Ad Gloriam Dei et Salutem Animarum
Arsenal
CAtólico
Ave Maria
Fonte da imagem: Senza Pagare

Devoção a Santíssima Virgem Medianeira de Todas as Graças

Princípio Fundamental

A mediação universal de Maria é uma como síntese de tudo o que Maria é e faz para com Deus em favor dos homens, em ordem à aquisição da graça e à consecução da vida eterna. Daí nascem três relações da mediação de Maria: 1ª. para com Deus, 2ª. para com os homens, e 3ª. para com a graça.

Com respeito a Deus, esta mediação além da dignidade, santidade e merecimentos que supõe ou inclui, é o seu poder incomparável, o qual com o seu livre assentimento determina a realização da Redenção dos homens, e com a sua intercessão determina a aplicação dos frutos dela.

Com respeito aos homens, esta mediação consiste numa solicitude amorosa e diligente com que Maria olha por seus filhos e se interessa por eles.

Com relação à graça, a mediação de Maria é a sua ação particularmente ordenada, e até exclusivamente orientada para asantificação e salvação eterna dos homens.

Afora estas três relações, devemos considerar ainda na mediação de Maria três propriedades essenciais, que devem dirigir e determinar a nossa devoção: 1ª. caráter de subordinação à obra salvadora do Redentor, a respeito da qual a mediação é uma associação ou cooperação; 2ª. índole maternal; 3ª. extensão universal.

Assim considerada, com estas relações e propriedades, a mediação de Maria é o objeto próprio da nossa devoção a Maria Medianeira. E como o objeto de uma devoção é o que determina, caracteriza e especifica os atos desta devoção, segue-se que o princípio ou norma fundamental da nossa devoção deve ser a sua correspondência adequada com o objeto, isto é, com a mediação integralmente considerada. A devoção será tanto mais perfeita quanto mais adequadamente responder ao seu objeto.

À luz deste princípio fundamental consideraremos: 1º. os elementos que devem constituir a nossa devoção a Maria Medianeira; 2º. a sua influência ou aplicação universal a toda a nossa vida; 3º. a sua harmonização com as principais devoções da vida cristã, ou seja o lugar hierárquico que dentro delas lhe compete.

Elementos Constituivos da Devoção

Consideramos três relações na mediação de Maria: O seu poder junto de Deus, o seu amor para com os homens, o seu poder de orientação para a santidade.

A estas três relações da mediação correspondem três elementos na devoção: 1º. Apreço e estima do poder de Maria; 2º. terna confiança no seu amor; 3º. orientação da devoção para a aquisição da santidade.

1º. Apreço e estima do poder de Maria

Este apreço e estima do poder e valimento de Maria junto de Deus há de constituir mesmo a base da nossa devoção.

Sem esta estima e apreço, careceremos absolutamente de estímulo para recorrermos a Maria; com ele, ao contrário, sentir-nos-emos impelidos e como que arrastados para aquele poder benéfico, do qual depende a realização de todos os nossos desejos, e a sorte final da nossa vida.

Por que é que alguns, por desgraça, são tão descuidados na devoção a Maria? Porque não apreciam devidamente o seu poder.

Interessa-nos, pois, sumamente adquirir a maior estima possível do poder de Maria junto de Deus. E basta conhecê-lo para o estimarmos espontaneamente.

O poder de Maria existe: o que às vezes falta é o conhecimento desse poder. E para o conhecer, é preciso estudá-lo e meditá-lo. O estudo diligente, a atenta e profunda meditação, abrir-nos-ão caminho para conhecer as maravilhas deste poder, com uma luz cada vez maior e uma convicção sempre crescente. E como a raiz deste poder é a excelsa dignidade de Maria, verdadeira Mãe de Deus, a sua incomparável santidade e os tesouros de seus merecimentos, tudo o que contribuir a desenvolver em nós a mais alta ideia de Maria, contribuirá igualmente para o conhecimento e estima do poder maravilhoso da sua mediação. Este conhecimento e estima aumentarão mais diretamente ainda, se considerarmos diligentemente a dupla atuação deste poder em ordem à salvação dos homens.

Esta atuação fez-se no dia da Anunciação, quando Maria pronunciou livremente a última palavra esperada para se realizar a Redenção do gênero humano, e faz-se atualmente no Céu onde a sua intercessão onipotente determina a distribuição das graças entre os homens. Numa palavra: estudemos e consideremos a mediação, e conheceremos e estimaremos, como merece, o seu poder maravilhoso.

2º. Terna confiança no amor de Maria

O poder só por si esmaga: afasta em vez de atrair. Para que o poder se converta numa força benéfica, deve ir acompanhado da bondade e do amor.

Felizes de nós! Pois o amor em Maria iguala o seu poder, e apresenta por assim dizer todas as tonalidades do amor. É a um tempo chama ardente e calor suave; é generosidade e compaixão; é afeto profundo e ternura carinhosa; é benignidade, condescendência, delicadeza, desvelo, solicitude e, se a palava não é irreverente, é obstinação. Enfim, é amor de Mãe, tão terno como abnegado, tão ativo como afetuoso.

A este amor maternal há de corresponder da nossa parte um amor filial. O apreço e estima são antes um requisito da devoção: a alma ou a medula desta devoção é a confiança.

E como o amor de Maria apresenta todas as formas do amor, assim a nossa confiança deve revestir todas as formas da confiança.

Confiança é a esperança certa, livre de receios; e sem receios tudo havemos de esperar de Maria, tudo lhe havemos de confiar.

Confiança é também intimidade no trato, sem doblez nem encolhimento; é simplicidade, espontaneidade infantil, e até, ingênua ousadia da criança com sua mãe: as nossas penas e alegrias, aspirações e segredos, tudo havemos de confiar a Maria.

Confiança, enfim é a entrega de si mesmo, é depositar os seus interesses nas mãos de outrem; e em mãos de Maria havemos de colocar todos os nossos interesses temporais e eternos: o remédio dos nossos males, o bom despacho dos nossos negócios, a realização dos nossos desejos, o êxito das nossas empresas. Em suma, ao amor da Mãe há de corresponder a confiança dos filhos. Esta confiança crescerá com a experiência; e, como São Paulo diz da esperança, longe de entibiar-se ou desmaiar com as tribulações, contratempos e dificuldades, a confiança tornar-se-á mais viva e mais forte.

Graças a esta confiança viveremos consolados, seguros de alcançar de Deus pela amorosa mediação de Maria, tudo o que nos for necessário, sobretudo a salvação eterna da nossa alma, com a certeza de que os nossos miseráveis obséquios, apresentados a Deus pelas benditas mãos de Maria, serão sempre gratos a sua divina Majestade.

3º. Orientação para a santidade

A mediação de Maria, está toda ordenada à nossa santificação: por isso, reciprocamente a nossa devoção há de estar constantemente orientada e encaminhada para a santidade.

A facilidade em alcançar a graça pela mediação de Maria não há de levar-nos a desprezar a graça presente, com o perigoso pretexto de a encontrarmos mais tarde: uma pretensão tão louca podia ser desastrosa para a nossa alma. Porque se é verdade que a misericórdia e poder de Maria se comprazem às vezes em salvar, nos últimos momentos, os pecadores mais endurecidos, não é menos verdade que seria loucura funestíssima fiar a eterna salvação dum desses milagres extraordinários da graça. Precisamente o maior obstáculo que o pecador pode pôr a estas fulminantes manifestações da graça é servir-se dessa confiança néscia para perseverar no pecado.Também não havemos de limitar a nossa devoção a Maria Medianeira a pedir-lhe principalmente os bens materiais. É bom, sem dúvida, recorrer a Maria nas necessidades temporais; mas o que devemos principalmente buscar na mediação de Maria são os bens espirituais.

Quanto aos bens materiais, devemos subordiná-los à nossa santificação e salvação eterna. Dentro dos mesmos bens espirituais, não nos havemos de contentar com os graus inferiores, mas aspirar generosamente aos mais elevados e perfeitos.

Para tudo é eficaz a mediação de Maria. Por Maria havemos de pedir a Deus que nos livre do pecado, sobretudo do pecado mortal; mas, não contentes com isso, havemos de pedir-lhe também que nos livre das imperfeições, que arranque do nosso coração a raiz dos vícios, nos inspire fervorosos alentos para lutar contra as más inclinações e para trabalhar denodadamente no exercício das boas obras e na aquisição das virtudes mais perfeitas; e passando mais adiante, havemos de empenhar-nos em alcançar de Deus, por meio de Maria, um amor ardente e apaixonado a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Cruz, donde nascerão a humildade mais profunda, a abnegação mais completa de nós mesmos, o total abandono nas mãos de Deus, o zelo ardente da sua maior glória.

Por fim, a eleição de Deus para os graus mais altos da oração e para as mais vastas empresas apostólicas é também fruto da mediação de Maria.

O fim desta mediação é a santidade mais consumada, e a ela nos há-de levar a devo­ção a Maria Medianeira. E visto ser Maria ao mesmo tempo o modelo mais acabado de toda a santidade, a parte principal da nossa devoção há de consistir no empenho constante em a imitar.

Aplicação Universal da Devoção à Mediação de Maria

A mediação de Maria é absolutamente universal ; por conseguinte, a devoção a esta mediação, para estar em harmonia com o seu objecto, deve ser reciprocamente universal na sua aplicação. Este influxo transcendental da devoção pode conceber-se de duas maneiras : 1 .o enquanto penetra a nossa vida sobrenatural ; 2.0 enquanto informa toda a nossa devoção a Maria.

1º. Influência na vida cristã

Toda a nossa vida sobrenatural, todo o exercício da virtude e da perfeição, consta de dois elementos principais: a graça de Deus e a nossa livre cooperação. Destes dois elementos o principal é sempre a graça divina, sem a qual seriam estéreis todos onossos esforços para alcançar a santidade.

O influxo da graça estende-se portanto a toda a nossa vida sobrenatural. E como esta graça se deve à mediação de Maria, e há de ser o fim principal da nossa devoção, segue-se que esta devoção deve influir igualmente em toda a vida cristã, dirigir cada um dos nossos passos para a santidade, informar e fortalecer os nossos esforços para a alcançar.

Daqui resulta uma verdade capital da ascética cristã: e é que a devoção à media­ção de Maria não é um elemento acessório, mas um princípio universal e eficacíssimode santidade.

Nisto se parece a devoção a Maria Medianeira à devoção ao Coração de Jesus ou à Sagrada Eucaristia: é como elas uma energia santificadora, que há de informar parte de toda a ascética bem orientada. Eis porque os Santos professaram sempre uma devoção tão terna a Maria e principalmente à sua mediação universal.

2º. A Alma de toda a devoção a Maria

Mais em particular, a devoção à mediação deve informar a nossa devoção a Maria nos seus diferentes aspectos. Isto é, a devoção à mediação, longe de suprimir ou entibiar as belas devoções do povo cristão a diferentes títulos ou mistérios de Maria, deve ao contrário compenetrá-las, informá-las e realçá-las. Em todos estes mistérios e debaixo destes títulos resplandece sempre a parte ativa e decisiva que Maria teve e tem na obra da nossa reparação.

Por isso é muito fácil e proveitoso, considerá-los todos em função da sua mediação universal.

A Imaculada Conceição, primeira vitória de Maria sobre a serpente infernal, traz consigo aquela plenitude de graça da qual todos havemos de receber.

A Natividade de Maria é a doce aurora do dia da nossa salvação.

A Anunciação e a Maternidade divina recordam-nos a cooperação de Maria, pelo seu livre consentimento, na obra da nossa Redenção e a sua maternidade espiritual para com os homens.

A Visitação a Santa Isabel é a primeira intervenção santificadora de Maria, a cuja voz São João foi santificado e sua mãe cheia de graça.

A Purificação é a oblação antecipada da Vítima divina oferecida por Maria ao Pai celeste; por isso o velho Simeão profetiza a Maria a espada de dor que há de trespassar o seu coração maternal ao pé da Cruz.

As dores de Maria são a sua participação no sacrifício do Redentor, e são também as dores de parto que lhe custa a nossa regeneração espiritual.

A Assunção ao Céu, a coroação e entronização de Rainha do Céu e da terra são a tomada de posse do seu ofício de Advogada e Intercessora universal.

Enfim, o seu Coração maternal é o símbolo e como que o órgão do amor inefável que moveu e move Maria a intervir constantemente diante de Deus a favor dos homens para lhes alcançar a santidade e a vida eterna. Sob todos estes aspectos a devoção a Maria encerra a devoção à sua mediação universal.

É muito proveitoso que esta devoção à mediação implícita em toda a devoção a Maria, se faça explícita pela reflexão: deste modo aumentará de valor, tomando-se mais intensa e mais elevada, e, sobretudo, mais eficaz para a nossa santificação.

3º. Harmonia da devoção à mediação com as outras devoções

A devoção à mediação de Maria é essencial à vida cristã, mas não é a única; outras o são igualmente, sobretudo a devoção a Cristo Crucificado, à Sagrada Eucaristia e ao Coração de Jesus. É portanto necessário e indispensável saber harmonizar todas estas devoções, dando a cada uma o lugar que lhe compete. Servir-nos-emos para isso do princípio já estabelecido, de que a Mediação de Maria é uma associação à de Jesus Cristo ou uma Cooperação com ela. Por conseguinte, para responder adequadamente ao seu objeto, deve ser uma extensão ou complemento da devoção a Jesus Cristo, com a qual se há de harmonizar e à qual se deve subordinar.

Para compreender melhor a explicação deste princípio, convém considerar brevemente o lugar que Jesus Cristo deve ocupar na nossa devoção, e em geral na ascética cristã.

Jesus Cristo é Deus e Homem. Enquanto Deus, é nosso primeiro princípio e último fim. Enquanto homem, é o Mediador da nossa salvação.

Jesus Cristo é o grande dom que o Pai Celeste faz aos homens para a sua reparação; e Jesus Cristo, por sua vez, juntamente com o Pai, envia aos homens o grande dom do Espírito Santo. Na criação Jesus Cristo é o centro donde tudo parte e aonde tudo converge: é o princípio de unidade, de coesão e de vida.

Pode, pois, concluir-se com toda a propriedade que Jesus Cristo é o centro da religião cristã, o centro da liturgia sagrada, o centro de toda a ascética.

Por conseguinte, a nossa devoção há de orientar-se para Jesus Cristo, e ter a Jesus Cristo por objeto principal: N’Ele, com Ele e por Ele amaremos e glorificaremos juntamente o Pai em união com o Espírito Santo. Mas ao lado de Jesus está Maria, ao lado do Mediador está a Medianeira.

Por isso a nossa devoção a Jesus Cristo há de completar-se com a devoção à Medianeira da graça. E como na presente economia da graça divina a associação de Maria a Jesus Cristo é um elemento essencial, é também a devoção a Maria Medianeira, que deve completar a devoção a Jesus Cristo Medianeiro.

Esta devoção à Mãe ainda que deve estar subordinada à do Filho, contudo está-lhe indissoluvelmente unida. Pelo quê, excluir a devoção a Maria, como fazem os protestantes, é mutilar a obra de Deus.

O que Deus uniu indissoluvelmente, não deve, não pode o homem separá-lo. Mas, assim como convém tornar explícita com a maior frequência possível a devoção a Jesus Cristo, que está sempre implícita no espírito do Cristianismo, ainda mesmo quando nos dirigimos diretamente ao Pai; do mesmo modo, convém fazer quanto possível explícita com a reflexão a devoção a Maria Medianeira, apesar de estar pelo menos implícita em todos os atos da Religião Cristã.

Mais em particular, a devoção a Jesus Cristo reveste formas concretas na devoção à Sagrada Paixão, à Sagrada Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus.

Com estas devoções se há de harmonizar também a devoção a Maria Medianeira, que tanta conexão tem com elas.

A devoção às dores de Maria não é senão uma extensão da devoção à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; como a devoção ao Sagrado Coração de Maria é uma extensão ou complemento da devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

A mediação de Maria tem ainda laços muito estreitos com a Eucaristia. Com efeito, a carne e o sangue de Jesus Cristo são a carne e o sangue de Maria: carne e sangue que ela lhe deu para serem oferecidos e imolados por nossa Redenção. Nesta carne e neste sangue começou a incorporação dos homens em Jesus Cristo, incorporação que se consuma na Sagrada Eucaristia.

Além disso a Eucaristia é uma extensão da Incarnação: portanto assim como a Incarnação é devida ao livre consentimento da Santíssima Virgem, primeiro ato da sua mediação universal, assim é muito justo que a Eucaristia produza os seus frutos de vida eterna, mediante a sua intercessão atual, que é a consumação da sua mediação.

Maria Medianeira está sempre ao lado de Jesus Cristo Mediador: assim é na realidade, e assim deve ser na nossa devoção.

Se a mediação de Jesus Cristo, apesar de suficiente e superabundante, não exclui a mediação de Maria, também a mediação de Maria, guardada a devida proporção, não exclui a dos outros Santos. E como todas estas mediações se harmonizam maravilhosamente entre si, assim também se devem harmonizar na nossa devoção.

Com efeito, como a mediação de Maria é um prolongamento ou complemento da de Jesus Cristo, assim a mediação dos Santos é um prolongamento ou um complemento da mediação de Maria.

A mediação dos Santos apoia-se na da Santíssima Virgem, depende dela e está-lhe subordinada. Os Santos não intercedem diante de Deus senão apoiados na mediação de Maria: quer ela recomende a Jesus Cristo as orações dos Santos, quer estes depositem as suas petições nas mãos de Maria para que ela as apresente a seu Divino Filho.

Logo, se a confiança em Maria não exclui a invocação dos santos, muito menos a confiança nos santos há de excluir a invocação de Maria. E de fato, quanto mais explicitamente associarmos a invocação de Maria à dos Santos, com tanta maior segurança obteremos o feliz despacho nas nossas orações.

Mas entre todos os Santos, o que participa mais da eminente dignidade de Maria, o que está mais intimamente associado à sua mediação universal, é sem dúvida São José. É até provável, que, padroeiro e protetor que é da Igreja Universal, participe também, ainda que em menor grau, da mediação universal de Maria.

Por isso a devoção a Maria Medianeira de todas as graças há de ir acompanhada de uma afetuosa devoção ao glorioso Patriarca São José.

Maria Medianeira de Todas as Graças, pelo Padre José M. Bover, S. J. Tradução de Manuel Batista, S. J., 1957.

Última atualização do artigo em 12 de setembro de 2026 por Arsenal Católico