a imagem da Mãe protetora. A flor, porém, de todas a mais preciosa, que ofereceu à Maria, foi a pureza do coração, junto com a promessa de entrar na Ordem já mencionada.

Foi por intermédio do padrinho, o Conde de Cardona, que alcançou o consentimento do pai para se incorporar à Ordem das Mercês. Sem mais delongas, seguiu para Barcelona, onde, das mãos do Fundador, recebeu o hábito branco, com a cruz azul-vermelha.

Raimundo, uma vez membro da Ordem, dedicou-se ao estudo das ciências teológicas, principalmente da arte retórica e recebeu o sacramento da Ordem. Pregador eloquentíssimo, ardente de zelo pela causa de Deus e pela salvação das almas, bem fundado na piedade, o jovem sacerdote apresentava todos os requisitos de missionário, como a Ordem necessitava para a difícil tarefa de resgatar os cristãos do duro cativeiro dos Sarracenos.

Tendo acompanhado o Fundador em duas viagens, este o nomeou chefe de uma missão destinada à Algeria, onde libertou cento e cinquenta cristãos das mãos dos muçulmanos.

No ano de 1235 vemo-lo em Roma, para onde o conduziriam negócios urgentes da Ordem. Alcançada a aprovação pontifícia da Regra, com a benção do Papa Gregório IX, voltou para a África. Lá teve a satisfação de poder libertar mais 228 cristãos e entrega-los às respectivas famílias. Quando, porém, os recursos começaram a faltar, Raimundo ofereceu-se a si mesmo como refém, pela liberdade daqueles cristãos que mais sofriam e cuja fé em maior perigo se achava de naufragar. Com bom ânimo sofreu todos os maus tratos, a inclemência do sol abrasador africano, e as torturas, a que os muçulmanos o sujeitavam. Com palavras de conforto e pelo exemplo, reanimava os pobres cristãos, que dificilmente suportavam as cadeias da escravidão. Uma atenção particular dava àqueles infelizes que tinham negado a fé cristã, para obter um alívio nas torturas e um tratamento mais humano da parte dos Sarracenos. Tão insistentes lhe eram os pedidos, tão irresistíveis os argumentos, que muitos dos infelizes apóstatas voltavam arrependidos ao seio da Igreja e faziam penitência. O zelo estendeu-se até aos próprios Sarracenos, aos quais pregou o santo Evangelho, e com tão bons resultados, que, entre eles, alguns dos mais nobres se converteram ao Cristianismo.

Isso fez desencadear uma terrível tempestade contra o santo missionário. Os magistrados sarracenos condenaram-no a penas crudelíssimas e só o receio de perder pingues resgates fez com que não o condenassem à morte. Mas os juízes desumanos excogitaram um modo verdadeiramente diabólico de não só cruciar o homem de Deus, mas impossibilitar-lhe também a pregação. Mandaram-lhe perfurar com ferro em brasa os dois lábios e fecha-los com cadeado. Assim – pensaram – não falaria mais do Cristo e não enganaria mais os filhos do grande profeta. Raimundo sofreu durante oito meses prisão duríssima e atrozes torturas. Se os lábios lhe estavam vedados de pregar, mais eloquentemente falavam as feridas, mais alto bradavam as cadeias, mais persuadiam as dores e a resignação do servo de Deus. O cárcere era constantemente visitado por cristãos e sarracenos que, vendo o santo missionário ao martírio, se edificavam pelo exemplo raríssimo que lhes dava de fé e constância.

Com a chegada de novos missionários veio também a libertação para Raimundo e, com a libertação, uma nova era de trabalhos apostólicos.

Chamado pelo Superior à Espanha, para lá seguiu, onde o esperava alta e justa recompensa. O Papa Gregório IX tinha-o elevado à dignidade de Cardeal da Santa Igreja, em atenção às suas altas e rara virtudes, como também aos seus grandes merecimentos. A entrada do missionário em Barcelona equivaleu a uma verdadeira apoteose. O povo barcelonense levou-o entre aclamações jubilosas, ao palácio cardinalício. Raimundo, porém, preferiu continuar a vida de religioso e trocou os salões do palácio pela cela do convento.

Quando alguém externava estranheza, por vê-lo proceder assim, Raimundo, com a amabilidade que lhe era própria, respondia: “Humildade e dignidade são duas irmãs que se querem muito e mutuamente se apoiam”. No ano de 1240 o Papa o chamou a Roma. Numa viagem, à Cardona, onde morava seu padrinho e benfeitor, o Cardeal adoeceu gravemente. Sentindo a morte aproximar-se, Raimundo preparou-se para a última e grande viagem. Recebeu o santo Viático das mãos de um Anjo e morreu no dia 31 de Agosto de 1240, na idade de 37 anos. O Papa Alexandre inseriu-lhe o nome no catálogo dos Santos da Igreja.

O Conde de Cardona, a cidade de Barcelona e a Ordem a que Raimundo pertencia, disputavam entre si a posse do corpo do Santo. Para se obter uma decisão imparcial, o cadáver do mesmo foi colocado em uma carruagem, puxada por uma mula cega. Esta, guiada por forças invisíveis, tomou rumo para a capela de Nossa Senhora, no alto da montanha, onde Raimundo tinha lançado o fundamento de sua futura vida religiosa. Lá o sepultaram, e da capela foi feito um templo magnífico e um santuário frequentadíssimo. S. Pedro Nolasco erigiu no mesmo local um convento da Ordem.

REFLEXÕES

S. Raimundo ensinava a fiéis e infiéis. Para impedir-lh’o, os inimigos tiveram a ideia grotesca e desumana de serrar-lhe a boca, por meio de um cadeado. Cadeado na boca deviam ter os caluniadores, difamadores, perjuros, blasfemos, mentirosos e impuros. Se S. Raimundo no céu recebeu uma gloria particular, em recompensa do bom uso que fez da língua, dúvida nenhuma pode subsistir a respeito daqueles que da boca fizeram instrumento de pecado contra Deus. S. Gregório opina que o mau rico sofre no inferno penas cruciantes na língua, por causa das conversas impuras, que lhe foram o sal nos luxuosos festins. Quem não quer sofrer na eternidade, expiando pecados cometidos pelo falar, deve pôr o temor de Deus. Qual sentinela vigilante, na boca, para evitar que Deus seja ofendido por más palavras. “Não prestes ouvido ao que língua ímpia falar e defende tua boca por uma guarnição de portas e fechadura”. (Eccl. 28).

Na Luz Perpétua, Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus para todos dos dias do ano, apresentadas ao povo cristão por João Batista Lehmann, Sacerdote da Congregação do Verbo Divino, Volume II, 1935.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico