Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
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Sebastián de Llanos y Valdés : Santa monja em oração, cerca de 1625 a 1677, Museo Lázaro Galdiano - Wikimedia Commons

Confiança e abandono

Nas Vossas mãos, Senhor, me abandono com plena confiança.

1 – “Há muitos que desejam passar diante [no caminho espiritual] e com grande continuidade pedem a Deus que os traga e passe a este estado de perfeição, [o estado de união], e quando Deus os quer começar a levar pelos primeiros trabalhos e mortificações, como é necessário, não querem passar por elas e furtam o corpo, fugindo do caminho estreito da vida e buscando o largo do seu regalo” (J.C. CV. 2, 27). Este é o motivo pelo qual muitas almas não chegam à união com Deus: não querem seguir o caminho da cruz, o único que a ela conduz. Também tu desejas chegar à união divina, mas talvez pensasses poder alcançá-la indo por um caminho cômodo, luminosos, risonho, pelo caminho dos êxitos em que se avança de vitória em vitória, se gozam abundantes consolações espirituais e se encontram o aplauso, o apoio, a estima das criaturas. Mas agora compreendeste certamente que é preciso tomar um caminho bem diferente: um caminho estreito, escuro, em que a alma descobre toda a sua miséria, experimenta toda a sua impotência e carece do conforto de Deus e dos homens. Pois bem, tens de te sujeitar a este caminho durante o tempo que Deus entender. Quantos meses, quantos anos serão precisos? Só Deus o sabe. Muitas vezes detêm longamente as almas na tenebrosa noite do espírito; pode dizer-se com razão que, em geral, mesmo depois de ultrapassada as principais etapas, existe sempre um pouco de noite enquanto se viver na terra. A solução mais prudente que deves adotar é a de te entregares por completo às disposições divinas sem fixares limites nem à duração nem ao gênero de provas. Deus sabe o que mais te convém; Ele que conhece perfeitamente a fraqueza e as necessidades do teu espírito, saberá dosear o tratamento apropriado para curar os teus males. Não tenhas pressa, mas muita paciência e assim não te exporás a desilusões. Que a tua paciência seja longânime e confiante, porque se tata de sofrer, é verdade, porém estes sofrimentos não te vêm de um inimigo, mas sim do teu maior amigo, Deus, que te ama muito acima daquilo que tu te podes amar a ti mesmo, que deseja o teu bem, a tua felicidade, que quer a tua santificação muito mais do que tu mesmo a podes querer. Confia nEle e não serás confundido; confia, de olhos fechados, e nada terás a temer.

2 – Os momentos mais apropriados para demonstrares a Deus que confias cegamente nEle, que queres abandonar-te a Ele sem reserva, são precisamente os da tenebrosa noite do espírito. Embora te pareça que tudo se desmorona sob o s teus pés, embora a tempestade te arraste a ponto de te sentires tentado contra a fé e contra a esperança, não deves temer, porque nesta noite te encontrarás, de um modo particular, sob a ação do Espírito Santo. É Ele que, coma chama viva do Seu amor, põe a ferro e fogo a tua alma para a purificar, mas ao mesmo tempo Ele próprio a cobre com a Sua sombra, infundindo-lhe secretamente a força de resistir, doseando o sofrimento de maneira a não exceder a tua capacidade. Não temas, estás em boas mãos; estás protegido pela sombra do Altíssimo e nenhum mal te poderá acontecer desde que te submetas voluntária e docilmente à Sua ação purificadora. Aceita e repete continuamente o teu “fiat”; é isto o que o Senhor quer de ti neste estado e o que tu podes e deves fazer mesmo no meio das tempestades mais violentas. Esta adesão pura e simples da vontade prender-te-á a Deus e ancorar-te-á nEle impedindo-te de naufragar. Não importa que não saibas fazer ou dizer mais nada, não importa que sejas incapaz de longas orações; no jardim das Oliveiras, Jesus não fez mais do que repetir: “Pai… faça-se a tua vontade” (Mt. 26, 42). Que seja esta a tua oração, oração mais do coração que dos lábios, atitude profunda de pura adesão à vontade de Deus, na qual deves mergulhar com todas as forças do teu espírito. Esta adesão deverá tornar-se tão forte, tão plena, tão filial e confiante, que se transforme num contínuo ato de abandono: “Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito” (Lc. 23, 46). Também Jesus pronunciou esse ato no abatimento e na desolação, abatimento e desolação infinitamente maiores do que os que tu podes experimentar. Une-te a Jesus agonizante, apoia-te nEle e nEle encontrarás força para aceitares e para resistires. Fixando o olhar em Jesus Crucificado, que reconciliou e uniu o gênero humano com o Seu divino Pai mediante a Sua Paixão e Morte, compreenderás cada vez melhor que a união com Deus “não consiste em recreações e gostos e sentimentos espirituais, mas em uma viva morte de cruz sensitiva e espiritual, isto é, interior e exterior” (J.C. S. II, 7, 11).

Colóquio – “Onde está, ó meu Deus, o sol da Vossa graça? Parece-me obscurecido: a Vossa bondade parece que se retirou totalmente da minha alma. Agora estou abandonada como um corpo que, privado de membros, nada pode fazer, ou como um tronco estéril porquanto, sendo-me retirada a Vossa graça, não me posso valer. Ó meu Deus, estendei sobre mim a Vossa dextra e dai-me fortaleza.

“Ó eterno Pai, se o Vosso Verbo estiver comigo, quem me poderá contradizer? Quem me poderá mover, e muito menos abater ou vencer? As tempestades açoitarão a superfície, mas não o íntimo do coração. Se me quiserem fazer sofrer, que o façam; de boamente o aceito porque assim o quereis; mas nunca me poderão inquietar o ânimo, pois está sempre abandonado ao Vosso beneplácito divino. Acalmarei qualquer perturbação pensando que estes trabalhos provêm da Vossa vontade e submergir-me-ei na baixeza do meu ser. Se estas penas me precipitarem no inferno, elevar-me-ei até ao céu com o Vosso auxílio e me Vosso nome vencerei todos os combates.

“Não obstante, conheço a minha fragilidade, e durante esta prova, breve ou longa, consoante Vos aprouver, numerosas batalhas se poderão travar; mas eu bem sei o que hei de fazer: confiarei em Vós e jamais serei abalada” (S.ta M. Madalena de Pazzi).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico