A verdade primária e fundamental da religião é que o nosso fim, neste mundo, é glorificar a Deus salvando as nossas almas: é este o nosso único alvo, o nosso único negócio. Todas as outras coisas não têm valor senão pela sua relação com esta, e por conseguinte devemos usar ou abster-nos delas, segundo nos aproximem ou nos afastem do nosso fim último. Partindo deste princípio fundamental, e combinando-o com o preceito do amor de Deus e do próximo, chegamos a esta conclusão: que é nosso dever procurar a glória de Deus na salvação da nossa. É evidente que se amamos a Deus, somos zelosos da sua glória, e tanto mais intenso será o nosso amor quanto maior for o nosso zelo. Quando tomamos a peito qualquer empresa, entregamo-nos a ela com afinco e perseverança. Do mesmo modo, quando um homem ama a Deus com paixão, todas as suas idéias convergem para um ponto fixo e único, vê tudo por um só prisma, considera o comércio e as outras profissões da vida como outros tantos inconvenientes, que é necessário suportar, mas que o distraem da sua única obra. Busca em toda a parte e em todas as coisas a glória de Deus. É este o seu último pensamento à noite, e o primeiro de manhã ao despertar. Se alcança algum crédito, alguma autoridade, alguma influência, a primeira coisa que faz é perguntar a si mesmo: “Que uso poderei fazer disto para glória de Deus?” Se lhe sobrevém qualquer infortúnio, é ainda esta a sua primeira pergunta. Se recebe alguma herança, é igualmente este o seu primeiro cuidado. Interessa-o muito tudo quanto diz respeito à Igreja ou aos pobres, a educação da infância, a extirpação do vício, porque em todas estas coisas a glória de Deus se acha grandemente interessada.
Tornemos isto mais claro por meio dum exemplo: um homem do mundo lança a vista a esse imenso sistema de caminhos de ferro e navios a vapor, que rodeia o globo como uma rede. Calcula-lhe os resultados prováveis para os governos e constituições dos povos, par a a literatura, para o comércio e para a civilização. Este problema absorve-o completamente. O homem de Deus, em presença do mesmo espetáculo, pensa quanto este sistema vai favorecer as empresas dos missionários, pensa na aproximação dos católicos, na facilidade das relações com a Santa Sé, o que constitui a liberdade da Igreja; numa palavra, calcula todas as vantagens, que destas relações e de mil outras semelhantes, a glória de Deus poderá fruir pela invenção do vapor. A um homem que se entregou à política, que se alistou sob uma bandeira, quer seja a do governo, quer a da oposição, tudo quanto se apresenta à sua vista se lhe mostra sob o aspecto da causa que abraçou. Encara sob este único ponto de vista o estado das searas, as probabilidades duma má colheita, as relações com o estrangeiro, as dificuldades internas, a parede dos operários, as bulas do Papa, e diz consigo mesmo: “Qual será a influência destes diversos elementos na causa que sirvo?” O mesmo se ´dá com o homem que ama a Deus, avalia todas as coisas pela relação que podem ter com a glória de Deus. Não quero dizer que nisto pense incessantemente, e que a sua atenção esteja sempre fixa neste ponto; isto seria quase impossível, quase superior à natureza humana. Mas quero dizer que é o seu pensamento predileto, ao qual volta a cada instante, como faz quem ama apaixonadamente ou deseja ardentemente uma coisa.
Ora isto não é muito penoso nem obriga a nenhuma austeridade. Podemos começar sossegadamente, sem nos fatigarmos, e pouco a pouco este hábito se formará e se desenvolverá, como acontece com todos os outros hábitos. Dirijamos a Deus, todas as manhãs, uma breve oração, para que nos conceda o amor da sua glória e luz para a encontrarmos. Além disso, renovemos duas vezes por dia a intenção de não fazermos coisa alguma que não seja para glória sua. Peçamos esta graça nas nossas comunhões, no fim do nosso rosário e nos nossos exames de consciência. Esquecemo-nos de o fazer algumas vezes? Não nos aflijamos por isso; o hábito se formará afinal. O próprio Deus virá em nosso auxílio dum modo admirável, quando houvermos perseverado nesta prática alguns meses, mas não antes. Fixai bem isto na memória, pois é este o seu proceder ordinário: Ele espera um pouco para ver se nós perseveramos. Sem dúvida nos auxilia sempre, mas geralmente não concede logo graças assinaladas. Nada há de penoso em tudo isto, e não obstante, se fôssemos fiéis a esta prática, quanto não encurtaria ela a distância que nos separa dos santos! E quanto não favoreceria os interesse de Jesus!
Tudo por Jesus ou Caminhos Fáceis do Amor Divino pelo Rev. Padre Frederico Willianm Faber, Superior do oratório de S. Philippe de Nery de Londres, Doutor em Teologia, Cap II, pr. II, 1854.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico