De quantas maneiras exerceu e exerce Maria o seu ofício de Medianeira?
Maria exerceu e exerce o seu ofício de Medianeira universal de muitas e diferentes maneiras que podem reduzir-se a duas principais: cooperação na obra da Redenção humana durante a sua vida mortal, e intercessão atual no Céu. Neste ponto a mediação de Maria segue os mesmos passos que a rnediação de Jesus Cristo.
Jesus Cristo é Mediador entre Deus e os homens por dois títulos principais: porque nos resgatou com o Seu Sangue na terra, e porque advoga a nossa causa no Céu. Corno Redentor, mereceu-nos a graça, como Advogado, aplica-no-Ia e reparte-a.
De modo semelhante, Maria, associada à mediação de Jesus Cristo, cooperou com seu Filho na obra da Redenção, e junta agora suas orações à perene intercessão do seu Divino Filho.
Pode dizer-se que Maria cooperou com Jesus Cristo na obra da Redenção?
Pode e deve dizer-se com toda a propriedade e verdade que Maria cooperou com seu Divino Filho na obra da Redenção humana.
Quais são as razões para atribuir a Maria uma prerrogativa tão excelsa que parece exclusiva de Jesus Cristo?
Existem muitas e poderosas razões para se atribuir a Maria a sublime prerrogativa de cooperadora na obra da Redenção humana. A primeira e principal de todas é o testemunho da Sagrada Escritura, ao qual se deve ajuntar o ensinamento dos Santos Padres e Sumos Pontífices.
Onde é que a Sagrada Escritura afirma que Maria tomou parte ativa na Redenção do gênero humano?
Em diversos lugares, mas principalmente em dois: no capítulo terceiro do Gênesis e no capítulo primeiro do Evangelho de São Lucas.
Que diz o capítulo terceiro do Gênesis?
Este capítulo, na passagem antes citada, afirma explicitamente que Maria tomou parte ativa com Jesus Cristo na hostilidade, luta e vitória da sua descendência contra a serpente infernal. Ora, esta hostilidade, luta e vitória exprimem a vitória de Jesus Cristo sobre Satanás, isto é, sobre o pecado e a morte. Com o preço do Seu Sangue e da sua vida o Salvador resgatou o gênero humano da tirania e do cativeiro de Satanás; nisto consiste a Redenção operada por Jesus Cristo.
Por conseguinte, Maria, ao ser associada à hostilidade, à luta e à vitória de Jesus Cristo sobre a serpente infernal, ficou por isso mesmo intimamente associada à sua obra redentora.
Que diz São Lucas no capítulo I do seu Evangelho?
O capítulo I do seu Evangelho (v. 26-38) São Lucas refere como o Anjo Gabriel ofereceu a Maria ser Mãe do Filho de Deus, Messias prometido a Israel e Redentor do mundo, e como o Anjo requereu da parte de Deus o livre consentimento da Santíssima Virgem.
Deus, que na sua eterna presciência sabia que Maria, obediente à sua vontade daria humildemente este consentimento, não duvidou pôr nas mãos dela a execução dos seus desígnios eternos a favor da salvação dos homens. E Maria, ao dar livremente este consentimento, determinou a execução dos planos de Deus; no negócio da redenção humana disse, a nosso modo de falar, a última palavra que Deus estava aguardando para enviar seu Filho Unigênito, e que os homens ansiosamente esperavam para serem livres do pecado e da morte. Deste modo cooperou na obra da Redenção humana, como nenhuma outra pura criatura cooperou jamais nem pode cooperar.
Entendem os Santos Padres deste modo estes testemunhos da Sagrada Escritura?
Os Santos Padres, Doutores e Romanos Pontífices entendem no sentido exposto estas passagens da Sagrada Escritura. Citemos alguns dos numerosos testemunhos que se podiam alegar.
Santo Ireneu, combinando os dois testemunhos do Gênesis e de São Lucas, escreveu:
«Assim como por uma virgem desobediente foi o homem ferido, caiu e morreu, assim também por meio da Virgem, obediente à palavra de Deus, o homem recobrou a vida. Era justo e necessário que Adão fosse restaurado em Cristo, e que Eva fosse restaurada em Maria, a fim de que uma Virgem, feita advogada de uma virgem, apagasse e abolisse pela sua obediência virginal a desobediência de uma virgem» (1).
Santo Efrém expressa repetidas vezes este mesmo pensamento, por exemplo quando escreve:
«O Anjo desceu do Céu e falou à Santíssima Virgem; começou-se a tratar da reconciliação, concertou-se o tratado de paz. Em vez da serpente apresentou-se Gabriel e em vez de Eva a Virgem Maria. Com as palavras que dirigiu a Maria, Gabriel desfez as palavras que o execrável homicida dirigiu à virgem Eva. Eva assinou a escritura da dívida; a Santíssima Virgem pagou a dívida. Eva tinha caído, Maria levantou-a de novo» (2).
São João Damasceno faz-se eco da tradição por estas palavras:
«Eva tornou-se culpável de prevaricação, e por ela entrou a morte no mundo: Maria, dando o seu assentimento e sujeitando-se à vontade de Deus, enganou a serpente enganadora» (3).
São Vicente Ferrer, exprime-se do mesmo modo:
«Conhecia Deus desde toda a eternidade que havia de existir uma mulher, Eva, que seria princípio e causa de todo o mal. Por isso resolveu criar uma mulher, a Virgem Maria, que havia de ser a causa e princípio de todo o bem. Uma vez que a primeira se inclinou diante do demônio, quis que a segunda se inclinasse diante do Anjo e consentisse na sua palavra» (4).
Mas ninguém mais belamente exprimiu este pensamento que o melífluo Doutor São Bernardo. Eis algumas das suas expressões:
«Ouvistes, ó Virgem, o Anjo aguarda a vossa resposta; nós também esperamos. O preço da nossa salvação está nas vossas mãos: se consentis, seremos salvos. Eis o que o mundo inteiro, prostrado a vossos pés, de Vós espera. Das vossas palavras está pendente a salvação de todos os filhos de Adão» (5).
Finalmente o Papa Leão XIII (6) escrevia a toda a Igreja nestes termos:
«Querendo o Filho Eterno de Deus, para Redenção e honra do homem, revestir a sua natureza e contrair com o gênero humano uns desposórios místicos, não pôs por obra os seus desígnios senão depois de ter obtido o pleno e livre consentimento da que havia escolhido para Mãe, a qual representava, em certo modo, o gênero humano, conforme àquela luminosa e acertadíssima sentença do Doutor Angélico: no dia da Anunciação era esperado o consentimento da Santíssima Virgem em lugar de toda a natureza humana (7).
Teve Maria alguma parte ativa no sacrifício da Cruz?
Além do consentimento que Maria deu à Incarnação do Redentor, consentimento ao qual Deus tinha vinculado a realização dos seus planos de salvação, Maria tomou uma parte ativa muito especial no sacrifício sangrento que Jesus na Cruz ofereceu ao Eterno Pai pela Redenção dos homens.
Não é próprio e exclusivo de Jesus Cristo ter morrido pela salvação dos homens?
É certo que só Jesus Cristo resgatou os homens com o preço do seu preciosíssimo Sangue, e que este preço era suficientíssimo e superabundante para a Redenção do gênero humano; Jesus Cristo não tinha necessidade do auxílio de nenhuma criatura para realizar a sua obra redentora. Mas também é certo que o Eterno Pai decidiu que Maria cooperasse, à sua maneira, na obra da Redenção, e Jesus Cristo quis que sua bendita Mãe fosse associada à sua obra redentora, e tivesse parte ativa no sacrifício que oferecia pela Redenção do gênero humano.
De que maneira Maria tomou parte ativa no sacrifício da Cruz?
Para compreender que parte teve Maria no sacrifício da Cruz convém considerar em que consiste este sacrifício do Redentor.
Duas coisas podemos considerar no sacrifício de Jesus Cristo: por uma parte a sua morte dolorosa e ignominiosa, e por outra o oferecimento que desta morte fez ao Eterno Pai com perfeita obediência e ardente amor; por outras palavras: a imolação do seu Corpo e a oblação do seu Coração. Ora tanto na imolação como na oblação teve Maria uma parte especialíssima, como a não teve jamais nem pode ter outra pura criatura.
Teve parte na imolação:
1) porque a carne e o sangue da vítima divina era carne e sangue de Maria, que com livre e amorosa vontade lhos tinha dado precisamente para serem sacrificados pela salvação dos homens;
2) porque Maria, como Mãe, tinha direitos maternais sobre Jesus Cristo, aos quais renunciou, consentindo com inefável caridade que seu Filho morresse pelos homens;
3) porque as dores e a morte que padecia o Filho, repercutiam no coração da Mãe, a qual padecia em seu Coração todas as dores e tormentos que seu divino Filho padecia no corpo: podendo dizer-se com toda a verdade que Maria morria espiritualmente crucificada na Cruz do Redentor. Teve também parte na oblação de Jesus Cristo:
1) porque unindo o seu Coração ao Coração de seu Filho, oferecia cheia de fé, amor e obediência, ao Pai Celestial os sofrimentos e morte da Vítima imolada pela salvação dos homens;
2) porque oferecia a Deus com os mesmos sentimentos o martírio espiritual do seu próprio Coração. E o Pai Celestial que tinha requerido esta oblação e imolação de Maria, aceitou-as benignamente unidas à imolação e oblação de Jesus Cristo pela salvação do gênero humano.
Como se explica que tendo Maria necessidade de ser resgatada, pudesse ao mesmo tempo cooperar na Redenção dos homens?
É verdade que Maria teve de ser resgatada pelo sangue de Jesus Cristo, como os outros homens. Mais ainda: Maria foi a que mais copiosamente do que ninguém participou dos benefícios da Redenção; é ao Sangue e aos méritos de Jesus Cristo que ela deve ter sido elevada à eminente dignidade de Mãe de Deus.
Não obstante, Deus na sua infinita sabedoria, bondade e poder, quis e pôde fazer que Maria, apesar de ser remida, pudesse cooperar na Redenção dos homens.
Ainda que este mistério da divina sabedoria excede a nossa inteligência limitada, podemos contudo formar dele uma ideia aproximada. Porque assim como Maria foi preservada do pecado original em virtude dos méritos antecipados do Redentor, assim também em virtude destes mesmos méritos pôde ser associada à obra da Redenção. Ou antes: Maria foi a primeira a participar dos frutos da Redenção, e uma vez resgatada, pôde cooperar na redenção dos outros homens.
Pondo de lado subtilezas de escola, é um fato verdadeiro que, quando a obra da Redenção se consumou, já Maria tinha sido preservada do pecado original e cumulada de graça e santidade, o que a punha em estado e disposição de cooperar na obra da Redenção humana.
A cooperação de Maria na Redenção humana consta na Sagrada Escritura e na tradição?
Sim, uma e outra atestam esta cooperação.
Pelo que toca à Sagrada Escritura, basta recordar a promessa do Redentor no capítulo III do Gênesis, várias vezes mencionado. Ali se diz que a serpente, vencida e esmagada pelo Redentor morderá, por sua vez, a planta do pé que a há de esmagar.
Esta mordedura representa a morte sangrenta do Redentor. Ora, como Maria foi associada à vitória do Redentor, também o foi à sua morte, condição da vitória. Mais ainda: Deus disse à serpente: «Ela te esmagará a cabeça, e tu morderás o seu calcanhar».
Alguns intérpretes aplicam estas palavras à descendência da Mulher, mas outros muitos, como São Jerônimo na Vulgata que usa a Igreja, aplicam-nas diretamente à mesma Mulher. De todos os modos, direta ou indiretamente, sempre Maria participa da morte do Redentor.
Pelo que toca à tradição dos Santos Padres, são inúmeros os seus testemunhos. Eis ainda outros, além dos já citados.
Santo Ireneu escrevia:
«O gênero humano, sujeito à morte por uma virgem, foi salvo por outra Virgem» (8).
O gênero humano salvo por Maria!. . . Será possível exprimir com maior ênfase a parte de Maria na salvação dos homens?
Assim o afirmava no século II Santo Ireneu, o Padre por antonomásia da tradição cristã.
Santo Efrém fala inumeráveis vezes e com grande encarecimento da parte que Maria teve na Redenção dos homens. Diz por exemplo:
«Eva contraiu o pecado; à Santíssima Virgem ficou reservado pagar a dívida de sua mãe e rasgar a escritura de condenação que oprimia todas as gerações (9). E não duvida apelidar Maria «redenção dos nossos pecados» (10), «preço do resgate dos cativos» (11) , «paga dos nossos delitos» (12).
Ouçamos os Doutores da idade média: Arnaldo diz que no Calvário «havia dois altares: um no Coração de Maria, outro no Corpo de Jesus Cristo. Cristo imolava a sua carne, Maria a sua alma» (13).
E Santo Alberto Magno:· «Companheira na Paixão, Maria tornou-se cooperadora na Redenção» (14).
São Bernardo diz que o Filho de Deus «querendo resgatar o gênero humano, depôs o preço do resgate nas mãos de Maria» (15). Santo Antonino de Florença ajunta que Maria foi dada a seu Filho como cooperadora na Redenção mediante a sua participação suma na Paixão (16).
Entre os Romanos Pontífices, notemos Pio X:
«Maria, diz, associada à obra da salvação humana, mereceu-nos de congruo o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno (17).
Sua Santidade Pio XI dizia pouco depois da sua elevação ao sólio pontifício:
«A Virgem Dolorosa participou com Jesus Cristo na obra da Redenção» (18).
Bento XV escrevia: «De tal modo Maria padeceu e quase morreu com seu Filho paciente e moribundo, de tal modo renunciou aos seus direitos maternos, e, para aplacar a justiça divina, concorreu quanto estava da sua parte para a imolação de seu Filho, que justamente se pode dizer, que com Jesus Cristo resgatou o gênero humano» (19).
Finalmente Pio XII: «Foi Ela que, isenta de toda a mancha pessoal e original, unida sempre estreitissimamente com seu Filho, O ofereceu no Gólgota, como nova Eva, ao Eterno Pai juntamente com o holocausto dos seus direitos maternais e do seu materno amor, por todos os filhos de Adão manchados pelo mesmo deplorável pecado» (Encicl. «Mystici Corporis» A. A. S. 35 ( 1943) 247).
Em virtude desta cooperação, pode-se dar a Maria o título de Corredentora dos homens?
É muito justo e louvável que os cristãos honrem a Maria com o título glorioso de Corredentora pela parte que teve na Redenção. Este título não significa que Maria nos resgatou como Jesus Cristo com os seus próprios méritos: mas quer dizer simplesmente que por uma disposição divina cooperou na Redenção, não dum modo necessário e suficiente, mas secundário, subalterno, dependente em tudo dos méritos de Jesus Cristo.
Por outra parte, desde o século IV pelo menos, não só o povo fiel, mas também muitíssimos Santos, Bispos e Doutores têm dado a Maria este glorioso título.
E a própria Congregação do Santo Ofício, tão zelosa como é em condenar toda a novidade suspeita, não só não reprovou este título, senão que várias vezes o sancionou com a aprovação de Pio X (20).
Será prudente abster-se deste título para não irritar os protestantes que se escandalizam dele?
O escândalo real ou fingido dos protestantes não deve impedir os católicos de render à Mãe de Deus a honra que merece. Também os protestantes se escandalizam do título de Medianeira, e em geral da devoção dos fiéis à Mãe de Deus: e nem por isso é justo nem prudente mutilar cobardemente a verdade por medo aos escândalos farizaicos dos que estão obcecados pelo erro.
E não há perigo de que alguns católicos menos ilustrados entendam mal o título de Corredentora?
Se os católicos ignorantes compreendem mal o título de Corredentora, o remédio não está em suprimi-lo, mas em explicá-lo.
Não se dissipa a ignorância escondendo a verdade, mas expondo-a com toda a clareza.
Esta cooperação de Maria na obra da Redenção pode chamar-se propriamente universal?
A cooperação de Maria na obra da Redenção humana é com toda a propriedade uma mediação universal; e tanto, que ela só bastaria para assegurar a Maria esta gloriosa prerogativa.
Com efeito, esta cooperação é verdadeira mediação, pois por ela Maria intervém entre Deus e os homens, para obter para eles o perdão e para os reconciliar com Deus.
É, além disso, universal, visto ter por objeto a economia íntegra da graça, e compreender todo o gênero humano.
Depois, esta cooperação é uma como associação à Redenção de Jesus Cristo.
Ora, tanto São Paulo como Santo Tomás chamam a Jesus Cristo Mediador, precisamente enquanto é Redentor; logo a associação à Redenção é participação da mediação.
Portanto chamar a Maria Corredentora é o mesmo que aclamá-la Medianeira universal.
Maria Medianeira de Todas as Graças, pelo Padre José M. Bover, S. J. Tradução de Manuel Batista, S. J., 1957.
(1) Ir. Demonstr. Apostol. Praedicationis Vers. Weber, pag. 59-60.
(2) Ephr. Lamy 3, 976-978.
(3) Damasc. M. G. 96, 671.
(4) Vinc. Ferr. Serm. in fest. Concept. B. M. V.
(5) Bern. M. L. 183, 83-84.
(6) Leão XIII, «Octobri mense» 22 Sept. 1891.
(7) Thom. 9, 9. 30, a. I.
(8) Ir. M. G. 7. 1175.
(9) Ephr. Lamy, 3, 980.
(10) Ephr. Ass. gr. 3, 525.
(11) 7phr. Ass. gr. 3, 546.
(12) Ephr. Ass. gr. 3, 535.
(13) Arnal. M. L. 189, 1694.
(14) Alb. M. Marial. q. 29. § 2.
(15) Bern. M. L. 183, 441.
(16) Antonin. Summ. p. tit. 15, cap. 44, § 9.
(17) Plus X «Ad diem illum», 2 febr. 1904.
(18) Pius XI «Explorata res» 2 Febr. 1923.
(19) Bened. XV «Inter sodalicia» 22 de Mart. 1918.
(20) Act. Ap. Sed. 5 (1913) 364-365; 6 (1914), 108-109.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico