Segundo Domingo depois de Pentecostes (Luc. 14, 16-24).
Naquele tempo, propôs Jesus aos fariseus a seguinte parábola:
- Um homem preparou uma grande ceia, para a qual convidou muita gente.
- E à hora da refeição, mandou um dos seus servos dizer aos convidados que viessem, porque tudo estava pronto.
- Mas todos à uma começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei uma casa de campo, e preciso ir vê-la; rogo-te me dês por escusado.
- Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las; rogo-te me dês por escusado.
- Um terceiro disse: Casei-me e por isso não posso ir.
- Voltou, pois, o servo e referiu tudo ao seu senhor. Então, o pai de família, indignado, disse ao servo: Sai depressa pelas ruas e becos da cidade, e conduze-me aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.
- Respondeu-lhe o servo: Senhor, está feito o que mandaste e ainda há lugar.
- Disse então o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e ao longo dos cercados, e obriga a gente a entrar, para que se encha a minha casa.
- Porque eu vos declaro que nenhum daqueles que foram convidados provará a minha ceia.
NECESSIDADE DA RELIGIÃO
O pai de família ficou indignado, diz o Evangelho, ao ver que o seu convite fôra recusado.
Ora, este convite que o Pai celestial dirige a todos é o de entrar em sua casa, de servi-lo, de pertencer-lhe neste mundo, para pertencer-lhe ao céu.
Em outros termos, o convite ao qual devemos responder, é o de praticar a Religião.
A Religião é necessária, porque ela é:
- UM DIREITO de Deus.
- UMA NECESSIDADE para os homens.
I. O DIREITO DE DEUS
Nós somos as criaturas de Deus.
Ora, um objeto pertence a quem o fez: Uma estátua pertence ao escultor; um quadro, ao pintor, o mundo, a Deus.
Considerai o mundo: tudo é submisso a Deus.
Os objetos inanimados, as plantas, os animais, tudo segue as normas estabelecidas por Deus.
É incontestado o domínio de Deus sobre os menores insetos, como sobre os astros imensos.
O homem é criatura de Deus como as demais; ele deve, pois, como todo o resto, ficar submisso ao domínio e à vontade do Criador.
O homem, porém, é um ser inteligente e livre, deve, pois empregar a sua inteligência para conhecer a supremacia divina; e a sua liberdade para submeter-se a ela.
A submissão dos demais seres da natureza é cega e sem mérito: a do homem deve ser racional, aceita livremente, para ser meritória.
Deus não pode desinteressar-se dos homens; não pode permitir que fiquem independentes dEle; como não permitiu que o mais luminoso dos anjos dissesse: Non serviam! Como não permitiu que o primeiro homem dissesse: Serei como Deus, isto é, independente dEle.
Não permite que um filho de Adão diga: não preciso de Deus… não quero depender dEle.
Ora, a Religião é precisamente a submissão à vontade de Deus manifestada.
Deus, tem pois, direito a esta submissão.
II. A NECESSIDADE DO HOMEM
O homem deve ser honesto e feliz; e é a religião que dá um e outro. Como permanecer honesto sem Religião?
É impossível!
Somos continuadamente tentados; entre nós e o mal existe a barreira do dever; porém, a paixão nos brada: pula por cima!
Um dia ou outro, e talvez mais cedo do que pensamos e queremos, nós acabaremos pulando por cima deste dever, isto é, passaremos a barreira, para cair… no mal.
Havendo qualquer coisa que nos arrasta para o mal, deve haver também qualquer coisa que nos ajude a afastar-nos dele. Que será?
Nem o sentido de honra, do dever nem da consciência podem fazê-lo.
Só a Religião. Sem ela não pode haver honestidade perfeita. O homem irreligioso nunca pode ser perfeitamente honesto, pois fica sempre uma dívida que lhe resta a pagar: a dívida para com Deus.
E como ser feliz sem Religião?
Mau grado nosso, “o infinito nos atormenta”, disse um poeta.
É impossível impor um silêncio perpétuo à consciência que murmura vez por outra:
Quem sou eu? Donde venho? Para onde vou? Qual é o meu destino?
Vi morrerem muitas pessoas, e sei que eu também morrerei. – E depois? Não haverá outra vida?
Qual será ela?
Não tenho nada a fazer para preparar-me?
A estas perguntas o bom cristão tem respostas certas, claras e simples, que lhe satisfazem e suavizam o sofrimento passageiro.
Quanto ao incréu, ele não encontra uma resposta a estas perguntas angustiosas…
Para ele, é o futuro incerto, escuro e ameaçador; e sendo capaz de reflexão, a sua felicidade fica perturbado diante da incerteza do futuro.
III. CONCLUSÃO
Sem Religião o homem é, pois, um ser incompleto, truncado, no que tem de mais íntimo e de mais sagrado.
Ele sabe que é filho, mas não conhece a seu pai.
Ele sente que é filho de Deus: mas desconhece a seu Pai celeste.
Ele sente-se fraco, miserável, desterrado neste mundo, mas ignora a sua Pátria verdadeira, como desconhece àquele que pode sustentá-lo, consolá-lo. Ele tem uma inteligência para conhecer a Deus: e só conhece as coisas perecedoras deste mundo.
Ele tem uma vontade para fazer o bem, e este bem perde-se nas brumas de um deprimente egoísmo.
Ele tem um coração para amar… o que é grande, o que é belo, o que é divino, e este coração mendiga umas gotas de amor ás criaturas, que não podem satisfazer-lhe os imensos desejos.
Sim, Deus tem direito ao amor de sua criatura; pois a todo direito numa pessoa corresponde um dever em outra pessoa.
O homem tem o dever de praticar a Religião, devendo encontrar nela a paz e a felicidade.
É a ordem estabelecida por Deus.
Comentário Dogmático, Padre Júlio Maria, S.D.N., 1958.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico