Pode dizer-se com verdade que Maria é Mãe dos homens?
Sim, com toda a verdade e propriedade se diz que Maria é Mãe espiritual de todos os homens, especialmente dos fiéis cristãos.
Esta maternidade espiritual de Maria tem alguma relação com a sua mediação universal?
Sim, tem entre si muitas relações:
1ª. – Esta maternidade é um título à mediação;
2ª. – Por si mesma constitui uma verdadeira mediação;
3ª. – Nos seus diversos aspectos, a mediação de Maria é uma atuação da sua maternidade espiritual;
4ª. – Esta maternidade dá o seu caráter próprio à mediação de Maria e faz que seja mediação de mãe ou mediação maternal.
Em que nos fundamos para afirmar que Maria é Mãe dos homens?
Chamamos a Maria Mãe dos homens, porque assim no-lo testifica a Sagrada Escritura e assim o ensinam os Santos Padres, Doutores e Soberanos Pontífices.
Que nos ensinam a Sagrada Escritura e a Tradição sobre a maternidade espiritual de Maria?
O que a Sagrada Escritura e a Tradição nos ensinam sobre a maternidade de Maria, reduz-se a dois pontos principais:
1) Que Maria ao gerar Jesus Cristo na Incarnação, gerou juntamente com Ele todos os homens à vida da graça;
2) Que Maria ao pé da Cruz foi declarada e como que promulgada pelo Redentor moribundo Mãe de toda a Humanidade regenerada.
Como é que Maria na Incarnação gerou espiritualmente todos os homens?
Um dos mistérios mais consoladores da doutrina cristã é a inefável incorporação de todos os homens em Jesus Cristo.
O Filho de Deus dignou-se abraçar todos os homens e uni-los a si estreitamente, de modo que formam um só corpo, um só organismo vivo de que Ele é a cabeça e os homens os membros: organismo divino, cujo espírito é o Espírito de Deus, e cuja vida é a vida divina.
Em virtude desta comunhão vital, os membros são elevados ao ser e propriedades da sua divina Cabeça.
Filho de Deus é Jesus Cristo, e filhos de Deus são os homens;
Filho de Abraão é Jesus Cristo, e filhos de Abraão são os homens;
Filho de Maria é Jesus Cristo, e em Jesus e com Jesus filhos de Maria são os homens.
Não é aqui o lugar de referir as passagens da Escritura e citar os testemunhos dos Santos Padres que expõem esta doutrina. Limitemo-nos a alguns exemplos.
Já Santo Ireneu chamava a Maria: «A Virgem que nos regenerou para Deus» (1).
Santo Epifânio e São Pedro Crisólogo chamam-na: «Mãe dos que vivem pela graça» (2).
Santo Agostinho diz que foi «Mãe natural da Cabeça e Mãe espiritual dos membros» (3).
São Leão Magno ajunta: «A geração de Jesus Cristo é a origem do povo cristão, e o nascimento da Cabeça é o nascimento de todo o corpo» (4).
Santo Alberto Magno diz que Maria gerou um só Filho natural, no qual regenerou espiritualmente todos os filhos» (5); porque, ajunta noutro lugar, «o Senhor uniu-os a si nas entranhas da Virgem» (6). E assim falam outros muitos Santos Padres e Doutores.
Sua Santidade Pio X expôs admiravelmente esta doutrina na Encíclica dirigida a todos os fiéis por ocasião do cinquentenário da definição dogmática da Imaculada Conceição. Eis algumas das suas expressões:
«No mesmo seio de sua castíssima Mãe Cristo não só tomou a carne que uniu a si hipostaticamente, mas além disso, assumiu um corpo espiritual, formado por todos aqueles que haviam de crer nEle; de modo que se pode dizer que, tendo Maria em seu seio o Salvador, trazia também todos aqueles cuja vida estava encerrada na vida do Salvador.
Todos, pois, quantos estamos incorporados em Jesus Cristo, do seio de Maria nascemos à maneira do corpo unido à sua Cabeça; pelo que de um modo espiritual e místico, mas verdadeiro, somos chamados filhos de Maria, e ela é Mãe de todos nós» (7).
Que significam as palavras de Jesus Cristo moribundo a Maria: «Mulher, eis aí o teu Filho»?
Quando Jesus, ao morrer, disse a Maria «Mulher, eis aí o teu Filho», e depois ao discípulo amado «eis aí a tua Mãe», não só encomendou Maria aos cuidados filiais de São João, mas além disso, declarou solenemente todos os fiéis representados no discípulo amado, filhos de Maria, e Maria Mãe de todos os fiéis. Para mostrar esta doce verdade, basta, entre os testemunhos abundantes que se poderiam alegar, o do grande Pontífice Leão XIII, que os resume todos:
«O mistério do amor soberano de Cristo pelos homens aparece esplendidamente, quando ao morrer quis deixar sua Mãe a seu discípulo João naquele testamento memorável: Eis aí o teu filho.
Na pessoa de João, segundo o sentir constante da Igreja, quis Jesus Cristo designar o gênero humano, principalmente os que se unissem a Ele pela fé» (8).
E noutro lugar ajunta: «O Pai celestial comunicou a Maria sentimentos profundamente maternos, que não respiram outra coisa senão amor e perdão.
Tal a proclamou Jesus Cristo desde a Cruz, quando na pessoa de seu discípulo João encomendou aos seus cuidados e carinhos todo o gênero humano; tal se mostrou Ela mesma, quando abraçando com generosa magnanimidade aquela herança de imensos trabalhos, que lhe tinha legado seu Filho moribundo, começou logo a exercer com todos o ofício de Mãe.
Este desígnio de tão doce misericórdia realizado em Maria por Deus e ratificado pelo testamento de Jesus Cristo, foi desde o princípio entendido e acolhido com suma alegria pelos Santos Apóstolos e primeiros fiéis; entenderam-no também e ensinaram-no os venerandos Padres da Igreja, e todas as gerações cristãs o confirmaram com o seu unânime consentimento. E ainda mesmo que viesse a apagar-se toda a lembrança e se calassem todos os documentos escritos, proclamá-lo-ia eloquentemente não sei que voz que espontaneamente estala do peito de todo o cristão» (9).
Pode chamar-se adotiva esta maternidade de Maria?
Só dum modo impróprio e imperfeito se pode chamar adotiva a maternidade espiritual de Maria.
Com efeito, a adoção recai em pessoas estranhas, e nós não somos estranhos a Maria, visto que dela nascemos espiritualmente em Jesus Cristo. Mesmo no Calvário Jesus Cristo não criou ou instituiu a maternidade de Maria, mas declarou ou promulgou solenemente a maternidade já existente; começada na Incarnação, devia consumar-se ao pé da Cruz do Redentor, quando a Virgem Corredentora dava à luz dolorosamente a Igreja, corpo místico de Jesus Cristo.
Diz Santo Alberto Magno: «No tempo da Paixão, Maria, por aquela fecundidade espiritual que a fez Mãe espiritual de todo o gênero humano, regenerou-nos a todos entre dores de parto para a vida eterna» (10).
E Leão XIII: «A Virgem Santíssima é Mãe de todos os cristãos, visto que os gerou no monte Calvário entre os supremos tormentos do Redentor» (11). Por isso, a maternidade de Maria não deve chamar-se simplesmente adotiva, mas espiritual.
Nem se diga que por ser espiritual, é fictícia ou metafórica esta maternidade: a ordem sobrenatural ou espiritual tem uma realidade, uma verdade objetiva mais real e verdadeira que a ordem natural.
Em que sentido esta maternidade espiritual é título à mediação universal?
A maternidade espiritual é para Maria um título que a faz singularmente idônea para o ofício de Medianeira universal.
Porque sendo Maria juntamente Mãe de Deus e Mãe dos homens, ocupa uma situação privilegiada, pelo valimento de que goza diante de Deus e pelo amor maternal com que se interessa pelos homens. E como esta maternidade é universal, já com relação aos homens já com relação à graça, segue-se que a mediação nela fundada deve ser necessariamente universal.
Mas além disso esta maternidade não é somente um título, que faz Maria credora da dignidade de Medianeira universal; ela é já em si mesma uma mediação universal.
Por que é que a maternidade de Maria é, por si mesma, uma mediação universal?
Esta maternidade é já por si mesma verdadeira mediação, e mediação universal, porque Maria aceitou livremente esta maternidade por amor dos homens, para que tornando-se seus filhos, renascessem espiritualmente filhos de Deus.
«Maria, diz Santo Agostinho, é Mãe espiritual dos membros de Jesus Cristo, porque cooperou com a sua caridade para que os fiéis nascessem na Igreja» (12).
De modo que, como a nossa filiação a respeito de Maria é a nossa regeneração espiritual, na qual estão contidas todas as graças que recebemos, assim inversamente a maternidade de Maria é princípio universal de todas as graças que preparam, integram e aperfeiçoam a nossa filiação divina.
E como o princípio supremo e principal da graça é Deus, segue-se que a maternidade de Maria ocupa um lugar intermédio entre Deus e a graça, é um instrumento da ação divina em ordem à produção da graça: é portanto verdadeira mediação, e mediação universal.
Por outras palavras: a maternidade de Maria, integralmente considerada, inclui o seu livre consentimento e o inefável amor dos homens que a moveu a aceitá-lo: e este livre e amoroso consentimento, termo e resultado das negociações (a nosso modo de falar) entre Deus e Maria, é uma verdadeira intervenção de Maria entre Deus e os homens em ordem à realização do plano divino sobre a Redenção humana: é portanto verdadeira mediação e mediação universal. Mais ainda: a mediação de Maria encerra em si todos os aspectos da mediação universal.
Como é que a maternidade de Maria encerra em si todos os aspectos da mediação universal?
A maternidade de Maria encerra em si todos os aspectos da mediação universal, porque esta mediação é uma atuação ou função da maternidade. Para nos convencermos disso, basta considerar os dois principais aspectos da mediação, que são: corredenção e intercessão atual.
Na corredenção intervém Maria como Mãe, que com seu amor, dores e merecimentos regenera para Deus e para a vida eterna os filhos dos homens.
Na intercessão atual intervém Maria como Mãe, que se interessa por seus filhos e roga a Deus incessantemente por eles.
Também sob os aspectos secundários de Advogada dos pecadores, Protetora dos Cristãos e Dispensadora das graças, intervém sempre Maria como Mãe, que defende a causa de seus filhos, os protege contra os demônios, e administra os bens da família de Deus formada por seus filhos.
Esta última consideração é talvez a que dá a entender mais claramente a conexão entre a maternidade de Maria e a sua mediação universal.
Como é que a dispensação das graças confiada a Maria mostra a conexão entre a sua maternidade e a sua mediação universal?
Segundo os ensinamentos de São Paulo, todos os fiéis formam uma casa ou família, na qual Deus é o Pai, Jesus Cristo é o Primogênito, nós os filhos do Pai, irmãos de Cristo, herdeiros nEle, com Ele e por Ele dos bens eternos de Deus.
O governo desta família pertence à Providência sobrenatural do Pai que está no Céu.
Ora Maria é a Mãe desta família, e como tal, pertence-lhe a administração da casa, o sustento e o cuidado dos filhos, sob a direção suprema do Pai.
Esta administração é uma atuação da sua maternidade, uma função maternal.
Por outra parte, é uma participação de Maria na Providência sobrenatural com que Deus governa a sua família.
A posição intermediária de Maria entre o Pai e os filhos faz da sua ação maternal uma verdadeira mediação; e como a Providência sobrenatural do Pai se estende evidentemente a toda a economia da graça, segue-se que a associação de Maria a esta Providência é uma mediação universal.
Finalmente, que ajunta a tudo o que está dito o caráter maternal da mediação de Maria?
A mediação de Maria não só está fundada na sua maternidade e é uma atuação ou exercício desta mesma maternidade, mas recebe dela o seu selo característico e tom maternal.
Maria não se contenta com exercer a sua mediação porque é Mãe; mas além disso exerce-a como Mãe amorosa, com coração maternal, com aquela solicitude e desvelos que só as mães sabem ter com os filhos do seu amor e das suas entranhas. Daí a doçura e a amabilidade da mediação de Maria, e por outro lado a terna confiança que esta mediação inspira a todos os que sentem no coração uma centelha de amor filial à sua Mãe do Céu.
Maria Medianeira de Todas as Graças, pelo Padre José M. Bover, S. J. Tradução de Manuel Batista, S. J., 1957.
(1) Ir. M. G. 7. 1080.
(2) Epiph. M. G. 42. 727-728. Chrysol. M. L. 52, 576-577.
(3) Aug. M. L. 40. 399.
(4) Leão M. M. L. 54. 213.
(5) Alb. M. Marial. q. 1 79.
(6) Alb. M. In Luc. 1, 28
(7) Pius X. «Ad diem illum». 2 febr. 1904.
(8) Leão XIII, «Adiutricem populi», 5 Sept. 1895.
(9) Leão XIII. «Octobri mense», 22 Sept. 1891.
(10) Alb. M. Marial. q. 29, § 3.
(11) Leão XIII, «Quanquam pluries» 15 Aug. 1889.
(12) Aug. M. L. 40, 399.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico