Assentei-me à sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e a minha boca sente doçura nos seus frutos (Cant. II, 3).
O Salvador divino não se contentando com ser apenas o nosso alimento no Santíssimo Sacramento, quis ser também o companheiro da nossa peregrinação na terra, o amigo do nosso coação, o nosso conselheiro e consolador neste mundo.
Por isso estabeleceu a sua morada entre nós (1), afim de ser o nosso Deus, oculto debaixo das espécies de pão, e nós o seu povo (2).
De nós foram ditas aquelas palavras: Com efeito, não há nação que tenha deuses tão próximos a si, como nós temos o Senhor, nosso Deus (3).
Mas, oh vergonha! que poucos cristãos se lembram de Jesus sacramentado! A maior parte deixa-O abandonado e só, assistindo apenas ao Santo Sacrifício da Missa nos domingos e dias de de festa: nos outros nem ao menos uma visita Lhe fazem! Parece que desconhecem que reside entre eles aquele que é a alegria dos santos, e que está disposto a enriquecer com todos os tesouros do céu aqueles que dEle se aproximam com fé.
Os lugares santos vêem-se desertos de dia e de noite, e só Ele, o eterno e sumo Sacerdote, Cristo Jesus, ali está orando e intercedendo incessantemente pelo seu povo, e pelas ovelhas da sua grei (4).
Oh como é fraco em vós o espírito de fé! Oh maravilha do amor magnânimo de Deus! que poucos frutos produzes nas nossas almas, que encontram tão pesado o dever de corresponderem a tanto amor!
Tu mesma, ó jovem, como Lhe correspondes? Recebes a Sagrada Comunhão de longe a longe, e ouves algum vez missa em dia de trabalho! Fora destas poucas ocasiões, quando mais te encontras ao aldo de Jesus, na igreja?
Dizes que não tens tempo, que te custa muito, que não sabes em que empregar os momentos que passas na igreja, que te cansam muito esses breves minutos.
Se te custa tanto ouvir missa nos dias de trabalho, que sacrifício será para ti fazer uma visita a Jesus num igreja, a horas extraordinárias!
Mas não precisas de gastar nisso horas inteiras, nem sequer um quarto de hora.
Passas muitas vezes por diante duma igreja. Entre, ajoelha-te, saúda o salvador com pavras breves mas sinceras, agradece-Lhe o benefício que te faz estando ali presente, pede-Lhe a sua bênção, e depois segue o teu caminho, confortada com a visita que fizeste a Jesus.
Se para passar pela igreja, tiveres de dar uma volta maior, não deixes de o fazer sempre que o tempo não urja. Quantas vezes vamos muito longe com perda de tempo e dinheiro, só para satisfazermos a curiosidade de vermos e ouvirmos o que excita a nossa atenção!
Não será muito que ao meio dia ou à atrde consagres um quarto de hora a assistir na côrte do p´rincipe mais excelso, a fim de Lhe prestares o tributo da tua homenagem.
Oh mal empregada economia em oposição tão aberta com o espírito de dissipação que mostramos noutras ocasiões! Quanto tempo em atender ao cuidado do corpo, em vestidos e diversões!
Julgas que perdes os momentos consagrados ao Senhor? Acaso não te pagará Ele este sacrifício?
Dizes que é muito raro ver jovens na igrteja a horas extraordinárias.
Há certamente muitas jovens que, vivendo perto da igreja, sabem aproveitar-se desta proximidade para o seu adiantamento espiritual. Tu mesma, querendo, podes encontrá-las todos os dias a rezar a horas extraordinárias nalgum lugar retirado da igreja!
E que hei de fazer nas visitas ao Santíssimo Sacramento?
Que hás de fazer? Que fazes, quando vais visitar algum atua amiga? Comunicas com ela, perguntas, falas, ouves, apertas-lhe a mão antes de te despedires, e alegras-te por veres esta tua amizade cada vez mais confirmada e arraigada.
É difícil descrever quanto a comunicação viva com Jesus no Santíssimo Sacramento contribui para promover a vida interior duma alma.
Contudo podê-lo-ás compreender facilmente. Jesus é a vida. Ora, esta vida estámuito perto de nós, pronta sempre a comunicar-se-nos com tanto maior abundância, quanto mais sincera e eficazmente a buscarmos.
Quantos afetos salutares, quantos propósitos tão úteis se despertam em nós quando estamos ajoelhados nos degraus do altar! A visita ao Santíssimo não é já por si só um exercício escelente de vida interior, em que se praticam as mais preciosas virtudes?
Deus escondido! atraí-nos a Vós no Sacramento do Altar! Sim: assentei-me á sombra da quele a quem tanto tinha desejado: a minha boca sente doçura nos seus frutos (5).
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Ecl. XXIV, 13.
(2) Jer. XI, 4.
(3) Deut. IV, 7.
(4) Salm. XXVIII, 13.
(5) Cant. II, 3.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico