Bem-aventurado o varão que permanecer na sabedoria, que meditar na sua justiça e que pensar com madureza na Providência de Deus (Ecl. XIV, 22).
Meditar é considerar sobre uma verdade divina para nos compenetrarmos bem dela. Temos obrigação de ordenar a nossa vida segundo as verdades de fé. mas se não estivermos possuídos delas, conformaremos com elas a nossa vida? Toda a verdade de que não estamos possuídos, é morta para nós; é como um campo coberto por uma névoa muito densa, que não nos deixasse descobrir nele coisa nenhuma.
Como é possível que o coração se aparte das coisas terrenas, se na meditação não se convenceu da vaidade das coisas do mundo, e do valor das do céu?
Como havemos de crescer no amor de Deus, se não aprofundamos cada vez mais na meditação das suas perfeições infinitas?
Como conformaremos a nossa vida com a de Jesus, se não temos constantemente diante de nós as suas sublimes virtudes?
A palavra de Deus falada e as boas leituras instruem a nossa alma nas verdades que levam à salvação; mas, se não meditarmos nelas, o fruto que tirarmos, será pouco duradouro. O que tu consideras atentamente, apodera-se do teu coração, grava-se nele mais profundamente, e transcende com mais facilidade para as obras.
Mas, porque é que há tão poucos cristãos, que fazem meditação?
Muitos dizem, que não têm tempo. É possível que alguns falem verdade. Mas, se encontras tempo para diversões, porque o não encontrarás para a consideração destas verdades?
Outros alegam que não sabem meditar. Mas não poderão aprender a fazê-lo, como aprendem tantas outras coisas? Não discorrem sobre os negócios temporais, sobre uma empresa que querem cometer, sobre interesses e assuntos artísticos? Não consideram as coisas debaixo de todos os seus aspectos, prevendo os obstáculos e pensando bem nos meios que hão de empregar para os vencer? E que é meditar, senão pensar, refletir?
Porque são tão poucas as jovens que fazem oração mental?
Parece-lhes muito difícil recolherem-se uns minutos a meditar. É certo que a juventude é leviana e inconstante; mas, a meditação se encarregará de corrigir este defeito. Nela encontrará o espírito aquele sossego necessário para se deixar compenetrar de pensamentos graves, celestiais e eternos.
Talvez a meditação nos seja difícil e trabalhosa.
É bem verdade que o recolhimento das três potências da alma exige um certo esforço; mas porque nos negaremos a ele, para bem da nossa alma? A meditação aborrece, dizem outros. Oh palavra insensata! Atrever-se uma alma a dizer ao seu Deus e Senhor: Retirai-vos (1), que a vossa presença cansa-me! Então há de ser para ti causa de aborrecimento investigar a verdade, conversar com Deus, e abismares-te na contemplação das suas perfeições?
Não! a verdadeira razão é que não se sentem à vontade quando se encontram a sós com Deus e consigo. Então vêm claramente o que são e o que deviam ser. Ouve, povo néscio, que não tens coração; vós que tendes olhos não vedes, e tendo ouvidos não escutais (2). Para que te servem esses olhos?
E eles amaram mais as trevas do que a luz (3).
Supondo que queres experimentar a meditação, que hás de fazer?
Primeiramente marca para este exercício uma hora determinada do dia, ainda que tenhas de te privar do sono.
Pensa na noite anterior, ou imediatamente antes de começares a oração, nos pontos sobre que vais meditar, fixando a matéria; lê alguma coisa acerca dela nalgum livro, e propõe de antemão o fruto que queres tirar da meditação.
Chegada a hora, recolhe-te no quarto ou na igreja; põe-te na presença de Deus e pede-lhe que te ilumine o entendimento e mova a vontade.
Depois discorre sobre o ponto que escolheste, quer seja uma verdade de fé, quer de moral, ou algum mistério ou passagem da vida de Jesus, ou o exemplo de algum santo.
Em primeiro lugar emprega a memória. Se o ponto escolhido é alguma sentença da Sagrada Escritura, vê qual é o seu sentido literal; se se trata dalgum passo ou acontecimento da vida de Nosso Senhor observa atentamente as pessoas e circunstâncias de lugar e de tempo, que nele concorreram.
Depois exercita também o entendimento, aprofundando a matéria, considerando so motivos, fazendo aplicações, tirando consequências, refletindo no passado, no presente e no futuro. Se algum pensamento te fizer impressão particular, detém-te nele e deixa-o atuar ativamente no teu espírito, ainda que nele empregues todo o tempo da meditação.
A este trabalho da memória e do entendimento, deve-se juntar o da vontade, a qual, abandonando-se aos afetos da alma, louva e bendiz, agradece, arrepende-se, faz bons propósitos e pede a Deus a graça de os cumprir. Os propósitos devem ser práticos e encaminhados a extirpar algum vício, ou a adquirir pouco a pouco o hábito dalguma virtude.
Quando o tempo da meditação estiver prestes a terminar dá livre curso ao coração para falar com Deus e com os seus santos. Deste modo os teus propósitos receberão nova consagração, cobrarás novo ânimo para servir a Deus, e tomarás resoluções santas, para o resto do dia.
Não te parece, querida jovem, que semelhante exercício seria muito proveitoso para ti?
mesmo que não pudesses meditar com método e ordem, não poderias recorrer a alguma obra piedosa ou livro de meditação, para empregares algum tempo numa leitura atenta e muito pausada de cada ponto, considerando depois no que tiveres lido, excitando afetos piedosos na tua alma, e fazendo algum bom propósito para aquele dia?
Oh Senhor! como é flagrante a verdade das Vossas palavras: Desolada está toda a terra, porque não há quem entre em si e considere no seu coração (4).
A razão porque o coração se encontra desolado é exatamente porque não medita.
Se o temor de Deus ainda não lançou em mim profundas raízes é porque quase me são estranhas as verdades eternas.
Se ainda não comecei deveras a amar a virtude, é porque não estou possuída da sua excelência, do seu valor e do prêmio que lhe está reservado no céu.
Faz pois, a experiência: emprega todos os dias na meditação um quarto de hora ao menos, e não duvides que a recompensa desta pequenina ocupação será eterna.
A Virgem Prudente, Pensamentos e Conselhos acomodados às Jovens Cristãs, por A. De Doss, S.J. versão de A. Cardoso, 1933.
(1) Job. XXI, 14.
(2) Jer. V, 21.
(3) Joan. III, 19.
(4) Jer. XII, 11.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico