Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Parábola do Servo Mau [detalhe], por Domenico Fetti, por volta de 1620, Domínio Público / Wikimedia Commons

O perdão – Vigésimo Primeiro Domingo depois do Pentecostes

Senhor, ensinai-me a perdoar com generosidade e concedei-me o Vosso perdão.

1 – “O reino dos céus é semelhante a um rei que quis fazer as contas com os seus servos”. O Evangelho de hoje (Mt. 18, 23-35) faz alusão às contas que todos seremos um dia chamados a prestar; pensamento grave que nos leva a refletir, como o fizemos já no domingo passado, sobre o estado da nossa consciência. Todavia, ao prosseguirmos a leitura da parábola, conforta-se-nos o coração: sob a figura do rei, Deus mostra-Se tão bom, tão misericordioso e compassivo para com o pobre servo que não pode pagar a dívida, que tudo lhe perdoa e o deixa ir em liberdade.

A dívida daquele servo não era pequena: dez mil talentos. As nossas dívidas para com Deus, porém, são muito maiores; não podem ser calculadas em dinheiro, em ouro ou prata, mas segundo o preço do nosso resgate, o preciosíssimo Sangue de Jesus. As nossas dívidas são os nossos pecados que precisam de ser lavados pelo Sangue de um Deus. Dívidas que, de uma forma mais ou menos leve, apesar da nossa boa vontade, aumentamos de dia para dia, pelo menos com as quedas de fragilidade e fraqueza. Quem poderá dizer, ao fim do dia, que não contraiu novas dívidas para com Deus? Se no fim da vida Deus nos mostrasse a conta exata do nosso déficit, encontrar-nos-íamos numa situação bem mais embaraçosa do que o servo da parábola. Mas Deus é bondade infinita, conhece e compadece-Se da nossa miséria; sempre que nos apresentamos humilhados na Sua presença, confessando as nossas faltas, Ele perdoa-nos imediatamente e absolve-nos de toda a dívida. Deus é magnânimo no Seu perdão: não nos lança em rosto as culpas já choradas, nem as tem já em conta; o Seu perdão é tão grande, tão pleno, que não só anula as dívidas, mas até destrói a lembrança delas como se nunca tivessem existido. Basta-Lhe ver-nos arrependidos, para que qualquer chaga, por mais gangrenada e repugnante que seja, fique curada pelo preciosíssimo Sangue de Jesus. O Sangue de Cristo é como um mar infinito que tem o poder de lavar e destruir os pecados de toda a humanidade, contanto que sejam sinceramente detestados; em cada dia, em cada instante, podemos pegar no fardo mais ou menos pesado das nossas culpas, das nossas infidelidades e fazê-lo desaparecer neste oceano de graça e de amor, certos de que não ficará nenhum rasto.

2 – A segunda parte da parábola fala do nosso perdão. Ao voltar a casa aquele afortunado servo que fora absolvido de toda a dívida, encontrou-se com um seu companheiro de toda a dívida, encontrou-se com um seu companheiro que lhe devia cem denários, soma verdadeiramente ínfima em comparação com os dez mil talentos que lhe tinham sido perdoados; mas este homem que fora tratado com tanta piedade, não demonstrou nenhuma para com os eu semelhante, não atendeu às suas súplicas e lágrimas, antes “se retirou e fez que o metessem na prisão até pagar a dívida”.

Enquanto há pouco nos comovíamos com a bondade do Senhor, agora sentimo-nos indignados pela crueldade do servo. E todavia, embora corando, temos de reconhecer que, tal como a bondade do amo é a imagem da misericórdia de Deus, a crueldade dos ervo é a imagem da nossa dureza, da nossa avareza em perdoar ao próximo. Infelizmente nós, que temos mais necessidade do perdão de Deus que do pão de cada dia, somos tão duros, tão exigentes para com os nossos semelhantes, tão difíceis em ser indulgentes e em perdoar. Que dívidas poderá ter o próximo para conosco em comparação das que nós temos para com Deus? Na verdade, infinitamente menos que uns poucos de denários em proporção dos dez mil talentos, porque se trata de uma ofensa feita a uma criatura miserável em relação à ofensa feita à Majestade infinita de Deus. Mas eis o contraste: Deus perdoa, esquece, anula inteiramente as nossas graves dívidas e não cessa de nos amar e de nos favorecer, apesar das nossas contínuas infidelidades; nós, ao contrário, só com grande custo somos capazes de perdoar alguma pequena ofensa e, ainda que perdoemos, não sabemos esquecer inteiramente, de tal maneira que, chega a ocasião, estamos prontos a lançá-la em rosto. Que seria então se o próximo cometesse todos os dias para conosco tantas infidelidades e indelicadezas como nós cometemos para com Deus? Oh! quão miserável e mesquinho é o nosso perdão!

A parábola refere o castigo infligido pelo amo ao servo cruel: “irado, entregou-o aos algozes até que pagasse toda a dívida”; e logo se segue a conclusão: “Assim também vos fará meu Pai celestial se não perdoardes do íntimo dos vossos corações cada um a seu irmão”. Se queremos que Deus seja magnânimo em nos perdoar, devemos sê-lo para com o próximo; na medida em que perdoarmos, seremos perdoados. Isto significa que somos nós próprios a dar a Deus a medida exata da misericórdia que há de usar para conosco.

Colóquio – “Haverá alguém, Senhor, que não seja devedor para conVosco? Quem não tem por devedor algum dos seus irmãos? Por isso estabelecestes, na Vossa justiça, que a Vossa norma de conduta para comigo, Vosso devedor, fosse a que eu seguisse com quem é meu devedor. Portanto, visto que também eu pequei – e quanto” devo ser indulgente para com quem me pede perdão. Chegará o momento da oração e terei então de Vos dizer: ‘Perdoai-me, Senhor, as minhas dívidas’. E como? Eu ponho a condição, eu mesmo dito a lei: ‘Perdoai como eu perdoo’.

“No Evangelho, Senhor, fizestes registrar duas breves sentenças: ‘Perdoai e sereis perdoados, dai e recebereis’. É esta a minha oração: pelo-Vos perdão pelo meu pecado e Vós quereis que haja alguém a quem eu perdoe.

“Assim como o pobre me pede esmola, também eu, que sou Vosso pobre, estou à porta do pai de família, junto dela me prostro, suplicando com gemidos, no desejo de receber alguma coisa, e o que eu desejo sois Vós. O pobre pede-me pão, e o que Vos peço eu senão Vós mesmo que dissestes: ‘Eu sou o pão vivo que desci do céu’?

“Perdoarei para obter perdão; remitirei aos outros e ser-me-á remitido. querendo receber, darei e ser-me-á dado.

“É difícil, para mim, perdoar a quem me ofende? Recorrerei à oração. Em vez de repelir injúrias com injúrias, rezarei pelo injuriador. Se tiver vontade de lhe responder duramente, falar-Vos-ei a Vós, Senhor, em seu favor. E em seguida lembrar-vos-ei a Vós, Senhor, em seu favor. E em seguida lembrar-me-ei de que Vós prometeis a vida eterna, mas ordenais que perdoemos ao irmão. É como se me dissésseis: ‘Tu, que és homem, perdoa a outro homem, a fim de que u , que sou Deus, possa vir a ti'” (S..to Agostinho).

Intimidade Divina, Meditações Sobre a Vida Interior Para Todos os Dias do Ano, P. Gabriel de Sta M. Madalena O.C.D. 1952.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico