Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico

Do verdadeiro motivo da esperança cristã

Do verdadeiro motivo da esperança cristã. Esse motivo é o mesmo para todos os homens

Consoante a Religião, o motivo da Esperança cristã, ou da confiança em Deus, é o mesmo para todos os homens, santos ou pecadores.

A Esperança, como já dissemos, é uma virtude teologal, como a Fé e a Caridade. O seu motivo não pode, pois, ser achado senão em Deus, não pode apoiar-se senão nas perfeições divinas. Assim sendo, excluímos desse motivo os nossos méritos. Não esperamos em Deus por lhe havermos sido fiéis: esperamos n’Ele para obtermos a graça de lhe sermos fiéis.

Em que é que se funda, pois, a Esperança cristã? e qual é o motivo dela segundo a Religião? O Papa Benedito XIV, no modelo do Ato de Esperança, exprimiu as perfeições divinas que formam esse motivo. Esse ato é assim: Meu Deus, espero em vós porque sois fiel às vossas promessas, sois todo-poderoso, e porque infinitas são as vossas misericórdias. Nesse motivo não há nada do homem; tudo é tomado em Deus mesmo. E pode haver motivo mais forte para nos firmar na Esperança, na confiança em Deus?

Achamos ai a misericórdia de Deus, que é mais solicita em derramar os seus dons sobre os homens do que estes são em recebê-las; que quer o verdadeiro bem deles, a sua salvação, muito mais sinceramente do que o querem eles próprios, visto que Ele os previne pela sua graça, graça que eles não podem merecer; visto que lhes prepara socorros proporcionados às provações em que os coloca, socorros que eles podem obter por suas preces, e de que podem fazer uso para resistir ao inimigo da salvação: misericórdia infinita, por conseguinte superior a toda a malícia dos homens; e que, depois de se haver manifestado de maneira tão evidente e tão admirável pelo dom que Deus nos fez de seu Filho único para nos remir não nos recusará os socorros que Ele tem em vista proporcionar-nos por meio desse beneficio extraordinário.

Os efeitos dessa divina misericórdia são nos assegurados pelas promessas que Deus nos fez de vir em nosso socorro quando o reclamássemos, para operar a nossa salvação. Essencialmente verdadeiro, Deus não pode enganar-nos; e Ele é essencialmente fiel às promessas que faz às suas criatura. Ora, nos Livros Santos achamos as exortações mais tocantes para recorrermos a Ele nas nossas necessidades, com promessa de que Ele será o nosso sustentáculo e a nossa força. Podemos, então, ter a menor desconfiança, o menor temor refletido de que Ele nos rejeite, de que nos abandone, quando o invocarmos com confiança? Não seria isto acusar Deus de faltar à sua promessa? Ora, isto seria uma blasfêmia.

Verdade é que, para nos atender, Deus exige que o invoquemos com confiança. Mas também mereceríamos obter os seus benefícios se os pedíssemos com um coração vacilante sobre a sua bondade, bondade cujos efeitos experimentamos a cada instante e de tantas maneiras? Não, diz ­nos o Apóstolo S. Tiago (Tgo 1, 6), um coração que reza com essa disposição de desconfiança não obterá nada. E vemos que Jesus Cristo, na sua vida mortal (Mt 9, 22), só concedia milagres à confiança.

A onipotência de Deus dá o último traço a este motivo de Esperança cristã, fazendo-nos considerar-nos superiores a todas as nossas necessidades. Muitas vezes, os homens prometem o que não está no poder deles dar: assim não sucede com Deus onipotente. Ele não pode achar obstáculo insuperável à sua vontade nos dons que quer fazer-nos. Nos tesouros infinitos das suas graças Ele tem meios infalíveis para nos conduzir à santidade. Nunca devemos, pois, recear pedir-lhe ou coisas demasiadas ou coisas demasiadamente difíceis.

Infinitamente rico, Deus possui todos os bens, na ordem da graça, como na ordem da natureza. Infinitamente poderoso, não há nenhum dos seus bens de que Ele não nos possa dar parte. Infinitamente bom, Ele está disposto, segundo as suas promessas, a nos conceder tudo o que nos é necessário para a nossa salvação. É nestes motivos essenciais, hauridos nas perfeições de Deus, que todos os homens devem fundar a sua esperança. Só eles podem dar à nossa confiança essa firmeza inabalável que ela deve ter.

Tratado do Desânimo nas Vias da Piedade, Padre J. Michel da Companhia de Jesus, 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico