Concedei-me, Senhor, a graça de chegar a compreender alguma coisa da Vossa perfeição infinita.
1 – Jesus disse: “Sede perfeitos como o Vosso Pai celestial é perfeito” (Mt. 5, 48), e desse modo orientou os nossos olhares para a perfeição infinita de Deus. Perfeição da qual apenas podemos conhecer algum pálido reflexo através da consideração das perfeições limitadas que encontramos nas criaturas, mas que não podemos conhecer em si mesma, porque nenhuma ideia humana é capaz de abranger e exprimir o que é infinito. as ideias dizem-nos algo de Deus e das Suas perfeições infinitas, porém não no-Lo podem mostrar tal qual Ele é. Deus, adverte S, Paulo, “habita numa luz inacessível” (I Tim. 6, 16), luz que ultrapassa infinitamente a capacidade do entendimento humano, luz demasiado brilhante, demasiado resplandecente para ser fixada diretamente pelo olhar da nossa inteligência, à semelhança do sol que, em pleno fulgor estival, ultrapassa a capacidade da nossa vista de tal maneira que nenhum olhar humano pode fixá-lo.
Todavia Jesus, falando-nos repetidas vezes das perfeições de Deus, convidou-nos a elevar o nosso olhar para tais alturas. Ensinou-nos assim que, embora possamos entender muito pouco das perfeições divinas, este pouco não nos será inútil, mas, pelo contrário, muito precioso. Efetivamente, quanto mais uma alma avança no conhecimento de Deus, tanto mais compreender que é nada o que dEle sabe comparado com o que Ele é, e tanto mais descobre que, para além das suas ideias – por belas e elevadas que sejam – há um oceano infinito de esplendor, de beleza, de bondade, de amor, que nenhuma inteligência humana chegará jamais a compreender. Este conhecimento da imensidade de Deus, que ultrapassa infinitamente a capacidade do nosso entendimento, é uma grande graça. “Uma das grandes mercês – afirma S. João da Cruz – que Deus faz nesta vida a uma alma… é dar-lhe claramente a entender e sentir tão altamente de Deus, que entenda claro que Deus não se pode compreende nem sentir totalmente” (C. 7, 9). Graça sublime, que infunde na alma um sentido cada vez mais profundo da imensidade de Deus e da Sua transcendência infinita, e por isso, em compensação, faz-lhe compreender melhor o seu nada e a extrema limitação de qualquer perfeição humana.
2 – Só no céu nos será dado ver a Divindade “face a face”, sem o intermédio das ideias. Agora, como diz S. Paulo, “vemos como por um espelho, em enigma… Agora conheço-o em parte, mas então hei de conhecê-lo como eu mesmo sou conhecido” (I. Cor. 13, 12). Este conhecimento parcial de Deus – o único que na terra podemos ter – adquirimo-lo através do “espelho” das criaturas; nelas, com efeito, encontramos um reflexo das Suas perfeições infinitas: da Sua bondade, da Sua sabedoria, da Sua justiça, da Sua formosura; mas um reflexo muito imperfeito, muito limitado. Nenhum homem, por exemplo, é tão sábio que conheça tudo quanto existe; ninguém é tão bom que não falte alguma vez à bondade, por fraqueza; ninguém é tão justo que não falte alguma vez à justiça; por severidade e assim por diante. Só despojando as perfeições dos defeitos e dos limites que sempre têm as criaturas, podemos fazer uma pálida ideia das perfeições divinas. Deus é bom, sempre bom, infinitamente bom; “Um só é bom, Deus” (Mt. 19, 17), disse Jesus, dando a entender que só Ele possui a bondade por excelência, ou antes, que é a própria bondade, bondade sem limites que nunca declina nem falta.
Reflete pois, como te enganas quando te apegas a qualquer criatura: por mais formosa, boa, sábia que ela seja, a sua beleza, a sua bondade e sabedoria nada são comparadas às perfeições de Deus. S. João da Cruz vai mais longe e diz: “Toda a formosura das criaturas, comparada à infinita formosura de Deus, é suma fealdade… Toda a bondade das criaturas do mundo, comparada à infinita bondade de Deus, pode chamar-se malícia… Portanto, a alma que põe o coração nos bens do mundo, é sumamente má diante de Deus. E como a fealdade não pode alcançar a formosura, como a malícia não compreende a bondade, assim também essa alma não poderá unir-se a Deus que é a suma bondade e formosura” (cfr. S. I, 4, 4). Compreende assim que, se queres unir-te a Deus, não deves deixar o coração prender-se às belezas e qualidades das criaturas e que só em Deus podes pôr o teu afeto e a tua esperança sem receio de ficar desiludido.
Colóquio – “Quando chegaremos a Vós, ó fonte de sabedoria, a Vós, resplendor indefectível, a Vós, luz inextinguível, para Vos ver, não já como por um espelho ou em enigma, mas face a face? Então será saciado o nosso desejo, porque mais nada podemos desejar além de Vós, ó Senhor, sumo Bem. Ali veremos, amaremos e louvaremos; na Vossa claridade veremos a Vossa luz, porque junto de Vós está a fonte da vida e na Vossa claridade veremos a luz.
“Mas que luz? Luz imensa, luz incorpórea, incorruptível, incompreensível; luz indefectível, luz inextinguível, luz inacessível, luz incriada, luz verdadeira, luz divina que ilumina os olhos dos anjos, que alegra a juventude dos santos; luz que é fonte de toda a luz e de toda a vida, luz que sois Vós mesmo, ó Senhor meu Deus! Vós sois luz em cuja claridade veremos a luz, ou seja, a Vós em Vós, no esplendor do Vosso rosto, quando Vos virmos face a face.
“Ver-Vos, ó meu Deus, é toda a mercê, todo o prêmio, todo o gozo que esperamos. Esta é a vida eterna: que Vos conheçamos a Vós, único Deus verdadeiro… Então possuiremos o que buscamos, quando Vos virmos a Vós, único Deus verdadeiro, Deus vivo, onipotente, simples, invisível, incircunscrito, incompreensível.
“Ó Senhor meu Deus, não permitais que eu me distraia mais de Vós, mas recolhei-me das coisas exteriores em mim mesmo; dai-Vos a mim para que o meu coração Vos dia sempre: busquei a Vossa face, a Vossa face, Senhor, buscarei; a face do Senhor das virtudes, toda a glória sempiterna dos bem-aventurados; em ver a qual consiste a vida eterna e a glória sempiterna dos santos” (Sto Agostinho).
“Fazei-me compreender, Senhor, que a formosura e todos os demais dotes naturais são terra; que de lá vêm e à terra voltam; que a graça e o donaire é fumo e ar dessa terra e que, para não cair em vaidade, como tal os devo estimar. Em todas estas coisas ajudai-me a dirigir o coração para Vós com gozo e alegria, pensando que Vós sois e tendes em Vós todas essas formosuras e graças eminentíssimas e em grau infinito sobre todas as criaturas, as quais – com disse David – ‘tal como um vestido envelhecerão e perecerão, e só Vós permanecereis para sempre imutável'” (J.C. S. III, 21, 2).
Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico