Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Judas se enforca, pintura de James Tissot, entre 1886 e 1894, Museu do Brooklyn, Dominio Publico, Wikimedia Commons
Judas se enforca, pintura de James Tissot, entre 1886 e 1894, Museu do Brooklyn, Domínio Público, Wikimedia Commons

A Paixão do Senhor: Judas enforca-se

Judas, talvez pensasse que não chegaria a este ponto; que a astúcia dos sacerdotes não era para matar Jesus de verdade; pensava em um castigo menor ou um exílio. Ao saber que na noite anterior, na casa de Caifás, tinham-no condenado a morte e o Sinédrio confirmava a sentença, e que agora estava na presença de Pilatos para ser executado, desesperou-se. O demônio o tinha cegado para que traísse Jesus, agora o demônio fazia-o ver seu pecado, enchendo-o de inquietação e medo. Reconhecendo a culpa, que lhe afligia muito, podia ter chorado como Pedro diante do Senhor ou buscado apoio na Virgem Maria. Mas como sempre foi falso, mentiroso e dissimulado com Jesus, não soube achar o verdadeiro caminho. Não sofria por ter ofendido Deus, não desejava emendar-se e servi-lo, o seu remorso não o levou a uma verdadeira contrição, mas ao desespero, afogando-o no próprio pecado. A dor não era por amor a Deus, era egoísta, tinha se enganado e por isso os homens iriam odiá-lo.

Em primeiro lugar, procurou desfazer o péssimo negócio que tinha feito: devolvendo o dinheiro aos sacerdotes, para que não tivesse mais culpa no destino do Senhor. Foi ao encontro dos sacerdotes e no momento que acusavam Jesus, devolveu as trinta moedas, dizendo: Pequei, entregando o sangue de um justo (Mt 27, 4), não quero ficar com um dinheiro que me lance a culpa do padecimento deste homem. Não há desculpa pela maldade, a responsabilidade é toda de vocês. Eu menti, pois conheço e convivi com este homem e garanto que ele é santo! Se o vendi, foi por minha culpa, reconheço meu pecado renunciando o dinheiro que ganhei Não quero ficar com o preço deste homem! Tomem de volta o dinheiro!

Parece impossível que a confissão de Judas não tenha produzido nenhum sentimento nos sacerdotes. Tinha sido sincero, dito a verdade e devolveu o dinheiro. Mas estavam tão cegos e exaltados que, quando Judas disse que tinha vendido o sangue de um justo, responderam: Que nos importa? Isso é contigo!

Nefastos sacerdotes! Que resposta tão estúpida e maldosa. Mesmo com a confissão dizem que o pecado é somente de Judas e não os afeta. Mesmo com o dinheiro devolvido querem manter o acordo e, ao mesmo tempo, estar livre de toda culpa.

O dinheiro queimava as mãos de Judas, percebendo que não receberiam de volta as moedas de prata, atirou-as no templo. Desesperado, saiu e se pendurou numa corda; caiu de cabeça se arrebentando todo, espalhando suas entranhas. Tomou-se este fato conhecido dos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua deles Hacéldama, isto é, campo de sangue (At 1, 19).

Como não havia quem pudesse castigar o pecado de Judas, ele mesmo foi juiz e executor de sua pena. Nem a terra recebeu seu corpo, nem o céu a sua alma. Escolheu a morada dos demônios, onde sua alma foi apoderada, e o demônio sentou-se ao seu lado como advogado: Suscitai contra ele um ímpio, levante-se à sua direita um acusador. Quando o julgarem, saia condenado, e sem efeito o seu recurso (Sl 108, 6-7).

Judas foi o mais infeliz dos homens, a quem melhor seria não ter nascido! Por que não confiou na misericórdia de Deus? Por que não recordou como sempre o Senhor era misericordioso com todos? O pecado era grande, mas devia lembrar que quando resolveu vendê-lo Ele lavou os seus pés e lhe deu como alimento o seu corpo e o seu sangue; chamou-o de amigo. Infeliz Judas! Poderia ter recorrido a Virgem Maria. Com certeza, ela com sua bondade, teria ido contigo pedir o perdão a Cristo ressuscitado; ou mesmo na cruz poderia ter conseguido o perdão.

Judas, porque perdeu toda esperança? Podia esperar que o Senhor na cruz, mesmo sem ninguém pedir, intercedesse por todos, inclusive por você! Infelizmente as ações maldosas e o demônio o deixaram cego. Não olhava mais para o Senhor esperando misericórdia, o peso do pecado o afundou.

Os sacerdotes não quiseram receber de Judas o dinheiro, porque se o fizessem moralmente se veriam obrigados a soltar Jesus. Se para Judas a venda parecia um pecado, para eles parecia um ato piedoso; tomar o dinheiro do templo para matar um blasfemo, e assim honrar e prestar culto a Deus.

Quando Judas atirou a moedas no templo, os sacerdotes as recolheram para guardar, e depois decidirem o que fazer com elas. Depois da morte de Jesus, e sabendo do suicídio de Judas, pegaram o dinheiro, mas por ser preço de sangue não podiam colocá-lo de volta no gazofilácio. Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros (Mt 27, 7). Deste modo, os sábios doutores, para não perder o dinheiro, aceitaram como oferenda. Não pareceu errado tirar o dinheiro do templo para matar um homem, mas devolvê-lo parecia sacrilégio. Dissimulando a maldade, com aparente ato de piedade, os “santos e devotos” sacerdotes compravam um campo para os peregrinos. Mas Deus castigou-os, pois o povo lhe deu o nome de campo de sangue, e toda a vez que fosse citado, se recordaria do crime cometido.

A Paixão do Senhor, Luis de La Palma, 1624.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico