O Senhor estava por mais de três horas na cruz. Durante todo tempo rogava ao Pai e oferecia seu sacrifício pelos nossos pecados. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? – o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mt 27, 46). Todos o ouviram se dirigir ao Pai usando as palavras do rei Davi (Cf. SI 21 , 2).
Estava o Senhor com o corpo chagado, a alma amargurada, perseguido e abandonado, sentia falta de tudo, não tinha onde repousar a cabeça, tinha somente a cruz. Ser aparentemente desamparado, justamente por obedecer a seu Pai, escapa a compreensão humana. Devemos agradecer ao Espírito Santo por iluminar o evangelista que transmitiu a frase de Jesus, queixando-se de abandono, assim podemos meditar muito nesta passagem.
Foi surpreendente que o Senhor quase morto, debilitado pela perda de sangue e quase sem forças, exclamasse em alta voz, mostrando toda a angustia e solidão: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
É um segredo da justiça e misericórdia de Deus. O Justo é desamparado na sua tristeza, para que fossem protegidos os pecadores. A razão humana leva a pensar que a justiça, pela morte de seu Filho, seria a destruição de todas as nações. Mas não foi isso que aconteceu, o Pai abandona o Filho e faz com que sinta a pena que mereciam os nossos pecados. Tudo isso, Deus fez para nos consolar, para que tivéssemos uma esperança na sua misericórdia, uma vez que se cumpriu toda a justiça.
Jesus nu nca tinha sentido o desamparo de Deus. Estava constantemente na presença de Deus, face-a-face, sempre de uma maneira direta, porque o Pai e o Filho são um único Deus. Mas o homem pode se separar de Deus, e para nossa salvação, quis Deus Pai que na cruz Jesus sentisse a ausência de Deus.
Em nenhum momento Jesus perdeu a confiança no Pai. Pouco antes, confiantemente havia pedido perdão para a humanidade, depois também com muita confiança entregaria o espírito nas mãos do Pai. Era impossível que o Pai abandonasse o Filho tão querido e obediente, que somente buscava a glória de Deus e em tudo se submeteu a sua vontade. Já havia declarado uma total confiança dizendo: Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado (Jo 8, 29).
No entanto, desamparou-o durante os últimos momentos da Paixão, deixando-o sentir toda amargura e toda solidão. Podia ter impedido a flagelação, a coroa de espinhos, os cravos, ou aniquilar os que queriam crucificá-lo e calar os que insultavam. Porém Deus nada impediu.
Sabemos que os mártires recebem de Deus uma graça especial, para poderem suportar toda tortura e aceitar com alegria uma morte tão cruel por amor de Jesus. O Pai poderia conceder uma graça maior ainda para proteger seu Filho, por exemplo, poderia colocar a sua disposição um exército de anjos.
Como havia dito a Pilatos, não convinha, pois o seu reino não é deste mundo. Deviam se cumprir as Escrituras, por isso Deus deixou as trevas agirem livremente sobre Jesus. O Senhor havia pedido no horto que, se fosse possível, o cálice fosse afastado, mas entendeu completamente que a vontade divina já estava escrita. Morreria sem nenhuma defesa, não seria poupado de nenhum sofrimento, e isso se cumpriu com tanta dureza que não pode reprimir o grito de angústia: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
Podia Deus conceder um consolo interior, na alma. Mesmo sofrendo a dor física, preservaria a dor em seu coração. É normal Deus conceder a graça aos fiéis, sentem-se alegres por poderem sofrer por ele; sentem-se tão perto de Deus, parece-lhes que nada os poderá atingir (Cf. SI 90, 10). Não era necessário algo novo, bastaria não tirar a visão face-a-face que tinha de Deus.
Muitas vezes Deus atua assim: desampara os seus da consolação e proteção, deixa que sintam a própria fraqueza. Fez assim com Jesus para podermos aprender com o exemplo. Se Jesus não tivesse sofrido a solidão, nós teríamos ficado sem consolo na nossa debilidade. Por esta razão foi conveniente ocultar a glória e mostrá-lo somente com a natureza humana, deixá-lo sofrendo como se fosse apenas um homem. O terrível desamparo. Somente os que receberam uma especialíssima revelação de Deus conhecem o peso e a dor das palavras: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
É admirável que durante todo o julgamento não se defendeu e guardou silêncio, e agora que já estava na cruz, onde não tinha mais retorno, se lamentasse.
Mas o que parece tão surpreendente revela uma lição. Jesus tinha sofrido tudo calado e pacientemente, mas alguém poderia pensar que tinha a fortaleza das pedras e a carne de bronze (Cf. Jó 6, 12), que não sentia realmente dor ou sofrimento. Para que não ficasse dúvida que sofreu muito, queixou-se com aquele grito. (22)
Bastava olhá-lo para saber que seu corpo não era de bronze: estava com o rosto desfigurado e o corpo todo ensanguentado. Bastava ouvir os gemidos de dor para perceber que sua alma não era de pedra. Gritou e mostrou que era de carne e de osso e com sentimentos.
No horto havia mostrado os sentimentos, mas apenas três apóstolos presenciaram o momento. Quando os inimigos ficaram satisfeitos, e o Senhor já tinha sofrido tudo que era necessário; manifestou os sentimentos de seu coração para que soubéssemos que embora tenha sofrido muito em seu corpo, maior ainda foi a dor em sua alma. Aquele grito representava toda sua dor.
Não se queixou da traição de Judas, não reclamou de Pedro, nem dos sacerdotes, nem das falsas testemunhas, nem dos soldados, nem dos executores e nem de Pilatos. Não se lamentou de ninguém. Queixou-se ao Pai, somente ele poderia responder o motivo do desamparo.
Devemos aprender com Jesus: nos momentos de dificuldade encontraremos muito pouco apoio nos homens e, pelo contrário, muito em Deus. Pois, não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai (Mt 10, 29). As contrariedades são remédio para as doenças espirituais, Jesus é o médico que receita, ainda que sejam os homens a dar o medicamento. (23) Para aumentar o nosso mérito e a glória no céu, é Ele quem luta por nós e nos dá a coroa da vitória. O condenado não suplica ao carrasco, mas ao juiz; o doente não se trata com o farmacêutico, mas com o médico; os soldados não mostram suas feridas para outros soldados, mas ao comandante. Igualmente não devemos lançar a culpa e nem se vingar naqueles que são motivo da nossa contrariedade, mas levantar os olhos a Deus, que é o nosso Comandante, Médico e Juiz.
Naquele momento Jesus se sentia sozinho e chorava sua tristeza.
Falam de mim os que assentam as portas da cidade, escarnecem-me os que bebem vinho. Minha oração, porém, sobe até vós, Senhor, na hora de vossa misericórdia, ó Deus. Na vossa imensa bondade, escutai-me, segundo a fidelidade de vosso socorro (SI 68, 13-14).
No horto havia pedido que o Pai não o desamparasse, sujeitando-se totalmente a sua vontade, mas aparentemente foi abandonado e se queixou.
Perguntou qual o motivo do abandono. Com os homens a causa é pelo ódio e egoísmo, mas os motivos de Deus nascem do amor e são para o nosso proveito. Se soubéssemos os motivos não nos queixaríamos, somente agradeceríamos pela sua sabedoria. Por isso, perguntar com humildade significa desejo de submeter-se completamente à vontade de Deus.
As palavras seguintes do Salmo 21 fornecem a resposta. Os nossos pecados, que ele tomou para si, exigiam o abandono e a morte. O Senhor foi abandonado, para que nós não fossemos abandonados por Deus e condenados à morte eterna. Não havia motivo para Deus o abandonar, mas Ele estava no nosso lugar e recebeu o abandono e a morte que eram nossos.
Alguns que escutaram o lamento de Jesus: Eli, Eli, lammá sabactáni? Começaram a fazer um jogo de palavras, dizendo que chamava por Elias. Era uma zombaria. Elias deveria vir e anunciar o Messias, como achavam que Jesus era um falso messias, aproveitavam para fazer chacota. Mas Elias já tinha vindo na pessoa de João Batista (Cf. Mt 17, 13). Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: Tenho sede (Jo 19, 28).
A Paixão do Senhor, Luis de La Palma, 1624.
(22) No princípio do século II, surgiu uma heresia denominada Docetlsmo. Viam em Cristo uma forma apenas aparente de Deus, por isso só teria sofrido e morrido na aparência, com isso não reconheciam a ressurreição.
(23) Assim acontece no Sacramento da Penitência, o sacerdote ministra, mas quem perdoa é Cristo.
Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico